Rie_Março 3016

“Muitos serão os chamados e poucos serão escolhidos”. Jesus (Mt 22:14)

Será que entendemos corretamente o que Jesus disse quando nos deu tal informação?
Ao observar as fases da história humana, quanto às revelações espirituais, vemos que há uma cronologia inteligente que não atropela os nossos conhecimentos, chegando sempre na medida certa, oferecendo-nos o que podemos assimilar. Por isso veio primeiro Moisés, depois Jesus e finalmente o Espiritismo; a sequência não podia ser outra.
De Moisés para Jesus se passaram 1.200 anos e o Espiritismo surgiu somente 18 séculos e meio depois de Jesus, um acréscimo de 50% no tempo para vir à Terra em relação às Leis Mosaicas. Por que demorou tanto? Na verdade, se não fosse pelos poucos escolhidos ainda não teria vindo. Jesus demonstrou confiança nos poucos que já tinham disposição para dar pequeno impulso na civilização da Terra, para que o reino da paz, um dia, finalmente se estabeleça entre os homens. Sabia que seriam mais convictos do que os seus 12 discípulos que só o reconheceram depois que Ele se foi. Seriam mais perseverantes que os 500 da Galileia que logo desertaram e do que os 72 que foram aos pares pregar com a recomendação de não carregarem nem mesmo o pó na sandália dos que se recusassem a ouvir a boa nova; apenas diriam “paz seja convosco” e se despediriam.
Como o ciclo evolutivo do planeta não poderia mais esperar, Jesus sabia que na Terra estavam encarnados ou programados e preparando-se para nascer, criaturas como Bezerra de Menezes, Vianna de Carvalho, Cairbar Schutel, Yvonne do Amaral Pereira, Batuíra, Fabiano de Cristo, Teles de Menezes, Leopoldo Cirne, Chico Xavier, Léon Denis, Camille Flammarion, Eusápia Palladino, Pedro Camargo, Hippolyte Léon Denizard Rivail e tantos outros que se comportaram como pilastras para os alicerces e os primeiros andares do edifício espiritual da nova doutrina. Muitos outros nomes aqui não mencionados, por falha de memória ou de conhecimento, colaboraram na obra. Seus nomes estão inscritos no Céu. Nem falamos dos que que são pilastras neste início de milênio e que nasceram em meados do século XX.
Depois de 150 anos, os espíritas convictos, os que aplicam a lei a partir de si mesmos, ainda são poucos, mas de uma qualidade tal que se capacitam como agentes multiplicadores das revelações nos ambientes onde vivem: no lar, na escola, no trabalho, no templo ou na rua. São exemplos copiados pelos que já têm discernimento e bom senso. Não é sem motivo que os espíritas, vítimas do preconceito religioso que ainda persiste na atualidade, são reconhecidos como pessoas de bem e caridosos. E a cada dia o conceito melhora. O número de adeptos cresce porque o Espiritismo é fundamentado na razão e não nos dogmas que já não aceitamos sem raciocinar.
Quando nos foi dito que o Céu e a Terra não passariam até que fosse quitado o último centavo, significava que a separação seria feita cada vez mais aceleradamente. Se dependesse de uma humanidade totalmente regenerada para que o Espiritismo viesse à Terra, demoraria muitos milênios e não apenas 18 séculos. Percebam como Jesus confia e espera muito dos espíritas para a consolidação do seu Evangelho entre nós.
“Muitos serão os chamados”, disse Ele. Diríamos: Todos serão os chamados, mas poucos se escolherão. O chamamento é divino, mas a escolha é pessoal e intransferível. O livre-arbítrio decide o que desejamos para a nossa vida. Como o entendimento ainda é pouco, o número dos que se decidem por este caminho é pequeno. A convicção ainda não chegou a todas as mentes e corações.
Os espíritas que estão ainda mornos, que confundem sua vida mundana com as responsabilidades espirituais, precisam prestar mais atenção ao seu comportamento. Como disse Frei Beto num texto de 1º de janeiro de 1997, “é preciso que o líder dos direitos humanos não humilhe a mulher em casa; a professora de cidadania não atire papel no chão; as crianças cedam o lugar aos mais velhos; e a distância entre o público e o privado seja encurtada pela ponte da coerência”. Que o dizer seja igual ao ser e ao fazer. Que as lições sejam ensinadas mais pelo exemplo do que pelas palavras. O Amigo Éder Fávaro diz que em vez de entregar mensagens às pessoas temos de ser a própria mensagem; mostrar em vez de falar.
Logo que cheguei ao Espiritismo, conversando com um líder de um centro espírita, levei um susto quando ele me disse, seriamente: “No centro eu sou a pessoa que representa esta casa, mas fora daqui eu sou um homem comum, gosto de umas farrinhas, de uma cervejinha, etc. Afinal, eu também sou humano”. Apesar de noviço na doutrina, naquela hora já percebi o absurdo que aquele “líder espírita” dizia.
Tenho gratas recordações de meu pai, pedreiro analfabeto, que desencarnou aos 54 anos. Não era espírita nem rezador em qualquer doutrina, mas um cristão nato. Nunca me ensinou com palavras; preferia mostrar nele o que gostaria que eu fosse. Era o Evangelho ambulante, vivido nos menores acontecimentos de sua vida. Tenho certeza que ela era um dos escolhidos, embora, creio, nem mesmo ele soubesse disso. São almas maduras, de sabedoria, que vivem uma encarnação de aprendizado e resgate como operário, analfabeto, mas superam a falta das letras com a maturidade que já conquistaram.
Quando Jesus recrutou seus seguidores buscou-os entre pescadores e pessoas de vida simples. Não temos de argumentar que nos falta conhecimento para sermos seguidores do Cristo; basta ser honesto e amar ao próximo. Lembrar que são os poucos escolhidos que consertarão o mundo. Os bons, os gênios, os doutos, os desprendidos, os humildes formam uma exceção na sociedade planetária. Por isso nem sempre são reconhecidos no seu tempo. Façamos por ser um deles; e que Deus nos ajude. É o único tesouro que construímos na Terra para levar ao Céu.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – março de 2016