Walkiria Lúcia de Araújo Cavalcante – walkiria.wlac@yahoo.com.br 

“Verá ele, então, coroados de êxito os seus esforços e um grão produzir cem e outro mil. Animo, trabalhadores! Tomai dos vossos arados e das vossas charruas; lavrai os vossos corações; arrancai deles a cizânia; semeai a boa semente que o Senhor vos confia e o orvalho do amor lhe fará produzir frutos de caridade.” (Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XVIII, item 15) 

Aportar verdadeiramente no movimento espírita significa compreensão da Verdade e comprometimento com a mudança de atitude. A doutrina nos apascenta a alma indicando-nos o caminho a seguir e ungido-nos do Amor do Cristo Jesus para que tenhamos êxito no propósito alcançado.

Ao lermos O Livro dos Médiuns em seu capítulo intitulado Dissertações Espíritas, especialmente nos itens X a XV, vemos espíritos como Joana D’Arc e O Espírito de Verdade falarem sobre os médiuns. Classe que não se constitui de seres a parte ou especiais da criação divina, mas criaturas que possuímos uma ferramenta de trabalho, que é a mediunidade, a nos auxiliar e fortalecer a caminhada enquanto procuramos ajudar e fortalecer os que estão ao nosso redor através dela.

Se com relação aos trabalhos em geral que nos são ofertados no movimento espírita, existem aqueles que afirmam que só estão porque um dia foram ajudados numa instituição; existem aqueles que se declaram médiuns trabalhadores da seara espírita porque sentem a presença dos espíritos. Isto não se constitui uma verdade. Pois existem médiuns nas mais variadas religiões executando a prática da comunicabilidade com os mortos segundo a carne e que estão perfeitamente ajustados a estas religiões.

Não estamos com isso querendo afastar ninguém do movimento, muito pelo contrário. Desejamos demonstrar o real comprometimento que temos diante da doutrina e diante da mediunidade. Joana D’Arc nos apresenta o termo mediunato, um compromisso que assumimos perante Deus de sermos transmissores das mensagens que nos chegam contando com o concurso do Mais Alto. O nobre espírito alerta-nos sobre a vigilância necessária para a execução deste trabalho e de como os elogios podem ser perniciosos diante de uma criatura que não esteja devidamente consciente do trabalho abraçado.

Mostra-nos também a sintonia de amor que vincula as criaturas dos dois planos através da prática do bem. Pascal (item XIII) alerta-nos do necessário recolhimento, das sadias intenções e do desejo de fazer o bem. São trabalhos que não podem ser improvisados. Não podemos contar somente com a boa vontade. Na questão 64 do Livro Qualidade na Prática Mediúnica encontramos: “A boa vontade não basta. Já afirmava Goethe que ‘não pode haver nada pior de que um indivíduo com grande dose de boa vontade, mas sem discernimento de ação’. Acontece que a pessoa de boa vontade, não sabendo desempenhar a função a contento, termina fazendo uma confusão terrível.”

A criatura confunde-se, confundindo os outros. Pior, prejudica-se prejudicando os outros e a Doutrina como um todo. Pois são propagandistas equivocados que transmitem algo inverossímil da Doutrina Espírita. Ouço, ainda hoje, a preocupação sobre “a falta de caridade” com aqueles que não estão fazendo o correto, que entendem como deve ser feito e mesmo assim não fazem, acabando por exigir uma atuação mais incisiva por parte dos Dirigentes Espíritas. O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. X, item 19 a 21 fala-nos sobre se é permitido repreender os outros, notar as imperfeições de outrem, divulgar o mal de outrem. Sempre que possível, que se faça em particular, a sós com a pessoa. Com um fim útil, não pelo prazer de denegrir. O que não podemos é fingir que o mal não existe para não termos que ter participação na corrigenda necessária.

O Evangelho nos diz sobre a conveniência de desvendar o mal de outrem: “É muito delicada esta questão e, para resolvê-la, necessário se toma apelar para a caridade bem compreendida. Se as imperfeições de uma pessoa só a ela prejudicam, nenhuma utilidade haverá nunca em divulgá-la. Se, porém, podem acarretar prejuízo a terceiros, deve-se atender de preferência ao interesse do maior número. Segundo as circunstâncias, desmascarar a hipocrisia e a mentira pode constituir um dever, pois mais vale caia um homem, do que virem muitos a ser suas vítimas. Em tal caso, deve-se pesar a soma das vantagens e dos inconvenientes.”

Reafirmamos que são trabalhos que não podem ser improvisados, mas isto não significa dizer que precisamos esperar anos para executá-los. Devemos sim, ter o devido respeito ao que estamos fazendo, tratando de uma forma séria e estudando sempre. Pascal no referido item XII diz: “Que o médium, entre vós, que não sinta força para perseverar no ensinamento espírita, se abstenha; porque não aproveitando a luz que o ilumina, será menos escusável do que um outro, e deverá expiar a sua cegueira.”

Não estamos obrigados a nada. Mas se nos dispusermos a fazer, temos que agir da forma mais correta possível, fazer bem feito. Sendo melhor nos eximirmos da execução, tendo a consciência das futuras consequências, pois ninguém é médium por acaso. Assumimos uma responsabilidade antes de reencarnamos e deveremos dar conta da melhor forma possível deste comprometimento abençoado assumido. Deixando o amor-próprio de lado e a cegueira do fanatismo que tolda a visão e retarda os passos.

Tendo no Mestre Jesus o nosso modelo. Vendo Nele uma criatura operante, que não se eximiu de fazer o certo, mesmo que isto representasse a cruz. Temos as nossas cruzes a carregar, não podemos nos acovardar diante das possíveis celeumas que possam surgir. O Mestre não recuou no seu apostolado, também nós não deveremos recuar diante de nossas tarefas, sabendo que Ele está a nos sustentar os passos. O momento é de separação do joio do trigo. Sejamos o trigo!

Jornal O Clarim – março de 2016