Walkiria Lúcia de Araújo Cavalcante – walkiria.wlac@yahoo.com.br

“À luz da Psicologia Profunda, o perdão é a superação do sentimento perturbador do desforço, das figuras de vingança e de ódio através da perfeita integração do ser em si mesmo, sem deixar se ferir pelas ocorrências afugentes dos relacionamentos interpessoais.” (Jesus e o Evangelho a Luz da Psicologia Profunda, cap. 11 – Reconciliação)

Sempre somos solicitados a buscarmos dentre dois caminhos, um. Precisamos em detrimento dos fatos e de acordo com a nossa vontade, escolhermos a melhor parte. Em determinados momentos a melhor parte é nos abstermos de escolher um dos lados e esperar a melhor parte que Deus reserva para nós.

Ao reencarnarmos cumprimos uma programação espiritual que nos vincula ao meio que iremos encarnar e as situações que nos encaminharão para o devido reajuste moral necessário para a evolução. Pois bem, vamos no caminhar dos tempos adquirindo experiências que nos permitem fazer as melhores escolhas em detrimento do aprendizado/reajustamento. Estas experiências proporcionam um cabedal de conhecimento para que possamos escolher a melhor parte que nos compete na encarnação.

Acontece, que seguindo o pensamento que não existe acaso, encontramo-nos mergulhados em meio ambiente inamistoso, diante dos propósitos que acreditamos abraçar e por mais que procuremos ajustar o caminho escolhido a base fundamentada de conhecimento, isto não nos garante o sucesso almejado, à princípio. Os que não tem conhecimento da doutrina espírita podem afirmar que isto faz parte dos castigos de Deus. Alguns espíritas, que estão sofrendo ataque de obsessores. Os aclarados da mente, entende que toda hora é hora de plantio, mas que não devemos nos furtar da colheita obrigatória.

Quando reencarnamos seguimos sim uma programação, mas isto não significa dizer que constitui-se numa carta fechada. Possuímos o livre arbítrio. Outro ponto a destacar é que somado a colheita atual que provem de outras encarnações, existe a colheita imediata do plantio presente. Representada pelo bem estar e felicidade proporcionada pelo dever moral cumprido. Porquê dever moral? Existem as reações do feito diretamente por nós, mas existem tantas outras que contribuímos para a execução dos outros. Somos partícipes dos atos alheios e nos vinculamos moralmente ao fato ocorrido. Mesmo que fisicamente, não tenhamos envolvimento.

Não significa que em virtude deste pensamento desenvolvamos nenhuma paranóia. Precisamos sim, estarmos conscientes do que estamos fazendo e os meios de atuarmos de forma positiva perante a vida. Existem situações que possuímos o controle, mas existem outras que estão vinculadas a nossa necessidade evolutiva. Que cumpre a Deus, as Leis a sua fiel execução. Sendo que o processo de entendimento parte de nós para o outro, não o inverso.

Pedra de toque constitui-se o perdão nos dias atuais. Como se perdoar tantas atrocidades que acontecem com as criaturas por toda parte? Como não nos tornarmos justiceiros diante da apatia de parte daqueles que deveriam nos proteger? Como tratar como ser humano aqueles que já se esqueceram de serem seres humanos? “O julgamento legal tem raízes nas conquistas da ética e do direito, do desenvolvimento cultural dos povos e dos homens, concedendo ao réu a oportunidade de defesa enquanto são tomadas providências hábeis para que sejam preservados os seus valores humanos, as suas conquistas de cidadão. Essa a diferença entre a conduta da civilização em relação à barbárie, do homem vencedor da sombra em confronto com o mergulhado nela. Examina-se a conduta infeliz de alguém que cometeu um delito, sem dúvida, mas não perdeu a qualidade de ser humano, requerendo dignidade e misericórdia, por mais hediondo haja sido o seu crime, a fim de não se lhe equipararem em rudeza e primitivismo os seus julgadores.” (Jesus e o Evangelho a Luz da Psicologia Profunda, cap. 12 – Julgamentos)

Sentimo-nos como que tentados a darmos a solução que gostaríamos, aquela que catalogamos como a melhor. Esquecendo-nos que a melhor parte reservada para nós pela Divindade é a plenificação da criatura humana. De toda a criatura humana, não só daqueles que se assemelham em atitudes ao ser humano como criatura evoluída intelectual e moralmente. Joanna de Ângelis nos fala mais sobre a questão do julgamento traz-nos o pensamento que a medida que devemos usar para realizar o julgamento das atitudes do outro passa pela ética, justiça e dignidade.

Não podemos projetar o nosso lado sombra no outro acreditando que punindo de forma arbitrária o comportamento alheio estaremos refreando de alguma forma o desejo que possuímos de executar também o que o outro está fazendo. A impiedade não pode permear a nossa decisão nesta hora. Dentro da classe dos que projetam o lado sombra no outro e procuram cercear no outro aquilo que grita em si, existem aqueles perturbadores da sociedade que especializam-se em trazer à tona as torpezas morais do semelhante revestindo-se de puritanismo e de legalidade, mas que encontram-se tão corrompidos quanto àqueles a quem julgam.

Não estamos dizendo com isso que o errado não deva ser corrigido, mas que evitemos as exagerações tão comuns nos tempos atuais e que não projetemos no outro aquilo que compete a nós resolvermos. Muito se fala com abordagem didática espírita ou não sobre a questão da felicidade e que ela parte de nós e não dos outros. Que o que importa mais não é o que o outro nos faz, mas como reagimos diante do que o outro nos faz. Isto constitui-se uma verdade. Por vezes escolheremos um lado, uma via a seguir; por outras teremos a devida resignação, acreditando nas Leis e sabendo que na estrada da vida que constitui-se a encarnação presente, existem curvas às quais não sabemos o que iremos encontrar. Deus é nosso Pai Amado e não permitiria que passássemos por esta ou aquela situação se não fosse necessária para o nosso aprendizado e aperfeiçoamento. Confiemos Nele.

Jornal O Clarim – abril de 2016