RIE_Maio_2016

 

Nesta Terra ainda atrasada, há muitas práticas que violentam o bom e o justo.

Octávio Caumo Serrano | caumo@caumo.com

De qual violência falamos quando encabeçamos manifestações de protesto em favor da preservação da vida? Da violência contra o corpo? Essa é a que menos mal causa ao homem, espírito eterno, imortal, que está na Terra para um curso rápido de evolução espiritual. E quase sempre sai daqui reprovado, tendo de voltar rápido para nova experiência.

Violência é ver as pessoas passarem de três a quatro horas num salão de beleza, gastando o equivalente aos salários que sustentariam várias famílias. Sustentar não é bem o verbo; mais apropriado seria dizer que aqueles salários mal permitem uma miserável sobrevivência. Besuntam-se de cremes, fazem massagens e passam o cartão. Mesmo com a crise, porque passar fome não tem problema, mas ficar feio, jamais!

Violência é gastar fortunas em silicone para adulterar o corpo que a natureza ofereceu, a fim de ficar artificialmente mais elegante, mais sensual, mais provocante. Corremos riscos de enfermidades ou desencarne, para mostrar um exterior que não condiz com o que existe por dentro. Ficamos como túmulos caiados, aproveitando a definição de Jesus na sua passagem pelo planeta. “Mas sem isso a humanidade seria mais feia”, é o argumento sustentado! Nesse ponto concordamos, mas seria menos ignorante e medíocre evitar tais despesas, porque gastaríamos tempo e dinheiro com coisas mais úteis e duradouras, até mesmo eternas. E não esqueçamos que a beleza das almas transparece nos corpos.

Violência é um esportista ganhar milhões por mês, para exibir talentos que, quase sempre, se concentram do joelho para baixo. Tais esportistas, desequilibrados, neuróticos e agressivos, são muito convenientes para os manipuladores das massas irracionais, incoerentes e ignaras. Recentemente, fixou-se o passe de um futebolista da Europa em um bilhão de euros. Fica evidente que algo está errado na distribuição dos bens do mundo. Enquanto para alguns, um salário mínimo suado é tudo de que dispõem para a sobrevivência, outros menosprezam e vulgarizam o dinheiro. Contra essa violência não vemos vozes levantarem-se.

Violência é o salário de um professor, que constrói a cultura das pessoas, incluindo as que se recusam a adquiri-la, porque imaginam que a fortuna que recebem para exibir sua beleza física lhes garanta um futuro confortável. Ilusão. Nem mesmo na matéria, quanto mais na vida da essência, onde o dinheiro nada vale e nada compra!

Se Jesus Cristo cobrasse pelas suas extraordinárias lições, quanto estaríamos dispostos a pagar? Será que apareceria um empresário para bancar a divulgação do seu Evangelho, a fim de propagá-lo com mais rapidez e amplitude? Não, evidentemente. Afinal, Jesus Cristo não se compara, em importância, aos mitos dos esportes. Não citamos nomes para não dar-lhes ainda mais importância, que não merecem. Se Jesus fosse novamente pregar o Sermão da Montanha, nenhuma emissora se interessaria pelos direitos de exclusividade. O povo continua preferindo as vulgares e intermináveis mesas redondas na TV com “especialistas” nos esportes para explicar que o time perdeu porque fez menos gols do que o adversário. Já pararam para ouvir esse festival de conversa mole? E falam tão sério! É verdade que as tolices são tantas que até entre eles, muitas vezes, há desentendimentos. E os comentaristas altamente “especializados” que repetem que a solução é ter calma e tranquilidade para esperar o momento do gol!? Ainda não sei qual a diferença entre calma e tranquilidade. Mas como todos falam, isso deve ser importante!

Horas e horas prestigiando a programação voltada para a ganância, aproveitada atualmente até por líderes religiosos inescrupulosos, que açambarcam uma imensidade de redes e canais, para enriquecimento rápido e aviltante. Pedem dinheiro de quem não tem, com a maior desfaçatez, tentando convencer-nos de que nada é para eles; tudo é para Deus e para o Senhor Jesus. Todavia, não temos disposição nem tempo para gastar com a leitura de um livro ou para aproveitar o tempo, em nosso próprio benefício.

Violência é o rico reclamar da crise que ele mesmo provoca, porque dela tira proveito, empobrecendo aquele que pode menos e não tem de onde tirar: nunca conseguiu abrir uma poupança, tampouco pode guardar sob o colchão (porque a grande maioria dorme no chão) e, na hora do aperto, ao contrário dos magnatas, não tem como se socorrer em contas ocultas na Suíça ou nos paraísos fiscais.

Violência é manter uma mesa sofisticada com iguarias valorizadas simplesmente pela sofisticação do nome ou do rótulo, porque o paladar se choca com algo a que não está habituado. De repente, no desfile dos alcoólicos, todos viraram enólogos. Passaram a degustadores, sabendo qual vinho de tal safra pede determinado tipo de queijo, etc..

Violência é fazer um miserável esperar na fila de transplantes durante tantos anos que a saúde não aguenta, essa espera provocando-lhe quase sempre um desencarne antecipado. Violência é deixar pacientes nos corredores dos nosocômios públicos, dividindo lugar com ratos e baratas, onde falta até desinfetante para gente e para banheiro.

Violência é essa distribuição absurdamente incoerente entre os viventes do mundo. Noventa por cento da fortuna concentrada nas mãos de dez por cento e os restantes dez por cento divididos entre os restantes noventa. Violência é deixar incontrolável o aumento das doenças que poderiam ser combatidas com pequenas providências de saneamento do meio ambiente. Violência é uma delegacia só fazer Boletim de Ocorrência a partir de valores expressivos. Pequenos roubos já se incorporaram ao cotidiano das pessoas; nem merece BO o roubo de celular, notebook, cartões, etc. Documento furtado, cada um que requeira a segunda via on-line, e não incomode a polícia.

Mas a pior violência não é o que os outros nos fazem e sim o que nós fazemos aos outros e, por consequência, a nós mesmos. Quem pensa que Deus perdeu o controle do mundo não conhece direito o Pai que tem. É preciso que venham os escândalos, mas ai daqueles que os provocam. Por isso, a receita única é o otimismo. Acreditar em Deus! Ter fé, trabalhar e esperar!

Revista Internacional de Espiritismo – maio de 2016