Ao observar o comportamento dos espíritas, entre os quais me incluo, confesso que às vezes fico decepcionado. O Plano Divino que tudo organiza para que os homens recebam na hora devida toda a ajuda que possam precisar, deve igualmente ficar de cabelo em pé! Organiza com milênios de antecedência cada etapa a ser vivida pela humanidade, informando-a cuidadosamente sobre apenas o que pode assimilar, sem sobrecarrega-la com fardos inúteis, deve surpreender-se ao ver-nos como assistentes de missa. Segundo os mandamentos católicos, devemos frequentar a santa madre igreja pelo menos uma vez por semana.

Como a maioria de nós veio dessa mesma doutrina, ainda conservamos na alma os mesmos princípios que nos dizem ser suficiente a frequência ao templo sem maiores responsabilidades. Cantamos, louvamos, adoramos. Mas de ação prática vemos pouco.

O Espiritismo ensina que fora da caridade não há salvação e que o verdadeiro espírita reconhece-se pela sua transformação moral e pelo esforço que faz para combater as suas más inclinações. Não diz que ele é reconhecido pelo número de palestras, nem de idas ao centro, aos encontros, aos congressos, onde ficamos embevecidos com as lições que não aplicamos na nossa vida.

Em vez do sermão do padre, ouvimos o Evangelho no centro; em vez de receber a hóstia, recebemos o passe; e complementamos às vezes com a água benta fluidificada pelos espíritos, um hábito em nossa doutrina. Mas continuamos usando os benfeitores no tipo a-la-carte. Jesus me ajude; Deus protege minha família, Dr. Bezerra cuida do meu irmão. Ainda não aprendemos que mais do que o pedido o que vale é o merecimento. E aquele que apenas pede para si e para os seus não passa de um egoísta pretensioso que imagina que o mundo gira em volta das suas necessidades.

Ao nos compararmos aos irmãos de outras religiões, vemos que muda o templo, os paramentos, alguns rituais, mas o resto é tudo igual. Vamos ao centro uma vez por semana e já cumprimos com os nossos deveres religiosos. Podemos sair da Casa Espírita e voltar par o nosso pequeno mundo, de alma lavada, porque já fomos à missa espírita e já tomamos a hóstia espiritual, o passe.

Que pena que um tesouro tão rico com é a nossa doutrina, que demandou séculos e séculos para ser organizado e chegar no seu devido tempo como terceira revelação está sendo tão mal aproveitado por nós, seus seguidores. Falamos de reencarnação, mas não valorizamos a vida a ponto de sermos agradecidos por mais esta misericordiosa oportunidade. Trazemos problemas para serem corrigidos, chamados de expiação, ou carmas como dizem os orientais, mas em vez de zerá-los criamos novos outros, aproveitando muito pouco da programação organizada para a nossa estada na carne nos dias atuais. Se nos olharmos e relembrarmos os tempos de criança veremos que hoje, adultos, em quase nada nos modificamos. Trocamos nosso tempo de ação no bem por divertimentos mundanos sem qualidade que nada nos acrescentam. Horas e horas diante da mídia destruidora que só mostra violência, obscenidade e pessimismo. Afirmamos ter fé, mas não agimos de modo a confirma-la. Somos derrotistas e imaginamos que o mundo está descontrolado. Mas não está. Quando momentos de dificuldades acontecem no seio da humanidade e para ensiná-la com rigor o que ela não entende pelo amor. Quando nosso filho não estuda, não age bem, tiramos seus divertimentos para que eles decidam ir pelo caminho do bem. Tão logo eles se regenerem, liberamos os divertimentos e prazeres. Deus faz o mesmo com os homens, que são duros de entendimento.

O Espiritismo gostaria de fazer muito mais por nós. Suas receitas são tão simples que dispensaria até mesmo as orações caso fizéssemos do amor a nossa principal oração. A vida do homem de bem é uma permanente oração de ligação a Deus. “A fé sem obras é morta”, ensinou-nos Thiago há 20 séculos. “Faz e o Céu te ajuda”, disse Jesus. “O amor cobre a multidão dos pecados”, ensinou Simão Pedro. Mas o que é tão simples de dizer é muito difícil de entender e mais difícil ainda de realizar. O sofrimento na Terra seria completamente desnecessário se os homens houvessem compreendido corretamente a mensagem contida no Evangelho de Jesus.

Jornal O Clarim – maio de 2016