Walkiria Lúcia de Araújo Cavalcante – walkiria.wlac@yahoo.com.br

 “Ninguém gosta da dor, embora soframos a sua investida. Como entender a dor e o sofrimento? A dor é a mensageira da esperança que após a crucificação do Justo vem ensinando como se pode avançar com segurança. Recebamo-la, pacientes, sejam quais forem às circunstâncias em que a defrontemos nesta hora de significativas transformações para o nosso espírito em labor de sublimação. O sofrimento de qualquer natureza, quando aceito com resignação e toda aflição atual possui as suas nascentes nos atos pretéritos do espírito rebelde-propicia renovação interior com amplas possibilidades de progresso, fator preponderante de felicidade. A dor faculta o desgaste das imperfeições, propiciando o descobrimento dos valiosos recursos, inexauríveis, aliás, do ser. Após a lapidação fulgura a gema. Burilada a aresta ajusta-se a engrenagem. Trabalhado, o metal converte-se em utilidade. Sublimado pelo sofrimento reparador, o Espírito liberta-se.” (Pergunta 118, Livro Joanna de Ângelis Responde)

O sofrimento constitui-se como taça amarga de fel que sorvemos hora ou outra durante a encarnação. Tendo como delimitador a dor, promove-nos o entendimento da vida como um todo, humanizando-nos e buscando no Cristo o exemplo maior de equilíbrio e justeza para condução dos objetivos da vida.

É paradoxal, mas a dor nos limita os passos e nos educa através do amor/sofrimento por quais caminhos devemos trilhar os passos durante a encarnação. Semelhante àquele que já conhecendo que a chama do fogo queima e que ao mais leve contato como o calor, mesmo que a distância, recua para não se queimar; assim somos nós diante da maioria dos acontecimentos da vida. Mesmo não tendo a memória atual do ocorrido, trazemos de reminiscências passadas o aprendizado de quanto foi doloroso e de como poderemos nos machucar se insistirmos em continuar por este ou aquele caminho.

A dor, desta forma, cria um limitador inteligente de atitudes, fazendo com que a criatura interceda em seu próprio benefício, sabendo escolher com conhecimento de causa qual caminho trilhar. Nesta tentativa e erro, pois mesmo em alguns momentos verificando que não devemos seguir por determinada estrada, a nossa consciência nos avisando que aquele caminho é perigoso, palmilhamos por ele e sofremos as consequências de nossa intempérie.

O “Justo” nos mostrou a forma mais correta de lidarmos com a dor, mesmo não tendo mais necessidade de passar por ela, crucificado não se crucificou diante das ofensas e agressões alheias. Vivia em plenitude com o Pai, por isso, sabia que o momento que vivenciava não representava a essência que possuía. Assim também deveremos agir, tendo resignação perante o turbilhão que muitas vezes se apresenta a nossa frente e acreditamo-nos sem forças para lutar.

O momento convida ao entendimento, aceitação e ação. Através da prece e da tolerância. Quando não nos restar mais saída, aos olhos humanos, reverenciemos a atitude de Jesus, nem que seja por imitação, perdoando aos que nos ofendem e confiando no Pai Amado que não nos abandona nunca. Somos pedras brutas que lapidamo-nos e lapidam-nos as imperfeições através dos sofrimentos. De tanto apararmos as arestas, vamos rebastando os desalinhos morais (as pontas sobressalentes).

Causa-nos estranheza vermos os bons sofrerem ao lado dos maus que sorriem. Tal questionamento sendo tema do Cap. V – Bem-Aventurados os Aflitos, Causas Atuais das Aflições, item 7. Mas primeiro precisamos estabelecer que a bondade ou maldade absoluta não se encontra neste Planeta. Todos já avançamos em entendimento suficiente para podermos fazer escolhas com juízo de valor adequado. Todos já conspurcamos e conspurcamos ainda as Leis Divinas. Em virtude disto, temos a necessidade do devido reajuste com elas. Aqueles que vivenciamos tal etapa já nos candidatamos através do aprendizado, sendo que alguns de nós o pedimos como oportunidade de habilitação.

Aqueles que ainda tencionam e produzem o mal ao derredor, terá o momento de devido reajuste com as Leis. Pois o certo e o errado não modificam em virtude da condição evolutiva da criatura. É a condição evolutiva da criatura que modifica com a absorção do entendimento do certo e do errado. O maior processo que a Doutrina Espírita nos convida é o de Reforma Íntima. Processo pessoal e inadiável.

Por vezes, olhamos em nosso derredor e acreditamos que existem pessoas mais felizes que nós, mesmo fazendo o mal e começamos por afrouxar moralmente os passos. Mas é necessário destacar que a projeção do ser difere do que ele realmente é. Imperativo é fazer a separação do real e do imaginário. Principalmente num momento de redes sociais, no qual as criaturas projetam aquilo que elas querem, não o que normalmente está ocorrendo em suas vidas.

“Não raro, as causas também se encontram na atual existência, quando se dilapidam com irresponsabilidade os patrimônios da existência.” (Livro: Liberta-te do mal, cap. Causas Justas das Aflições). Muito do que nos causa sofrimento provem não de causas anteriores, mas da nossa incúria perante a existência atual. O próprio caráter e proceder da criatura; o orgulho e a ambição; as uniões desgraçadas em que o interesse fala mais alto e não o desejo recíproco e fraterno de amor e convivência mútua; as funestas disputas; a intemperança; os pais infelizes, que não educaram quando deveriam e agora choram pelas consequências da sua inércia.

Antes de procurarmos em outras encarnações ou em causas obsessivas os sofrimentos atuais verifiquemos o quanto estamos fazendo para minorar ou aumentar o que estamos vivendo. Quais são as nossas escolhas atuais. O que estamos fazendo para propiciar ou conturbar o momento presente. Antes passa por uma questão de escolha do que um determinismo pura e simplesmente. Vivemos o agora com um pé no passado e a mente no futuro. Deste alinhar de conduta depende a nossa paz atual e felicidade futura.

Tribuna Espírita – março/abril 2016