Octávio Caúmo Serrano

18 de abril de 1857. Surgia um grande foco de luz para iluminar os caminhos da humanidade.

Foi nesse dia que o Espiritismo viu lavrado o seu Registro de Nascimento como doutrina oficialmente organizada, graças ao lançamento da primeira edição de O Livro dos Espíritos. 501 questões, dividido em três partes, sendo as duas primeiras em duas colunas. À esquerda perguntas e respostas e à direita maiores explicações sobre cada questão. Na terceira parte, perguntas e respostas em sequência.

Sobre esse Livro, o Courier de Paris, de 11 de junho de 1857, estampou o seguinte artigo, que resumimos: “A Doutrina Espírita. Faz pouco tempo publicou o Sr. Dentu uma obra deveras notável; diríamos mesmo muito curiosa, se não houvesse coisas às quais repugna qualquer classificação banal. O LIVRO DOS ESPÍRITOS, do Sr. Allan Kardec, é uma página nova do próprio grande livro do infinito e, estamos persuadidos, uma marca será posta nesta página. Não conhecemos o autor, mas proclamamos que gostaríamos de conhecê-lo. Quem escreveu aquela introdução que abre O LIVRO, deve ter a alma aberta a todos os sentimentos nobres.”

Diz o editor, usando sinceridade, que jamais fez um estudo das questões sobrenaturais; mas se os fatos produzidos não lhe causaram admiração, pelo menos não o levaram a dar de ombros. Diz-se um pouco da classe chamada dos sonhadores, porque não pensam como todo mundo. Ao cair da tarde, quando na volta para casa, vendo apenas cabanas esparsas, pensava em coisas muito diversas das Bolsas, ou das corridas de Longchamps. Muitas vezes se interrogou antes de ter ouvido falar em médiuns, a respeito do que se passava nas regiões que se convencionou chamar o Alto. Há tempos, chegou mesmo a colocar uma teoria sobre os mundos invisíveis, guardando-a ciosamente para si, mas se sentiu muito feliz porque a encontrou quase que por inteiro no livro do Sr. Kardec.

Observem a lucides desse editor, o que não se vê em muitos espíritas amadurecidos:

“Aos deserdados da Terra, a todos quanto marcham e que nas suas quedas regam com as lágrimas o pó da estrada, diremos: Lede O LIVRO DOS ESPÍRITOS; ele vos tornará mais fortes. Também aos felizes que pelo caminho só têm as aclamações e os sorrisos da fortuna, diremos: Estudai-o e ele vos tornará melhores. O corpo da obra, diz o Sr. Kardec, deve ser atribuído inteiramente aos Espíritos que o ditaram. Está admiravelmente dividido no sistema de perguntas e respostas. Por vezes, estas últimas são sublimes, o que não nos surpreende; não foi necessário um grande mérito a quem as soube provocar? Desafiamos os incrédulos a rir quando lerem o livro em silêncio e solidão. Todos honrarão quem escreveu tal prefácio.”

Diz o editor que a doutrina se resume em duas palavras: não façais ao outro o que não quereis que vos façam. Lamenta que o Sr. Kardec não tivesse acrescentado: E fazei aos outros como quereríeis que vos fizessem. Mas ele ressalta: “Aliás, o livro o diz claramente, sem o que a doutrina não seria completa. Não basta não fazer o mal; é preciso ainda que se faça o bem. Se fores apenas homem de bem, só terás cumprido a metade do dever. Somos um átomo imperceptível desta grande máquina chamada mundo, na qual nada é inútil. Não nos digam que é possível ser útil sem fazer o bem; seríamos forçados a responder por um volume.”

“Lendo as admiráveis respostas dos Espíritos na obra do Sr. Kardec, dissemos a nós mesmos que havia um belo livro a escrever. Logo verificamos, entretanto, o nosso engano; o livro já está escrito. Procurando completa-lo, apenas o estragaríamos.” E ele aconselha: Quem é homem de estudo e tem aquela boa fé que apenas necessita instruir-se leia o Livro Primeiro, sobre a doutrina espírita; se está na classe das criaturas que apenas se ocupam consigo mesmas e que, como se costuma dizer, fazem os seus negócios muito tranquilamente e nada enxergam além dos próprios interesses, leia as Leis Morais; se a desgraça o persegue encarniçadamente e a dúvida o tortura por vezes no seu abraço gelado, estude o terceiro livro: Esperanças e Consolações. “Todos quantos aninham pensamentos nobres no coração e acreditam no bem, leiam o livro da primeira à última página. Aos que encontrassem matéria para zombaria, o nosso sincero lamento. Assina G. du Chalard – Courrier de Paris”

Em 18 de março de 1860, na segunda edição, o livro passaria à forma atual e não mais mudou.

Em 1 de abril de 1858, Kardec acendia outra luz quando cria a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, o primeiro Centro Espírita regular para estudo do Espiritismo, enfatizando a importância de estudar a doutrina. Espírita que não estuda o Espiritismo não é espírita. É mero simpatizante dessa nova Doutrina.

Finalmente, em 29 de abril de 1864, Allan Kardec  edita o Livro que define o aspecto religioso da nossa Doutrina. Assentada de início nas bases científica e filosófica, agora aparece na cúpula que a eleva em direção ao Céu. Já quando Kardec rascunhava o Livro que chamou inicialmente de Imitação do Evangelho Segundo o Espiritismo, segundo semestre de 1863, recebeu cumprimentos da espiritualidade pela iniciativa de lançar esta obra.

Como os demais da codificação, este livro também precisa ser mais estudado pelos espíritas que o usam quase sempre como livro de rezar ou na prática do Evangelho no Lar.

Nossa gratidão ao codificador por estes divinos presentes. Que Deus o abençoe onde esteja!

Tribuna Espírita – Março/Abril 2016