RIE_junho_2016No capítulo V de “O Evangelho Segundo o Espiritismo” há um item que fala sobre o esquecimento do passado.

Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

Como o homem se considera um sabe-tudo, contesta até a sabedoria de Deus. Ele criou o Universo, fez os espíritos, deu a cada um seu corpo próprio para refazer experiências, mas ainda assim dizemos que ele se enganou ao nos fazer esquecer as vidas passadas. Se soubéssemos os erros que cometemos em passagens anteriores, certamente não os repetiríamos. Será?

Vale a pena analisar que tipo de esquecimento é esse com o qual Deus nos brindou. É o esquecimento das inutilidades ou dos erros cometidos que poderiam nos causar grandes transtornos se tivéssemos consciência deles. Um exemplo é a família, que não raro é a reaproximação de espíritos que estiveram juntos em vidas passadas e hoje voltam aos mesmos grupos para correção de desentendimentos que só o parentesco pode suportar. Quantas vezes o filho de agora foi o assassino em outras experiências. Como perdoar tendo presente a imagem daquilo que foi vivido? E se fomos causadores do sofrimento alheio, sentiríamos constrangimento.

Esquecemos o que não nos ajudaria em nada, além de atrapalhar-nos, mas não esquecemos o nosso real e proveitoso progresso que se manifesta no presente em forma de aptidões, qualidades e conhecimentos. A paciência que já experimentamos em vidas passadas e que agora faz parte do nosso caráter; a humildade que praticamos em passado distante e agora está incorporada à nossa personalidade; a habilidade para artes, liderança de agrupamentos, destrezas para certos ofícios. Tudo isso, sem que nos lembremos claramente, está guardado no inconsciente e se manifesta na hora certa. É a razão da diferença entre as pessoas, sem que necessariamente o mais capaz tenha reencarnado mais vezes, mas sim dado melhor aproveitamento às suas encarnações.

Se conhecêssemos onde erramos não erraríamos mais; é o argumento. Mas é fácil identificar esse quesito. Se atualmente estamos vivendo o nosso melhor momento espiritual, porque, como seres que sempre evoluem, nós nunca fomos melhores do que somos agora, estamos no ápice do nosso crescimento como espíritos eternos; e, por consequência, imortais!

Se hoje ainda somos egoístas é sinal de que sempre o fomos. Não passamos a ter esse defeito agora. Se sabemos que guardar ódio contra alguém nos envenena, por que não aprendemos a não odiar? Se fumar adoece o organismo e o ambiente onde vivemos, por que fumamos? Não adianta saber dos defeitos das vidas passadas se não corrigimos nem os da vida presente. São os mesmos, sem necessidade de revelação.

É possível que tenhamos nos livrado de algum problema que tínhamos em encarnação anterior, já naquela vida ou mesmo nesta. Se hoje somos pacientes é porque aprendemos a sê-lo em oportunidades anteriores ou mesmo nesta. O importante é que conseguimos. Os outros que ainda temos, como pessimismo, inconformação, ciúmes, melindre, egoísmo, vaidade, insegurança, não é preciso lembrar-se de vidas passadas para saber que já os tínhamos e não conseguimos vencê-los. Repitamos a tentativa na vida presente, já que além do Evangelho de Jesus, código de boas maneiras para a conquista da felicidade, nós temos hoje as elucidações claras do Espiritismo, que fundamenta nossa conduta na lei de ação e reação. Somos livres para fazer o que desejamos e responsáveis para assumir as consequências, boas ou más, do que fazemos. Nosso livre-arbítrio é soberano e não podemos alegar que nos forçaram a algo que não desejávamos. Somos donos absolutos da nossa vontade e livres para exercê-la como melhor nos parece.

Não queiramos saber quem fomos, como éramos, que importância tivemos, porque tudo isso foi passageiro e circunstancial em razão da posição que ocupávamos em cada oportunidade. Interessa saber o que somos agora e o que estamos fazendo para sair daqui melhor do que chegamos. Emmanuel, o mentor do nosso Chico, comprometeu-se muito como senador de Roma e redimiu-se em parte como escravo no Egito. A posição social nada tem a ver com a escala espiritual. Ainda que regridamos socialmente, como foi o caso de Emmanuel, que depois de ser Publius Lentulus, cresceu espiritualmente como Nestório, o escravo egípcio.

O esquecimento do passado nas condições em que viemos é uma bênção de Deus para facilitar o exercício da lei do amor. Ninguém se sinta desamparado e prejudicado pelo esquecimento, porque o que conquistamos de real valor está incorporado ao nosso inconsciente e aflora no momento certo. São a nossa boa conduta, vocações e habilidades que despertam quando necessário. Deus sabe o que faz. Acreditem!

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – Junho de 2016