Rie_Julho_2016São necessárias ações concretas no campo do bem.

Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

O que é uma encarnação?

Aprendemos com a nossa Doutrina que é a volta do espírito a um novo corpo para prosseguir no aprendizado. Não é castigo, mas renovação de oportunidade concedida pela misericórdia de Deus e acontecerá a quantidade de vezes necessária para o nosso aprimoramento espiritual. Isso já ocorreu com cada um de nós centenas ou milhares de vezes. Nosso atual entendimento, conquanto ainda rudimentar, já é consequência de múltiplas e sucessivas encarnações, embora algo também aprendamos na erraticidade.

Uma pergunta que fazemos, já que conhecemos os postulados espíritas, é por que não aproveitamos esta mesma encarnação para transformá-la numa vida biônica; já estamos por aqui, conhecemos as verdades e seria inteligente não precisar nascer de novo, em novo corpo, porque isso demandaria novos pais, o que atualmente não é fácil de encontrar. As pessoas estão fugindo do casamento e, sob a alegação de dificuldades econômicas, têm menos filhos; especialmente as de mais recurso. As questões 998 a 1.000 de O Livro dos Espíritos nos ensinam claramente que podemos crescer desde já.

O mundo material, embora secundário e dispensável, conforme explica a questão 86 de O Livro dos Espíritos, é importante para apressar o nosso desenvolvimento, porque nele há uma professora convincente chamada dor. Ela nos leva à busca do socorro porque chega a ser, em determinados momentos, lancinante, obrigando-nos à busca do sedativo para aplacar o sofrimento. É a hora que mais nos lembramos de Deus. André Luiz diz que o mundo físico é um catalisador para o progresso da humanidade.

Por que devemos acomodar-nos nesta vida e esperar a passagem pelo túmulo para conseguir nova encarnação? Por que morrer para depois nascer, se já estamos com conhecimento suficiente para lutar e sair daqui muito melhor do que chegamos? Fomos enganados durante muito tempo quanto à proteção divina sem nossos próprios méritos, mas o Espiritismo deixou bem claro como funcionam os mecanismos da vida. Não bastam orações, promessas, penitências ou qualquer tipo de sacrifício inútil; nem basta a compra do céu com donativos convenientes e cheios de segundas intenções. São necessárias ações concretas no campo do bem. A lei de ação e reação dá explicação clara e final, conforme a passagem do Evangelho de Jesus que diz: “ninguém sairá daqui enquanto não pagar até o último centavo”.

O não aproveitamento da encarnação nos leva a precisar de exílio para lugares inferiores, onde aplicaríamos nossos conhecimentos em favor de novas civilizações. Onde se dariam tais tarefas? Noutros mundos? Não necessariamente, porque aqui mesmo na Terra há muitos mundos, se considerarmos as desigualdades sociais. Reencarnar no sertão em meio à seca, na miséria de certos países africanos ou entre os perigos dos cataclismos que grassam em certos países vulneráveis aos tropeços do meio ambiente são alguns exemplos de uma encarnação expiatória. Se soubéssemos da importância de termos bom comportamento, de sermos fraternos e ajudarmos os semelhantes, não precisaríamos ser contemplados com tais provas. Que fizéssemos essa ajuda por convicções missionárias, vá lá. Mas como condenados pelas Leis Divinas seria muito triste; como exilados punidos revivendo o episodio de Capela não é inteligente para quem se diz espírita.

Em nossa vida planetária adquirimos sempre novos conhecimentos. É a lei do determinismo agindo em nosso favor. Quando para cá viemos trouxemos acumulados da nossa vida eterna, que se perde na poeira do tempo, defeitos e virtudes. Os defeitos para serem extirpados e as virtudes para serem aprimoradas e vivenciadas. Nesta hora é o livre-arbítrio que começa a imperar. Plantio e colheita. Faz o que quer e responde pelo que faz.

O desconhecimento da sucessão de vidas na matéria fez com que fôssemos negligentes nas tarefas de crescimento espiritual e em lugar de consertarmos os velhos erros, acabamos por adquirir nesta etapa outros novos que levaremos para o futuro e que demandarão corrigendas. Daí não haver ninguém que não traga um passado a ser expiado, ou seja, corrigido. Afinal, se o mundo é de provas e expiações, somos todos espíritos ainda inferiores. Mas quem já conhece a justiça divina não pode aumentar o seu fardo de resgates. Não é inteligente.

Temos perdido tempo tentando corrigir os outros, esquecendo-nos de consertar-nos. Com isso, a cada nova encarnação, temos mais conhecimentos culturais, mas em termos de crescimento espiritual quase não saímos do lugar. Com o advento do Espiritismo, suas claras e lógicas lições tornaram-se advertências para que resolvamos agora problemas milenares. Mas com seriedade. Não cometamos o engano de iniciar nossa reforma moral na próxima encarnação. Poderá ser penoso e sabe-se lá quando isso ocorrerá. O planeta está correndo na direção do seu novo destino como mundo de regeneração. Se dormirmos, seremos como as virgens da parábola que perderam seus noivos. Já fomos advertidos e orientados quanto ao procedimento que mais nos convêm.

Diante de tanta corrupção, tanto desajuste, tanto desânimo e descrença e tanto desentendimento em todo o mundo, devemos empenhar-nos para não ser mais um a engrossar essas fileiras. Temos conhecimentos suficientes para ficar às margens dessas infelicidades. O problema dos outros cabe a eles resolver, mas os nossos são de nossa responsabilidade.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – Julho de 2016