Walkiria Araújo – walkiria.wlac@yahoo.com.br

“À luz da Psicologia Profunda, o perdão é superação do sentimento perturbador do desforço, das figuras de vingança e de ódio através da perfeita integração do ser em si mesmo, sem deixar-se ferir pelas ocorrências afugentes dos relacionamentos interpessoais.” — (Livro Jesus e o Evangelho a Luz da Psicologia Profunda, cap. 11 – Reconciliação)

A doutrina do amor crístico ensina-nos a prática do perdão incomensuravelmente. Não nos permite negociação, dissimulação diante da verdade irrefutável da prática do perdão. Buscando achar-se em dia com as Leis Divinas, dispomo-nos a estar em dia conosco mesmos.

O que ocorre em outras visões religiosas é a busca do perdão com medo da punição que a Divindade possa exercer sobre nós. O que a doutrina espírita se nos apresenta é a busca do perdão para podermos viver em paz conosco mesmo. Atender ao convite do perdão transforma-nos o pensamento e o comportamento perante as questões que nos envolvem a todos. Não temos dúvida, que a proposta é a mais difícil que se nos apresenta, principalmente nos dias atuais, mas isto não significa que não pode ser realizado.

A menção a Jesus provoca-nos o sentimento inspirador de busca pela renovação íntima em detrimento da situação vigente. A pergunta sempre atual de Pedro: “Senhor, quantas vezes perdoarei a meu irmão, quando houver pecado contra mim? Até sete vezes?” – Respondeu-lhe Jesus: “Não vos digo que perdoeis até sete vezes, mas até setenta vezes sete vezes.” Mostra-nos que o perdão é um processo de aprendizado constante e ininterrupto.

Não podemos ser só o resultado do que o outro faz conosco, temos que receber o impacto da agressão, diluí-la a luz do entendimento e trabalha-la, transformando-a em fonte de aprendizado, cumprindo-se, num primeiro momento, a Lei de Causa e Efeito, pois não existe sofrimento sem causa anterior precedente, e fazendo com que a criatura incorpore a modificação que deseja nos outros começando por si.

Isto posto, produz-se um sentimento de tranquilidade interna. Tranquilidade nascida da consciência tranquila do entendimento do ocorrido, mesmo que não conheçamos as causas em sua integralidade, e avanço proveitoso diante das ocorrências desairosas que se nos apresentam. Modificando a nossa visão de futuro, trazendo-nos tranquilidade, bem-estar e saúde.

O Mestre nos convida não só ao entendimento do ocorrido, mas que possamos fazer as pazes com nosso adversário. Isto não significa um estado de ignorância sobre os fatos ocorridos, mas que não o carregaremos conosco como um fardo pesado a ser levado por toda a vida. Equivale a entendermos que tanto quanto nós o outro ainda está em processo evolutivo, que comete erros e que estes terão o devido reajuste com as Leis Divinas. Mais uma vez destacando que a proposta do perdão configura-se como um processo libertador nosso conosco mesmos.

Mateus, cap. V, vv. 25 e 26 nos diz: “Reconciliai-vos o mais depressa possível com o vosso adversário, enquanto estais com ele a caminho, para que ele não vos entregue ao juiz, o juiz não vos entregue ao ministro da justiça e não sejais metido em prisão. – Digo-vos, em verdade, que daí não saireis, enquanto não houverdes pago o último ceitil.” O juiz representa as Leis Divinas que nos regem a todos e que não modificam ao sabor de nossa vontade, pois estão conforme a imutabilidade de Deus; o ministro da justiça é a nossa consciência, fiel cumpridora das Leis Divinas, que nos acompanha, alerta durante a vida e dá-nos a sustentação moral quando estamos agindo de acordo com as Leis (mesmo que os outros afirmem o contrário) e orienta-nos sobre o realinhamento moral quando estamos vivendo de forma arredia às Leis; a prisão consiste no corpo material, verdadeiro regime de aprisionamento que não nos permite ter a expansibilidade daqueles que já se encontram em condição superior de evolução. E por fim, o ceitil representa as manchas morais que ainda possuímos e que serão dissolvidas através da prática do bem e do devido reajuste com as Leis.

Malquerenças não dissolvidas geram situações de reajuste para outras encarnações. “…o ser se faz herdeiro da necessidade de superar os erros e agressões às Leis, insculpindo nos refolhos íntimos os mecanismos reparadores …” (Jesus e O Evangelho a Luz da Psicologia Profunda, cap. 11 – Reconciliação). É um processo de depuração necessária, constitui-se em uma decantação moral diante dos erros cometidos no passado. A morte não nos serve como libertação, antes nos aprisiona ao objeto odiado, pois normalmente a criatura elege o outro como único objeto de desejo. É um processo recíproco que aprisiona a ambos na mesma cadeia. Necessário se faz que uma das partes resolva-se por modificar a conduta deixando de ser o plug ou a tomada de tal situação.

Mesmo diante do conhecimento espírita, se a criatura continua se sentindo assaltada pelo desejo da desforra, acrescente a este conhecimento que este pensamento não irá leva-lo a sensação de prazer e satisfação esperados. Num primeiro momento representará a vitória de alguém que ganha à competição porque o outro não teve forças suficientes para ir até o fim; depois, aparecerá o vazio existencial, pois aquele que se dedica a se vingar tem como único móvel de vida a vingança com relação ao outro, concretizado o fato, não mais tem objetivo para viver.

O perdão é a convocação da consciência para que possamos viver melhor, independente do que nos aconteça, favorecendo a nós para termos uma existência saudável: física, psicológica e espiritualmente. Não sendo visitados pelas alienações mentais e outras tantas doenças de difícil explicação pela medicina atual, mas que encontram suas raízes profundas na alma da criatura ainda endividada consigo mesmo e com os erros do passado.

Tribuna Espírita – maio/junho 2016