Walkiria Lúcia de Araújo Cavalcante – walkiria.wlac@yahoo.com.br 

“Bem-aventurados os que choram, pois que serão consolados. – Bemaventurados os famintos e os sequiosos de justiça, pois que serão saciados. – Bemaventurados os que sofrem perseguição pela justiça, pois que é deles o reino dos céus. (S. MATEUS, cap. V, vv. 5, 6 e 10.) 

A dor não escolhe classe social nem tão pouco nível cultural. Todos que estamos encarnados sofremos, mas a forma como encaramos estes sofrimentos é o que nos diferencia com relação ao aprendizado. A resignação nasce da compreensão desta necessidade. Ela nos dá esperança. É o oposto desânimo. Mas aqueles que nos resignamos precisamos de algo que nos sustente e encontramos na prece o sustentáculo para avançarmos.

Mesmo tendo o amparo amorável da doutrina em nossas vidas, nos deparamos com a melancolia. Item tratado em o Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. V, item 25. Alguns erroneamente a confundem com a depressão. A melancolia desaparece espontaneamente, é um estado emocional transitório, não interfere na rotina da pessoa e possui causas facilmente identificadas: desilusão amorosa, desencarne de alguém próximo, desemprego, etc. Já a depressão possui vários graus de complexidade, os quais são constantes e diferenciados, interfere no desenvolvimento das tarefas cotidianas, sendo normalmente difícil de identificar o motivo do desânimo e da tristeza.

Os fatores externos existem a nos dificultar os passos. O que não deveremos é aumentar a dificuldade. “O fardo é proporcionado às forças, como a recompensa o será à resignação e à coragem. Mais opulenta será a recompensa, do que penosa a aflição. Cumpre, porém, merecê-la, e é para isso que a vida se apresenta cheia de tribulações.” (item 18). Devemos utilizar da inteligência que possuímos para minorar ou até extirpar os sofrimentos, mas não nos sentirmos filhos deserdados do Pai se não logramos êxito.

“O militar que não é mandado para as linhas de fogo fica descontente, porque o repouso no campo nenhuma ascensão de posto lhe faculta.” (item 18). Não podemos buscar o repouso indevido. Antes de reencarnarmos temos o conhecimento do gênero de provas que viveremos, constituindo-se nisso o nosso livre-arbítrio (questão 258 de O Livro dos Espíritos). Então não podemos culpar a Deus ou as Leis de nossas escolhas. Antes deveremos nos felicitar, de como o militar, sermos colocados a prova e avançarmos em entendimento e nos burilarmos moralmente.

Sabemos que as particularidades reservam-se ao desenrolar dos fatos. Até por isso, muitas das vicissitudes pelas quais passamos decorrem da nossa incúria (questão 258, “a”). Nada ocorre sem a permissão de Deus, mas Ele nos deixa livres, semelhantes ao preso que encarcerado pode fazer suas escolhas, mas deve arcar com as consequências. Estamos “encarcerados” no corpo de carne, submetidos às Leis Divinas e podemos, através do livre arbítrio, escolher que caminhos queremos seguir, mas colheremos os frutos de nossas escolhas.

Com relação à melancolia, ela se instala também, porque como crianças imaturas, queremos a ratificação de quem convive conosco que estamos mudando e quando isto não ocorre, ficamos tristes. Poderemos comparar como um iceberg. Boa parte dele está invisível aos olhos, ficando somente sua ponta exposta. Os outros não nos percebem a mudança, porque, talvez, não nos enxergam e porque muitos de nossos vícios estão escondidos. Alguns, de nós mesmo, não o reconhecemos como vícios ou se os reconhecemos, damos vasão sem a presença dos outros.

“Ninguém está a sós na sua dor. Melancolia é também enfermidade ou síndrome de obsessão… Olhos vigilantes contemplam tua aflição; ouvidos discretos registam os apelos da tua soledade. Há muitos que, acompanhados, caminham em indescritível solidão e há solitários que, seguindo, recebem a contribuição de acompanhantes afervorados.” (Livro Joanna de Ângelis responde, questão 29). Não estamos sozinhos na nossa dor porque outros também padecem do mesmo sofrimento que ora estejamos passando e porque amigos queridos, encarnado e/ou desencarnados velam por nós. Por vezes, nos encontramos no meio de um grupo e nos sentimos sozinhos; em outros momentos estamos a sós, mas não nos sentimentos solitários.

A Doutrina Espírita nos provoca esse sentimento de nunca estar sozinhos porque temos a ela como companhia. Todo aquele que sinceramente busca amparo na Doutrina encontra. São suas páginas alentadoras de O Evangelho Segundo o Espiritismo ou nas respostas precisas de O Livro dos Espíritos, ou nas outras obras da codificação. Nunca estamos solitários na marcha ascensional do progresso. Ás vezes, não conseguimos encontrar o correspondente equivalente de pensamento na caminhada terrestre, mas isto não significa que olhos amorosos não velem por nós.

O vazio existencial que por vezes nos visita a mente constitui-se numa adequação entre o que somos e o que buscamos ser. Quando a perfeita adequação se faz encontramos forças para prosseguir, tendo os passos firmes e os olhos voltados para o porvir, na certeza que estamos caminhando e neste processo de projeção segura para frente estamos avançando de forma precisa e segura ruma a perfeição moral.

Jornal O Clarim – julho de 2016