Octávio Caúmo Serrano

“Reconcilia com teu adversário enquanto estás a caminho.”

Líamos as questões 999, 999ª e 1000 de O Livro dos Espíritos e aprendemos muito sobre resgates de erros cometidos e os mecanismos adequados para a reparação.

Sempre estudamos no Espiritismo que quando cometemos uma falha devemos tentar consertá-la ainda aqui, para não leva-la para o mundo espiritual como mais um fardo de difícil acerto.  Esse procedimento demanda quatro etapas, que chamaremos de quatro passos: O reconhecimento, o arrependimento, a retratação e a reparação.

Os dois primeiros, conquanto importantes, são fáceis porque dependem do autor do erro que tem em si próprio a força da decisão. Caso reconheça que errou – porque há os que não reconhecem -, já avançou um pouco na direção do reparo. O segundo é o arrependimento do erro cometido. Há quem reconheça que errou, mas não se arrepende porque acredita que o outro merecia o que recebeu. Nesse caso, empaca nesse segundo passo e não vai adiante.

Vamos admitir, de maneira otimista, que houve também o arrependimento e temos de caminhar para o terceiro passo. Aqui começa a etapa mais difícil porque o que era de solução individual passa agora a ser entre as duas partes.

Chega o terceiro passo, se ainda for possível, em que há o encontro dos interessados e o agressor deseja desculpar-se, retratando-se e explicando a razão do seu procedimento. Contando com sorte e com tempo, o agredido poderá desculpá-lo. E se ainda for viável, seguirão para o quarto passo que é a reparação, quando se dará o conserto do erro.

Nestas duas últimas etapas, muita coisa pode ter acontecido. Um crime nascido da calúnia ou maledicência, um casamento desfeito ou uma sociedade comercial destruída, um assassinato criando situações de retratação e reparação impossíveis porque as partes não mais se encontrarão no mundo dos encarnados.

Mas aí é que entra a explicação da pergunta 1000 de O Livro dos Espíritos. Se alguém abortou pode adotar, pode colaborar numa creche ou num orfanato, dando a uma ou muitas crianças o amor que não deu ao filho rejeitado. Quem prejudicou uma pessoa pode corrigir seu erro ajudando outras. Ainda que restem pendências a serem reajustadas na sua vida espiritual, os resgates serão bastante atenuados.

A leitura atenta dessas questões de O Livro dos Espíritos nos adverte, porém, que nada deve ser de mentira, mas uma atitude sincera de conserto do erro praticado. Deve ser algo que represente esforço verdadeiro e desprendimento para ter valor diante da Lei Maior.

A espiritualidade sempre considera mais a nossa intenção do que nossos atos. E também como nos dar oportunidade para sermos mais úteis. Conta-se a passagem do homem que furava os olhos dos escravos que extraiam purpurina dos caramujos para enfeitar os mantos dos reis, nas praias de Sidon e Tiro na Fenícia, atual Líbano, para que produzissem mais e não fugissem roubando o material. Chamado a reencarnar, em vez de nascer cego por muitas vidas, estudou oftalmologia e foi curar os olhos das pessoas. Mais útil do que ser mais um deficiente visual. Coisas do Plano Maior!

Outra passagem contada pelos espíritos é a daquele homem caridoso que nas ruas do Rio de Janeiro distribuía diariamente pão aos indigentes. Certa vez, perdeu o dedo numa máquina de moer carne e houve alguém que argumentasse: – De que adianta ele ser tão bom se nem foi poupado da perda do dedo? Analisada a sua vida espiritual, constatou-se que ele era uma capataz na escravidão que colocou muitos braços de negros na moenda, aleijando-os. Em razão da sua bondade, e para registrar a necessidade do resgate já bastante atenuado, apenas perdeu um dedo. A sabedoria divina é mais justa do que imaginamos!

“Ninguém se salvará enquanto não pagar até o último ceitil!” E ele pode ser pago de diferentes maneiras.

Jornal O Clarim – Agosto de 2016