Foto de Walkiria. copy

ENTREVISTA COM
Walkiria Lúcia de Araújo Cavalcante

O médium não pode alegar desconhecimento da verdade

A Doutrina Espírita responde a todas as minhas perguntas e dá o consolo necessário diante dos embates da vida.

 

 

Cássio Leonardo Carrara | cassio@oclarim.com.br
Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

Nascida e residente em João Pessoa, Capital da Paraíba, Walkiria Lúcia de Araújo Cavalcante é formada em Ciências Contábeis e pós-graduada em Gestão e Auditoria Pública, trabalhando atualmente como funcionária pública federal. De família católica, conheceu o Espiritismo ainda na infância, o que trouxe respostas às suas maiores indagações a respeito de Deus e de como viver uma religião. Nesta entrevista, ela fala sobre a necessidade de o espírita estudar sempre e de como devem portar-se os médiuns nos trabalhos desenvolvidos nas instituições espíritas. 

RIE – Você é de família espírita? Se não, por que se aproximou do Espiritismo?

Walkiria Lúcia de Araújo Cavalcante – Família eminentemente católica. Mesmo assim, conheci o Espiritismo através de minha mãe, que ao avizinhar-se do conhecimento espírita, levava-me para assistir às palestras. Participei da evangelização, mas logo me identifiquei com o estudo da codificação. Já aos onze anos fazia parte de um grupo de estudos de O Livro dos Espíritos. Tudo o que lia e ouvia fazia sentido para mim. Curioso porque minha mãe acreditava que eu viria a ser ateia, devido aos meus questionamentos quanto à religião católica. Eu não compreendia os rituais nem a necessidade de haver um intermediário para Deus. Já acreditava na figura do anjo da guarda como grande mediador, então que fosse ele o intermediário. Hoje entendo e respeito o catolicismo, mas é a Doutrina Espírita que responde a todas as minhas perguntas e me dá o consolo necessário diante dos embates da vida.

RIE – Você participa do Centro Kardecista Os Essênios de João Pessoa, na Paraíba. Como descreveria em poucas palavras essa casa e que tipo de atividades você exerce na instituição?

Walkiria – Minha segunda casa. Ela faz parte da minha vida há quinze anos. Um lugar onde respeitamos, estudamos e procuramos vivenciar a Doutrina, tendo na figura de Maria Alcântara Caúmo (fundadora, já desencarnada) o primeiro mourão e em Octávio Caúmo (atual presidente) a segunda viga mestre da instituição. Capitaneada pela equipe espiritual dos essênios, dedica-se eminentemente à difusão do conhecimento espírita a todos que desejarem sinceramente adquiri-lo. Realizo palestras, participo e dirijo trabalhos mediúnicos, aplico passes e faço atendimento fraterno. 

RIE – Como começou a escrever artigos espíritas? Para quais periódicos colabora atualmente?

Walkiria – Certo dia, Octávio sugeriu que eu colocasse no papel aquilo que falava. Assim fiz; enviamos o texto à RIE, e em fevereiro de 2007 era publicado o meu primeiro artigo: “A Oração Dominical”. Foi um momento de grande alegria. As palavras faladas se perdem com o tempo e cada um as ouve como bem entende, mas o que está escrito representa um compromisso do autor com o texto. Já aconteceu de eu receber, mesmo depois de dois anos de uma publicação, e-mails fazendo menção ao escrito. A meu ver, o texto é uma fotografia do autor. Atualmente escrevo regularmente para a RIE, O Clarim e Tribuna Espírita da Paraíba, e há republicações eventualmente solicitadas por outros periódicos. 

RIE – Percebemos pelos seus textos que você sempre menciona livros e autores. Acredita que, para o espírita, é importante estudar sempre?

Walkiria – Desde criança sempre acreditei que o conhecimento liberta e que, para fazer algo, precisamos nos capacitar para isso. Nem sempre somos perfeitos na execução, mas devemos fazer o melhor que nossas condições permitem. Isto se pode ler em O Livro dos Espíritos, na Introdução, item XIII, quando Allan Kardec diz: “Por isso é que dizemos que estes estudos requerem atenção demorada, observação profunda e, sobretudo, como, aliás, o exigem todas as ciências humanas, continuidade e perseverança. (…) Ninguém, pois, se iluda: o estudo do Espiritismo é imenso; interessa a todas as questões da metafísica e da ordem social; é um mundo que se abre diante de nós. Será de admirar que o efetuá-lo demande tempo, muito tempo mesmo?”. Confirmamos o nosso pensamento e passamos a nos dedicar com afinco ao estudo dessa Doutrina libertadora. E o fazemos também porque entendemos que o maior bem que podemos proporcionar à Doutrina é divulgá-la. Quando citamos as obras é para incentivar e criar a cultura da leitura nas pessoas. Penso em mim mesma quando comecei, há quase trinta anos, sobre as dificuldades de ter contato com bons livros espíritas. Lembro-me, já na faculdade, o muito que me valeu quando um amigo querido ofereceu-me, em sequência, o empréstimo dos livros da série de André Luiz. Hoje existem, além das renomadas editoras, bons sites que disponibilizam obras em mídia para leitura. Sempre os sugiro quando faço atendimento fraterno ou tenho oportunidade de falar sobre o assunto. Estudo semanalmente O Livro dos Médiuns, O Livro dos Espíritos, A Gênese, O Céu e o Inferno e Obras Póstumas. São obras de conhecimento ilimitado. Também tenho uma rotina de assistir a palestras em mídia. Reservo uma parte do horário de almoço para vê-las. Tenho como prioridade as de Divaldo Franco, Alberto Almeida e Raul Teixeira. Pode parecer sacrificial a princípio, mas não é. Tudo é questão de disciplina e prioridades. Além do mais, são momentos que me proporcionam alegria e paz. 

RIE – Quais as outras formas de divulgação de que você participa? Palestras, rádio, TV?

Walkiria – Faço palestras em algumas instituições espíritas de minha cidade. Onde me convidarem para falar de Jesus e da Doutrina Espírita, lá estarei. Fiz vários programas Ponto a Ponto, exibidos pela TV da FEPB – Federação Espírita Paraibana, abordando, entre outros, os seguintes temas: Juventude e Mediunidade, Mediunidade e Obsessão, e Microcefalia. É um programa transmitido ao vivo aos domingos, às 16 horas, pelo site http://www.redeamigoespirita.com.br, canal 5, e na TV CETE, pelo endereço http://www.espiritismoonline.com. Pode ser assistido posteriormente através do canal FEPBTV no Youtube. Também estou com um quadro no programa de rádio da FEPB, O Semear, que vai ao ar aos domingos pela 105,5 FM, para João Pessoa e arredores, às 7 horas da manhã. Pode ser acessado posteriormente pelo site da FEPB, na seção downloads. O quadro fala sobre a vida no mundo espiritual, e traz esclarecimento sobre questões que permeiam o imaginário das pessoas, tais como: Existem casas no mundo espiritual? O Espírito sente fome, frio e sede? Inferno e umbral são a mesma coisa?

RIE – Quando e como se iniciou no trabalho de palestras e onde habitualmente se apresenta?

Walkiria – Comecei na casa a qual frequento hoje: Os Essênios. Habitualmente apresento-me no Centro Espírita Vianna de Carvalho, na Associação de Estudos Espírita Kardecista, no Núcleo Espírita O Bom Samaritano, no Lar de Jesus, entre outros. 

RIE – Em seus textos, é frequente a abordagem da seriedade e da importância do trabalho mediúnico. O que a mediunidade representa em sua vida?

Walkiria – A amiga fiel de todas as horas, companheira desde a mais tenra infância que me consola, ampara e mostra carinhosamente o caminho a seguir, como devo comportar-me perante a vida e quais as melhores escolhas a fazer. Fiel representante das leis em nossas vidas, orienta-nos de que forma devemos realizar a modificação íntima. Pois é a este processo que a Doutrina nos convida: renovação íntima. A mediunidade só facilita o aprendizado, mostrando de forma prática as consequências das nossas atitudes. Participo de trabalhos mediúnicos há mais de dez anos, sempre vinculada à prática da terapêutica desobsessiva. Durante a comunicação, sentimos o que o desencarnado sente. Significa estar com o outro num contato mais íntimo, no qual nós, médiuns, mergulhamos em seus pensamentos e eles de sua parte mergulham nos nossos, imantando-se de nossos fluidos e transmitindo os seus sentimentos. O médium não pode alegar desconhecimento da verdade. Ouvimos, sentimos, para alguns de nós os fatos se desenrolam na nossa tela mental e podemos ver o que o desencarnado relata, mesmo os caracterizados pela mediunidade inconsciente. A inconsciência é do ato momentâneo, mas há o registro espiritual do fato no médium. 

RIE – Como orientar os espíritas envolvidos em atividades mediúnicas para manter o alto nível das reuniões?

Walkiria – Estudo constante, dedicação, humildade e abertura para as críticas. Preparação e treinamento não só dos médiuns que recebem comunicações, mas de todos. Cada um cumpre um papel importante na reunião. Também é importante estabelecer grupos menores, para que o dirigente possa ter um contato mais próximo com toda a equipe. Indicar dirigentes de grupo em razão do conhecimento e da moralidade que eles possuem, e não porque sejam amigos de alguém ou porque, fora da instituição, sejam figuras representativas da sociedade. Pensar sempre que a caridade deve ser feita com todos e que em nome dela não poderemos permitir que algumas pessoas deturpem a Doutrina Espírita, moldando-a a seu bel-prazer. A fidelidade dever estar em função da Doutrina, não das pessoas que fazem parte do movimento. Este é mutável, enquanto ela é permanente em nossas vidas. Como destaque na área da mediunidade, recomendamos, na questão de livros a serem consultados: O Livro dos Médiuns, Qualidade Na Prática Mediúnica (Projeto Manoel P. de Miranda) e Mediunidade: Desafios e Bênçãos (autoria de Manoel P de Miranda, psicografado por Divaldo Franco). Excelentes livros que darão a justa ideia do que vem a ser mediunidade com Jesus. 

RIE – E como identificar fraudes? Misticismo pode confundir quem está chegando agora ao Espiritismo?

Walkiria – Estudo e bom senso não fazem mal a ninguém. Estudo para avaliar com consciência o fato; bom senso para que observemos primeiro antes de tomarmos uma atitude. “Na dúvida, abstém-te, diz um dos vossos antigos provérbios. Não admitais, pois, o que não for para vós de evidência inegável. (…) passai-a pelo crivo da razão e da lógica. O que a razão e o bom senso reprovam, rejeitai corajosamente. Mais vale rejeitar dez verdades do que admitir uma única mentira, uma única teoria falsa” (Erasto, em O Livro dos Médiuns – Cap. 20 – “Influência moral dos médiuns”, item 230). 

RIE – Fique à vontade para suas últimas considerações.

Walkiria – Agradeço a oportunidade tanto de poder falar um pouco mais sobre a Doutrina Espírita, como de mostrar, através de algumas passagens da minha vida, que todos podem envolver-se com ela para traçar boas rotas em suas vidas.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – Agosto de 2016