Walkiria Araújo – walkiria.wlac@yahoo.com.br

“Há homens que sejam, por natureza, destinados a serem de propriedade de outros homens? Toda sujeição absoluta de um homem a outro homem é contrária à lei de Deus. A escravidão é um abuso da força e desaparecerá com o progresso, como desaparecerão, pouco a pouco, todos os abusos.

A lei humana que consagra a escravidão é uma lei anti-natural, visto que assemelha o homem ao animal e o degrada moral e fisicamente.” — (Questão 829, O Livro dos Espíritos)

Encontramos em O Livro dos Espíritos, nas questões 829 a 832 a explicação sobre o tema Escravidão. A escravidão indo muito mais além de um documento de posse de uma criatura com relação à outra, representa uma sujeição física, emocional, sendo o mais comum física/emocional, traz ao entendimento humano a explicação de tantos desaires emocionais ocorridos outrora e que não podem sofrer solução de continuidade.

As criaturas utilizam-se do poder que possuem. Em vez de apararem as arestas expiatórias, exercendo a prática do perdão para com aquela criatura que se encontram subjugada a si física e/ou emocionalmente aproveitam-se da ocasião para vingarem-se e agredir, agredindo-se também. Envenenando-se em primeiro lugar.

A escravidão é contrária a Lei de Deus, pois essa se constitui em submeter o outro a sua vontade, não lhe permitindo a liberdade de escolha. Antigamente a sujeição física era caracterizada pelo uso das correntes e pelo documento de posse dos senhores com relação aos seus escravos, infelizmente, ainda vemos isso na atualidade, maquiado por outros nomes e significados, que não de escravidão, mas que constituem sim, escravidão.

Há a escravidão psicológica. Mais terrível que a física, pois alguns que se encontram aprisionados e tolhidos em sua liberdade, ainda sonham e tem esperança de um porvir melhor. Sendo esse o móvel que os matem vivos, lutando para se libertarem do que lhes tolhem os passos. Alguns chegam ao ponto de irem ao holocausto físico por acreditarem em suas idéias e defende-las perante a sociedade vigente que abona um comportamento errado. Sendo representantes dos ocultos da sociedade, trazem a baila o que se encontra na periferia moral da criatura humana.

Inclusive, na questão seguinte (830), verificamos que a explicação dos costumes para justificar a escravidão, seja ela qual for, não é acatada pelos amigos espirituais que respondem aos questionamentos de O Livro dos Espíritos. Os Insignes Mestres da humanidade são taxativos em sua resposta: “O mal é sempre o mal e não há sofisma que faça se torne boa uma ação má. A responsabilidade, porém, do mal é relativa aos meios de que o homem disponha para compreendê-lo. …”

Sempre existirá o poder de escolha de nossa parte, o que o Espiritismo tão bem explica através do livre arbítrio. Não podemos nos acomodar perante o erro, se já compreendemos que é um erro. Isso vale para tudo na vida. Nos nossos pequenos atos, nos grandes momentos de testemunho particular. Alguns desses, só presenciados pela nossa consciência e pelos espíritos que se avizinham de nós por simpatia.

Esta explicação de o mal ser sempre o mal, vinculado ao pensamento escravagista mostra-nos que podemos optar por fazer ou não fazer. Agir ou não desta ou daquela forma. No recesso do lar, no qual a forma patriarcal arcaica deixa de existir nos dias atuais e as famílias desenham uma nova estrutura, que toma corpo, mas que ainda não se solidificou, gerando grandes abalos, a busca pelo poder e o uso da desforra quando se tem ocasião provocam a escravidão.

Nos locais de trabalho que não se utiliza mais os dizeres: “Sabe com quem você está falando?” porque o interlocutor já sabe que o outro detém poder e irá usá-lo contra quem se opuser, vemos vozes se levantarem. Criaturas desprovidas do poder social, mas possuidoras de poder moral modificar o lar, o local de trabalho ou qualquer outro agrupamento social que faça parte através do próprio comportamento e do uso das leis materiais que os amparam.

Não podemos nos contaminar com o mal dos maus; precisamos ser o bem dos bons; dos bons espíritos, dos tarefeiros do bem que velam pela a humanidade e que nunca aceitaram a escravidão como uma prática correta de estabelecer e padronizar as relações sociais. A debilidade momentânea intelectual não chancela o direito de submeter uma criatura à outra. Pelo contrário, o trabalho deve ser o inverso: se possuímos mais subsídios que os usemos para ajudar a avançar o nosso próximo, o apoiando no que pudermos.

Por mais que o processo de escravidão seja cultural não significa que tais criaturas que sejam os subjulgadores do próximo estejam livres do devido reajustamento com as Leis Divinas. Será levada em consideração a boa-fé e a humanidade com que trate os subjuldados, como também o seu grau de entendimento sobre as Leis. Não somos animais irracionais, somos individualidades universais que povoamos o Universo, filhos de Deus. É inadmissível a crença que um Pai Amoroso, soberanamente justo e bom criasse criaturas destinadas à escravidão, a subjugação a outros irmãos.

O que nos separa na escala espírita (questões 100 a 113 de O Livro dos Espíritos) são as qualidades que já adquirimos e as imperfeições que ainda temos que nos despojar. Em nenhum momento se fala da cor da pele, da condição social ou do sexo que a pessoa possua. Até porque o Espiritismo nos mostra a justiça das reencarnações. Estamos utilizando vestimentas que nos permitem avançar no processo evolutivo. Hoje estamos vestindo esta roupagem que vemos no espelho; amanhã, quem sabe? Tudo dependerá do nosso comportamento hoje. Como estamos agindo e como estamos aproveitando as oportunidades que a Divindade nos oferta no processo evolutivo.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – Outubro de 2016