Walkiria Araújo – walkiria.wlac@yahoo.com.br 

“O adolescente atual é Espírito envelhecido, acostumado a realizações, nem sempre meritórias, o que lhe produz anseios e desgostos aparentemente inexplicáveis, insegurança e medo sem justificativa, que são remanescentes de sua consciência de culpa, em razão dos atos praticados, que ora veio reparar, superando os limites e avançando com outro direcionamento pelo caminho da iluminação interior, que é o essencial objetivo da vida.” (Livro Adolescência e Vida, Joanna de Ângelis/Divaldo Franco, cap. 3 – O adolescente e o seu projeto de vida)

A adolescência segundo a Organização Mundial de Saúde é o período compreendido entre 10 e 19 anos; segundo a Organização das Nações Unidas é entre 15 e 24 anos. Já o Estatuto da Criança e do Adolescente define adolescência como o período compreendido entre os 12 e os 18 anos de idade. Encontramos esta temática em O Livro dos Espíritos nas questões 379 a 385.

A afirmação que existe uma imperfeição dos órgãos infantis (questões 379 e 380) começa por nos trazer luz ao entendimento sobre a questão da adolescência. Isto servirá de base para o nosso delinear de pensamento sobre o tema. Se há uma limitação física dos órgãos, entendemos que por mais que o espírito ali reencarnado possua amplitude de conhecimento, este deverá ser tratado de forma adequada a sua faixa etária, deixando ao tempo do amadurecimento da razão as experiências de vida correlatas. Isso também proporciona que a criatura se torne “… mais acessível às impressões que recebe…” (questão 383). É um molde que precisa ser trabalhado, incumbindo aos pais/educadores familiares esta tarefa.

O período da adolescência é um período de transição e de conflitos. Há uma alteração física e psicológica na criatura. Ela sente-se inadaptada ao meio social. Não é mais criança, não lhe é mais permitido um comportamento infantil, até porque a sociedade, erroneamente, cobra-lhe um comportamento amadurecido; não é um adulto, porque a convenção social, a maturidade fisio-psicológica e a Lei não lhe permitem ser. Sente-se no meio do caminho. Isto lhe cria dilemas que conflitam com as reminiscências do passado e as informações recebidas no presente. Três fatores são importantes para delinear o comportamento da criatura: a família, a religiosidade e a sociedade.

Família: nós replicamos o comportamento emitido pelos nossos familiares, mesmo que de forma inconsciente. Se não somos acolhidos pela família, destacando a figura dos pais e dos que lhes fazem às vezes, crescemos sem o molde formador adequado. Precisamos delimitar muito bem o comportamento de educadores do menor sob nossa guarda. Para que o modelo espelhado traga segurança e o jovem tenha para quem recorrer e possa avaliar de forma judiciosa a macro sociedade a partir da micro que ele faz parte. Não defendemos com isso que o modelo apresentado deverá ser aquele constituído por pai, mãe e filho, até porque muitos jovens são criados, por exemplo, pelos avôs. Mas que o jovem consiga perceber claramente a relação de pertencimento que exista entre todos e que não importando o que aconteça na macro sociedade a micro irá acolhe-lo e dar-lhe o direcionamento adequado. Corrigindo quando for necessário e sustentando quando ele sentir que suas forças estão fraquejando.

Religiosidade: sem a função do religare que a religião proporciona, a criatura acredita-se vinculada somente à busca do prazer material não ansiando a algo melhor. O vazio existencial será preenchido por sensações de prazer imediato. É tentar matar a sede com a água salgada. A crença em Deus faz parte dos arquétipos da criatura. Já reencarnamos inúmeras vezes, o que nos tolda a visão é o orgulho de nos acharmos superiores ao que realmente somos. Por isso, além de apresentarmos a religião como estatuto de conduta para o jovem, deveremos vivenciá-la em nosso lar. Trazendo as boas práticas da leitura edificante, do culto do Evangelho no Lar e da participação regular do estudo dos livros da codificação na Instituição Espírita ao qual a família esteja vinculada. Tais práticas incutirão, neste jovem, também, o desejo de participar e de aprofundar o entendimento sobre esta Doutrina que nos enriquece e nos sustenta. Isto fará com que a princípio ele participe das mocidades espíritas e depois se engaje em outros trabalhos da Instituição. Através da prática do bem conseguimos vivenciar o religare com a Divindade.

Sociedade: somos seres gregários que necessitamos (mesmo que esta ideia esteja implícita) da ratificação do agrupamento social ao qual pertençamos. O que o ocorre é que se o link familiar e/ou religioso não corresponde aos nossos anseios teremos a tendência de buscar o agrupamento que servirá para extravasar as nossas demandas. Buscando o agrupamento que melhor se adéqüe, o jovem pode acabar se vinculando a criaturas que também estão em busca de se auto-afirmarem ou que estão desalinhadas psico-emocional e espiritualmente e estão buscando companhia. Os próprios meios de comunicação, o culto ao corpo, as músicas alucinantes, as drogas, a sexualidade em desalinho são facilitadores. Criou-se a cultura “Do sendo praticado as ocultas, não há problema!” e não é dessa forma. Errado sempre será errado, mesmo que só tenhamos a consciência como testemunha.

A juventude constitui-se um período de desafios, pois a criatura rompe algumas barreiras, solidifica outras experiências e procura criar a sua própria história, baseada na micro sociedade que teve como parâmetro. Mais importante do que o modelo que tivemos para a vida é o que extraímos de bom desse modelo e como, mesmo diante das situações mais adversas, conseguimos transformá-las em aprendizado e pontes que alavancarão a nossa evolução.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – novembro 2016