Walkiria Araújo – walkiria.wlac@yahoo.com.br 

“Caminhando Jesus e os seus Discípulos, chagaram a um povoado onde certa mulher chamada Marta o recebeu em sua casa. Maria, sua irmã, ficou sentada aos pés do Senhor, ouvindo a sua palavra. Marta, porém, estava ocupada com muito serviço. E, aproximando-se Dele, perguntou: ‘Senhor, não te importas que minha irmã tenha me deixado sozinha com o serviço? Dize-lhe que me ajude!’ Respondeu o Senhor: ‘Marta! Marta! Você está preocupada e inquieta com muitas coisas; todavia apenas uma é necessária. Maria escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada.” (Lucas, cap. X, VV 38 a 42)

O Mestre Jesus nos convida a reflexionar o que se constitui a melhor parte de nossas vidas nos dias atuais. Com o exemplo de Maria ele nos propõe a fazer a escolha certa. A separarmos o que é transitório do que é permanente. Para que na noite mesma que nos tomarem a alma (Lucas, 12:20) não sejamos tomados de assalto e acreditemos que a Lei é injusta para conosco.

Joanna de Ângelis no Livro Jesus e o Evangelho a Luz da Psicologia Profunda, cap. 22 – Propriedade nos diz: “Por instinto de conservação da vida, [a criatura] apega-se aos recursos que lhe passam pelo caminho: afetivos, emocionais, materiais e, sem as reservas morais suficientes, submete-se-lhes, escravizando-se, para depois vencer, a ingentes lutas, a situação calamitosa a que se atirou.” Quando falamos de apego, normalmente destacamos o apego aos bens materias, mas esquecemo-nos das questões afetivas e emocionais que nos envolvem e acreditamo-nos possuidores das pessoas e das próprias emoções dessas pessoas. Até a mediunidade. Somos medianeiros, mediadores, transmissores, mas não nos constituímos proprietários dos espíritos.

Esta ideia de propriedade de uns sobre os outros ainda é tão forte que alguns submetem e são submetidos a situações de verdadeiras agressões travestidas de amor que são simbioses das quais ambos são prisioneiros. Pois aquele que aprisiona acaba se aprisionando a rituais excessivos e a circunstâncias deprimentes para não perder o outro e aquele que se acredita ser o submetido, algumas vezes, acomoda-se por estar sempre sendo servido e isto impede o crescimento psico-emocional da criatura. Na verdade, de ambos. Criam-se algemas que aprisionam, aprisionando-se. Verdadeiro círculo vicioso que se não for quebrado gerará conflitos para outras encarnações.

Na continuidade do referido capítulo, Joanna de Ângelis nos fala que “O ser humano tem o dever de selecionar os objetivos existenciais, colocando-os em ordem de acordo com a qualidade e o significado de todos eles, para empenhar-se em destacar aqueles que são primaciais, exigindo todo o empenho, e aqueloutros que são secundários, podendo ser conduzidos com naturalidade, sem maior sofreguidão.” Quando passamos a ordenar e destacamos qual o objetivo da nossa existência, começamos a valorar o que está ao nosso redor, elevando a patamar superior o que realmente tem importância e deixando como secundário aquilo que faz parte da nossa existência, mas como veículo de aperfeiçoamento, não como objetivo principal da nossa evolução. Por isso, lemos no Evangelho Segundo o Espiritismo que aquele que tem fé no futuro caminha com passos firmes, porque consegue vislumbrar o objetivo visado e caminha com profunda resolução, pois sabe que alcançará o que deseja.

A questão não é a negação do patrimônio, mas a busca por Deus. Não pregamos a pobreza, pois ela por si só representa um grande fator de reajuste pelo próprio restringimento que provoca; não defendemos a riqueza como fonte de felicidade, pois ela nos traz o facilitador do poder e da comodidade que normalmente exaltam o orgulho e a ambição. Tudo na vida possui um fim providencial. O problema não está em possuir, está na forma como isto foi conseguido e como agimos depois que conseguimos. Nas lágrimas que derramamos ou nas lágrimas que fizemos derramar para conquistarmos o almejado.

Até mesmo a busca pelo conhecimento científico dever ser ponderada e buscada. A questão 898 de O Livro dos Espíritos nos apresenta informação sobre isto. Mesmo que a aquisição deste conhecimento diga respeito somente às coisas e as necessidades materias, temos a oportunidade de auxiliar ao nosso irmão e de evoluirmos, primeiro intelectualmente e depois espiritualmente. Pois através do conhecimento adquirido abrimos campo mental para novas experiências e se assim o quisermos amadurecemos como criaturas espirituais e nos colocamos num novo prisma de visão. O conhecimento não se torna obrigatório para o aprimoramento moral, mas sendo um facilitador abre o campo de visão dando o subsídio intelectual no qual a criatura irá buscar as respostas científicas para o que o sentimento está mostrando.

A diferença entre o remédio e o veneno é a dosagem na maioria das vezes. Maria escolheu a melhor parte, pois se dispôs a aquisição do tesouro que o ladrão não rouba e que a traça não corroe, mas que serve como arcabouço, verdadeira viga de sustentação para a formação do caráter da criatura. Ajudando-nos a prosseguir e fornecendo-nos o ânimo necessário para acreditarmos que o futuro dependerá da soma de tudo o que plantarmos no presente. A boa semente, naquele momento, foi planta, na hora certa, germinando, produzindo frutos de esperança em Maria e servindo de exemplo para os outros. E quanto a nós, qual parte queremos? Queremos servir a Deus ou a Mamon?

Jornal O Clarim – Novembro de 2016