Octávio Caúmo Serrano             caumo@caumo.com

Aprendemos ao longo da história milenar que o homem é uma alma reencarnada. Uma afirmativa, por exemplo, de Sócrates, 400 anos antes de Jesus e 2250 anos antes de o Espiritismo, organizado por Allan Kardec que nasceu em 3 de outubro de 1804, vir para ressuscitar a Lei da Reencarnação, arquivada e esquecida nos escaninhos do passado remoto.

Quando um casal se une para produzir um corpo, constrói uma nova casa para o abrigo de alguma alma milenar que virá morar nela, após cuidadosa programação, levando-se em conta seu passado espiritual e necessidades evolutivas que precisa experimentar. Traz, portanto, um psiquismo já plenamente povoado de ações, boas e más, caracterizadas como virtudes e defeitos que já estão nele incorporados, porque estes são os tesouros do céu, que o ladrão não consegue roubar.

Nossas experiências ficam acumuladas no inconsciente para toda eternidade. Daí porque vale a pena o esforço de renovação para melhorar-nos porque se incorpora para sempre em nós e nunca mais o perdemos. Uma conquista definitiva. Uma vez paciente seremos dono da paciência; para sempre. Uma vez humilde, dono definitivo da virtude da humildade. Por todos os milhões de séculos que ainda nos restarão viver.

Embutido nesse passado, há amiúde resgates ligados à fertilidade e à impotência dos humanos, o que os impedem de criar o novo corpo no qual virá morar essa velha alma que deseja continuar suas experiências. É para as mulheres um momento de frustração inconsolável porque, sem dúvida, é na maternidade que elas experimentam o seu mais sublime momento de vida. A alegria é tanta quando ficam grávidas que por mais feias que sejam suas feições humanas elas se enriquecem de uma beleza que transparece pelos poros, com olhos mais brilhantes e suavidade no semblante. Conclui-se que é por terem no seu corpo, durante esses nove meses, duas almas em vez de uma.

Há um recurso ainda mal compreendido para preencher essa decepção causada pela infertilidade que é a adoção. Embora aprendamos que o corpo herda do corpo, mas o espírito tem sua própria história, ainda há um tabu no momento da adoção. Temem que o adotado seja filho de algum malfeitor e traga com ele uma carga maligna herdada do genitor. Embora saibamos que caráter não se transmite por DNA, há sempre alguma apreensão.

Em O livro dos Espíritos, na pergunta 203, foi feita a seguinte indagação: “Os pais transmitem aos filhos uma porção de suas almas ou apenas lhes concedem a vida animal, à qual uma alma nova vem, mais tarde, adicionar a vida moral?” Resposta, “Os pais transmitem apenas a vida animal, pois a alma é indivisível. Um pai estúpido poderá ter filhos inteligentes e vice-versa,”
A seguir, na questão 207 há outra dúvida: “Os pais frequentemente transmitem a seus filhos uma semelhança física; transmitem, também, uma semelhança moral?”  Resposta, “Não, pois têm almas (ou espíritos) diferentes O corpo deriva do corpo, mas o espírito não deriva do espírito. Entre os descendentes das raças há apenas consanguinidade.”

Mas como explicar que às vezes há semelhanças morais entre pais e filhos? Na questão 207a está dito que são espíritos simpáticos, atraídos pela afinidade de suas inclinações.

Quem não puder ter filho não tenha preconceito contra a adoção, porque filho legítimo ou adotivo será um homem de bem, ou não, conforme a educação que se lhe dê. É provável que um adotado nos cause até mais alegria porque, se for correta e naturalmente informado dos antecedentes, saberá ser agradecido e procurará corresponder ao amor que lhe foi ofertado. Ao contrário do chamado legítimo, que quando é contrariado nas suas necessidades logo solta aquela conhecida frase absolutamente inverídica: “Eu não pedi pra nascer.” Às vezes pediu e até implorou.

Quando o adotivo está na categoria dos espíritos afins, como relatado na questão 207a acima, poderá ser até mais parecido com os pais do que aqueles que foram gerados no ventre da mãe genitora. Serão mais amigos e sabe-se lá porque chegaram a esse lar. No livro da psicóloga americana Helen Wambach, “Vida antes da vida”, ela relata nas entrevistas por regressão hipnótica, alguns casos de pessoas que sabiam que iriam nascer de uma mãe com a qual eles não tinham compromisso, mas que logo depois seriam adotados por outras pessoas com as quais tinha comprometimentos anteriores. A Lei de Deus é muito bem feita!

Nunca se esqueça: FILHO ADOTADO, TROFÉU DE AMOR. Título do Capítulo 13 do nosso livro “Pontos de Vista” de março de 1996. Se já existíamos antes de nascer, somos todos adotados.

Tribuna Espírita – Setembro/Outubro 2016