Walkiria Araújo – walkiria.wlac@yahoo.com.br 

“Qual o meio prático mais eficaz que tem o homem de se melhorar nesta vida e de resistir à atração do mal? ‘Um sábio da antiguidade vo-lo disse: Conhece-te a ti mesmo.’” (Livro dos Espíritos, questão 919)

Antes de nos colocarmos no mundo, precisamos saber quem somos. Nossos pendores, nossas aspirações, para somente depois, nos projetarmos para o mundo. Porque, senão, seremos “algo” dirigido por outros, lhes seguindo a vontade sem analisarmos o que estamos fazendo. Este movimento de conhecer-se passa por quem somos na família, na sociedade, nas relações profissionais e na religião.

Vivemos um eterno movimento de crescimento. Movimento este que precisa ser calcado em bases sólidas. Mas, para isso, precisamos sair do estado de consciência de sono e passarmos para a consciência desperta. A consciência de sono está vinculada a busca da saciedade dos prazeres sensoriais: comer, dormir, etc… A consciência desperta, fala-nos do ser como parte integrante da sociedade, do aprofundamento da criatura e da busca pelo “eu divino” que habita em nós, mas que não perde a sua individualidade. É o entendimento do significado de fazer parte do grupo, mas não deixar de ser uma individualidade por causa disso.

Falando um pouco mais sobre o assunto, vemos criaturas, independente do grau de cultura, moldarem-se ao agrupamento que estão, seguindo-lhes a vontade sem procurarem raciocinar o que estão fazendo, em virtude do desejo de serem aceitos, seja por imaturidade espiritual, seja pelo anseio de se darem bem a todo custo. O ponto de análise é que a criatura passa a projetar não o que é realmente, mas o que os outros desejam que ela seja.

Não estamos falando das concessões, a título de boa convivência, que todos fazemos. Ora um cede, ora outro cede para que aja este movimento de tolerância e aprendizado recíprocos. Estamos falando no moldar-se ao agrupamento, a ponto de assumir a personalidade dominante do grupo, mesmo que isto esteja em desacordo com o que se acredita. Isso sendo mais comum do que se parece.

Ao reencarnarmos, trazemos as impressões já grafadas de outras encarnações, mas também absorvemos o que nos é transmitido pelo meio ambiente: “383 – Qual, para este [espírito], a utilidade de passar pelo estado da infância? Encarnado, com o objetivo de se aperfeiçoar, o Espírito, durante esse período, é mais acessível às impressões que recebe, capazes de lhe auxiliarem o adiantamento, para o que devem contribuir os incumbidos de educá-lo.” (Livro dos Espíritos). Por isso é tão importante aproveitarmos esta fase para ensinarmos, muito mais através dos exemplos que das palavras, quais as diretrizes a seguir.

A família é a primeira sociedade que conhecemos. Local em que grande parte do nosso caráter é formado. A criatura em reencarnado vem como molde maleável e moldável as impressões trazidas pelos seus educadores que permanecerão impregnadas ao longo do tempo. Ver-nos-emos reproduzindo comportamentos que nem acreditávamos que tínhamos absorvidos. A família serve como modelador dos relacionamentos futuros que a criatura terá com as outras pessoas.

Outro ponto delineador e que servirá de sustentáculo em nossas vidas é a religiosidade. Não estamos tratando da religião pura e simplesmente. Não é da prática da religião, mas da mudança que as ideias do Divino e da Sua Lei provocam em nossas vidas. Trazemos ao reencarnar a memória da religião, no sentido do religare com a Divindade. Mesmo aqueles que se afirmam ateus, o possuem. Mas por razões, as mais variadas possíveis, preferem afervorarem-se na negação. Mas reafirmamos ser a religiosidade o segundo grande pilar que possuímos para conseguir projetarmo-nos no mundo de forma segura.

O que se torna complicado é quando a criatura não possui um modelo equilibrado de família. Não estamos falando do modelo constitutivo de pai, mãe e filhos. Modelo esse, bastante modificado nos dias atuais. Pois hoje, agregam-se avós, enteados, etc. Estamos falando dessa relação de pertencimento tão importante ao desenvolvimento da criatura. Ou quando não encontramos no correspondente religioso as respostas para os nossos anseios. Seja porque estamos numa religião imposta e não estamos adequados, seja porque estamos na religião adequada, mas não nos predispomos ao movimento de mudança para que o religare aconteça.

Com isso, a criatura projeta-se para a sociedade e agrupamento profissional buscando suprir os prazeres imediatos, querendo matar a sede com a água do mar. Não com a água cristalina do conhecimento espírita que é sólida e representativa para o futuro.

Dentro dessa busca de compreensão dO Homem no Mundo, cabe ressaltar os médiuns. Criaturas que em virtude das percepções mediúnicas conseguimos absorver o psiquismo ambiente de uma forma amplificada. Com isso, necessitamos ter mais vigilância e bons condicionamentos psicológicos para ao absorvermos não nos deixarmos ir pelo grupo dominante (encarnados e de desencarnados).

Então como o homem deve comportar-se no mundo? A questão 919 “a”, nos orienta: “Fazei o que eu fazia, quando vivi na Terra: ao fim do dia, interrogava a minha consciência, passava revista ao que fizera e perguntava a mim mesmo se não faltara a algum dever, se ninguém tivera motivo para de mim se queixar.”

“Presentes” nos são ofertados, muitas vezes, em regime de imposição (são as expiações), outros são escolhas que fazemos porque já entendemos que precisamos mudar de significado a encarnação (são as provas), mas transformarmos o recebido em algo bom, depende exclusivamente de nós. Significa aprendizado. Por isso, quando falamos que a doutrina nos apresenta a Justiça das Reencarnações, não estamos trazendo uma propositura para o futuro, mas de uma esperança para o presente. Vendo de uma forma clara que não existe atalhos na busca da perfeição e que só a alcançaremos quando tivermos chegado ao cume da nossa montanha interior.

Tribuna Espírita – Setembro/Outubro 2016