rie_janeiro_2017

Um prefácio de luz para um livro que ilumina!

Octávio Caumo Serrano | caumo@caumo.com

Analisemos o Prefácio de O Evangelho Segundo o Espiritismo, esta mensagem de amor dirigida a todos os homens que define claramente por que viemos ao mundo. A Doutrina dos Espíritos chegou na hora certa, a fim de restabelecer verdades que se deterioraram ao longo do tempo, derrotadas por interesses mesquinhos, equivocados e separatistas.

“Os Espíritos do Senhor, que são as virtudes dos céus, como um imenso exército que se movimenta ao receber a ordem de comando, espalham-se sobre toda a face da Terra. Semelhantes a estrelas cadentes, vêm iluminar o caminho e abrir os olhos dos cegos.

“Eu vos digo, em verdade, que são chegados os tempos em que todas as coisas devem ser restabelecidas no seu verdadeiro sentido, para dissipar as trevas, confundir os orgulhosos e glorificar os justos.

“As grandes vozes do céu ressoam como o toque da trombeta, e os coros dos anjos se reúnem. Homens, nós vos convidamos ao divino concerto: que vossas mãos tomem a lira, que vossas vozes se unam, e, num hino sagrado, se estendam e vibrem, de um extremo do Universo ao outro.

“Homens, irmãos amados, estamos juntos de vós. Amai-vos também uns aos outros e dizei do fundo de vosso coração, fazendo a vontade do Pai que está no Céu: Senhor! Senhor! E podereis entrar no Reino dos Céus”. (O Espírito De Verdade)

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Este alerta trazido pelo guia espiritual de Allan Kardec deixa estabelecido que o Espiritismo veio para renovar o homem, fazendo-o entender quem é e qual a sua função no mundo dos “vivos”. Crescer e renovar-se para tornar-se cristão.

Os recursos de que se serve o Espiritismo são a divulgação das verdades que nos dão conhecimento claro de quem somos nós, o que nos compete fazer neste breve momento da nossa eternidade e para onde iremos depois daqui.

Embora seja louvável o trabalho de caridade material executado pelas entidades espíritas, quando distribuem roupas, alimentos, curas espirituais, não é esta a prioridade da Doutrina dos Espíritos. Ela não veio para cuidar dos corpos, mas das almas. O Evangelho de Jesus, que teve sua essência renovada e atualizada pelo Espiritismo, afirma a mesma coisa. “Vai e não peques mais”; “ninguém sairá daqui enquanto não pagar até o último ceitil”; “Ama o próximo como a ti mesmo!”.

O atendimento às necessidades básicas do homem é da alçada de todas as pessoas, independentemente de sua crença. É um dever de solidariedade do ser humano que pretenda ostentar o título de cristão. Ser espírita é eficiente recurso para atingir esse objetivo, no entanto, quando os poderes constituídos cumprirem integralmente o seu dever social, as necessidades materiais do homem estarão plenamente atendidas. Restará a ele, nesse momento, a tarefa do próprio aprimoramento, o que não pode ser transferida a terceiros. É nesta hora que o Espiritismo mostra sua verdadeira força. Tem as mais claras receitas para a conhecida reforma íntima do homem, que nada mais é do que a construção do seu bom caráter.

A vivência do Espiritismo pelo próprio homem irá fazê-lo melhor a cada dia. Temos usado tempo demais tentando aplicar a doutrina nos outros, com sábias receitas de reforma moral para os que nos ouvem, esquecendo-nos de vivê-las em nós mesmos. A velha frase ainda é válida: “Entramos para o Espiritismo, mas o Espiritismo ainda não entrou em nós”; “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”, se é que deseja melhorar-se. Tribunos teóricos de discursos invejáveis que manejamos o verbo com sabedoria e eloquência, seguimos pecando nas mais elementares atitudes. Até a nossa mansuetude é muitas vezes mentirosa, artificial. Não resiste à menor contrariedade, porque nos sentimos os donos da verdade.

Muitos de nós que fazemos discursos com receitas para conserto da humanidade deveríamos ser ouvintes em vez de aconselhadores. Talvez aprendêssemos mais se parássemos para pensar honestamente e fizéssemos a autoanálise proposta na pergunta 919a de O Livro dos Espíritos. De cordeiros temos somente a pele.

Este escrito não se destina à condenação de ninguém; é mea-culpa para nossa própria reflexão porque, às vezes, vivendo distraídos perdemos nosso melhor momento. Empolgamos com o conhecimento e a verve fácil para divulgá-los, com frases de efeito e expressiva citação bibliográfica, deixamos passar, distraidamente, a sua vivência. E quando alguém elogia nossa facilidade de comunicação o perigo aumenta mais ainda. Sentimo-nos como faróis para a humanidade e nem percebemos que ainda não iluminamos nem a nós mesmos.

Como prova do que dissemos, reproduzimos nosso soneto “Pregações” da página 16 do livro Luz no Túnel de 1998, nosso primeiro livro de poesias editado em João Pessoa (PB): “Quando me ponho na tribuna a dar conselho / Vou informando de paciência e caridade / Para que um dia toda a comunidade / Seja feliz e a mim me tenha como espelho. / Infelizmente, não é esta a realidade. / O tempo passa e eu já sou um homem velho / E, no entanto, quase nunca sou parelho / Entre o que ensino e o que vivo, de verdade. / Mas eu espero que aquele que me escuta / Ganhe coragem para prosseguir na luta / E saiba sempre perdoar o inimigo. / De minha parte, carregando a cruz ao dorso / Tento viver, e isto me custa um grande esforço, / Ainda que seja dez por cento do que digo”.

Que Deus me ajude para que eu consiga aplicar em mim um pouco do discurso que ofereço aos outros. No meu comportamento no lar, no trabalho, na escola, na rua ou no agrupamento religioso onde faço minhas mais importantes experiências de amor ao próximo. Que minha teoria seja vivida na prática. Ah, meu Deus! Fortaleça-me para que eu consiga. Feliz Ano Novo!

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – janeiro 2017

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