Walkiria Araújo – walkiria.wlac@yahoo.com.br

“Então, levantando-se, disse-lhe um doutor da lei, para o tentar: Mestre, que preciso fazer para possuir a vida eterna? – Respondeu-lhe Jesus: Que é o que está escrito na lei? Que é o que lês nela? – Ele respondeu: Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, de toda a tua alma, com todas as tuas forças e de todo o teu espírito, e a teu próximo como a ti mesmo. – Disse-lhe Jesus: Respondeste muito bem; faze isso e viverás. Mas, o homem, querendo parecer que era um justo, diz a Jesus: Quem é o meu próximo? – Jesus, tomando a palavra, lhe diz: Um homem, que descia de Jerusalém para Jericó, caiu em poder de ladrões, que o despojaram, cobriram de ferimentos e se foram, deixando-o semimorto. – Aconteceu em seguida que um sacerdote, descendo pelo mesmo caminho, o viu e passou adiante. – Um levita, que também veio àquele lugar, tendo-o observado, passou igualmente adiante. – Mas, um samaritano que viajava, chegando ao lugar onde jazia aquele homem e tendo-o visto, foi tocado de compaixão. – Aproximou-se dele, deitou-lhe óleo e vinho nas feridas e as pensou; depois, pondo-o no seu cavalo, levou-o a uma hospedaria e cuidou dele. – No dia seguinte tirou dois denários e os deu ao hospedeiro, dizendo: Trata muito bem deste homem e tudo o que despenderes a mais, eu te pagarei quando regressar. Qual desses três te parece ter sido o próximo daquele que caíra em poder dos ladrões? – O doutor respondeu: Aquele que usou de misericórdia para com ele. – Então, vai, diz Jesus, e faze o mesmo. (S. LUCAS, cap. X, vv. 25 a 37.)

 

Tendo como base a passagem de Lucas, O Evangelho Segundo o Espiritismo (cap. XV) e a Palestra da Série Psicológica de Joanna de Ângelis, Módulo 21 – Aula 03 – A Parábola do Bom Samaritano (TVCEI), trazemos alguns apontamentos sobre a parábola do Bom Samaritano e reflexionamos como ela é atual. Traz um significado de conhecimento de si mesmo e de aprofundamento dos valores Crísticos em nossas vidas.

A passagem nos fala, a princípio do doutor da lei e da vida eterna. Apresenta-nos desde logo que a Lei Divina deve nortear o nosso comportamento e que ele não deve ser projetado somente no presente, mas que deveremos em tudo buscarmos a plenitude em nossas vidas. Mas a norma deve ser exercitada conforme a compreendemos: Que é o que lês nela? O processo evolutivo é pessoal, por isso, deveremos buscar nos refolhos da alma o arcabouço intecto-moral necessários para avançarmos.

O Mestre orienta quando nos fala do Amor a Deus que devemos dedicar todo o nosso sentimento, não só no momento presente, segundo a visão atual da vida (alma), mas tendo fé no futuro e projetando a vida para mais além (teu espírito). Mas primeiro devemos aprender a nos amar, sem pieguismo ou vaidade, para podermos amar ao meu próximo, preenchendo-me de amor ao ponto de transbordar para meu semelhante (e a teu próximo como a ti mesmo)

Mesmo assim, o Doutor da Lei questiona a Jesus quem seria o próximo e o Mestre Rabi traz-nos uma das passagens mais repetidas como exemplo de caridade: O Bom Samaritano. Começa a passagem falando sobre a vinda de um homem, uma criatura qualquer, mas não qualquer criatura, que andava de um ponto a outro. Descia, fazia este movimento de introspecção que todos fazemos quando estamos em busca da solução de um problema e precisamos fazer a travessia do problema. Mergulhamos em nós mesmos em busca da solução.

Os problemas, por vezes, nos maceram tanto, que sentimo-nos como “roubados” em nossos sonhos, em nossas esperanças, sem forças para prosseguir. Quando mergulhamos em nós mesmos, por vezes nos deparamos com o sacerdote ou o levita, hábeis nas palavras, conhecedores das escrituras, detentores de um grande conhecimento da vida, mas pouco praticantes do que sabemos. Passamos normalmente ao largo, olhamos o nosso problema e não queremos aprofundar o bisturi porque provocará dores e nesse momento os fatores externos nos chamam a atenção, são mais convidativos e preferimos nos entorpecer com o momento e passamos adiante.

Mas hora chega que vemos o samaritano eclodir em nós. Da mesma maneira que eles eram desprezados a época, a nossa parte “samaritana” também é desprezada e escondida por nós. É o nosso conteúdo guardado que vem à tona, que nos traz a solução para os nossos problemas e nos aponta o caminho a seguir. Leva-nos a hospedaria, que representa a figura materna por excelência, acolhendo-nos, cuidando de nossas feridas até que nos recomponhamo-nos e prossigamos.

Por fim, para afirmar o ensino, Jesus pergunta ao Doutro da Lei quem parecia ser o próximo daquele que caiu em poder dos ladrões, e com sapiência deste, escuta como resposta: Aquele que usou de misericórdia para com ele. Ouvimos muito no meio espírita sobre a misericórdia para com todos, mas pouco se fala da misericórdia para consigo mesmo. No Evangelho, capítulo X, no item Perdoai para que Deus vos perdoe, que “Ela [a misericórdia] consiste no esquecimento e no perdão das ofensas.”, partindo do princípio que eu preciso aprender a me amar para amar aos outros, também preciso exercitar o auto-perdão para poder perdoar aos outros.

Quando me reconheço como criatura com falhas que estou num processo evolutivo e que em alguns momentos eu erro, mas que também acerto, também começo a enxergar o mundo de uma forma menos egoística e passo a ver que o meu próximo também comete erros. Que da mesma forma que eu estou neste processo de auto-descobrimento ele também está. Da mesma forma que solicito novas oportunidades de aprendizado, talvez ele também esteja neste momento. Estas explicações não resolvem o problema, mas nos ajudam a minimizar o que estamos vivendo e a parábola por si só nos convida a sermos mais misericordiosos e mais caridosos para conosco mesmos.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – fevereiro 2017

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