rie_fev_2017

“Amados, não creiais em todos os espíritos, mas provai se eles vêm de Deus” – João 4:1.

Octávio Caumo Serrano | caumo@caumo.com

Ao estudar o capítulo XXI de O Evangelho Segundo o Espiritismo, vem-nos à mente como somos ingênuos ao permitir que falsos profetas tenham sucesso. Ao consultar os desencarnados, Kardec raciocinou que eles eram as almas dos homens que morreram e, portanto, não tinham toda sabedoria. Puro bom senso.

Encantados com o termo profeta, que nas velhas escritas designa os chamados por Deus para revelar o futuro aos homens comuns, passamos a ser crédulos, sem bom senso, caindo em armadilhas. Daí vem a origem dos falsos profetas que, segundo as advertências de Mateus e Marcos, enganarão até os escolhidos. A nossa boa fé é tão sem critério que entregamos nossa vida, o bem mais precioso que temos, a qualquer um desses supostos emissários. O líder religioso, o patrão, o político, o falso amigo… Diz o povo que para cada esperto há dez tolos. Os sabidos sempre terão oportunidades para suas falcatruas, porque são hábeis e sabem como explorar a credulidade das pessoas simples. Até os inteligentes são enganados porque eles são convincentes; encarnados e desencarnados.

Onde estão os falsos profetas? Em todas as áreas. Na mídia irresponsável e ardilosa, na política desonesta, nas religiões mercantilistas, que se proliferam em abundância no planeta. É a razão porque todos querem ter uma emissora de rádio ou TV, é por isso que os partidos políticos chegaram a um número que ninguém consegue memorizar e é por essa razão que nasce todo dia uma igreja nova, falando mal das outras, tentando eliminar a concorrência para que sobre uma fatia mais gorda de cada bolo repartido. Quem tiver curiosidade entre nos programas de pesquisa da internet e digite “falsos profetas”. Terão vídeos e filmes para assistir por um mês mostrando o treinamento que os chefes religiosos fazem com seus colaboradores para assaltar com mais facilidade e convencimento o ingênuo que procura se vencer na vida sem fazer força.

Ainda funciona o toco-mocho, que é a venda por 10 de um bilhete sorteado com 100. Um esperto percebe a fragilidade de outro que se julga sabido e, por ganância, aproveita para lucrar. Quando se vê ludibriado, reclama, embora seja tão desonesto quanto o outro. Se o primeiro lhe propôs vender por 10 o que valia 100, e ele aceitou rapidamente ficar com os 100 pagando apenas 10, mereceu ser enganado. Como um empresário que dá dinheiro para a igreja na ilusão de que Deus aumentará seu faturamento. Mesmo que seja ineficiente como industrial e não modernizou o parque produtivo, só porque dá dinheiro para a igreja, Deus vai recompensá-lo mandando clientes para adquirir seus produtos. Os que não podem pagar vão à falência? Mas no Céu não tem banco e Deus não vive de juros. Só alguém muito ingênuo para acreditar nessas leviandades.

Mesmo no Espiritismo, onde o dinheiro não é comum, o falso profeta se alimenta da vaidade. Perguntem algo e ele terá a resposta que resolve qualquer problema. Por que as pessoas querem ainda falar com os espíritos, fazer perguntas sobre seu passado e seu futuro, depois de conhecer o Evangelho de Jesus? “Faz que o Céu te ajuda”; “a quem te tomar o manto dá também a túnica”; “se alguém te obrigar a caminhar mil passos, vai com ele dois mil”; “vende tudo o que tens e me segue”. O Espiritismo não promete salvação a não ser por prestação de serviços: “fora da caridade não há salvação”.

André Luiz explicou que perguntas fúteis são respondidas por espíritos atrasados que se sentem importantes por orientar. Espírito Superior cuida da coletividade, não da individualidade. A não ser que alguém tenha missão relevante e mereça um guia que o assessore: Kardec e o Espírito de Verdade, Chico Xavier e Emmanuel e outros benfeitores cujos mentores nem se apresentaram, mas fatalmente eles os tiveram; Gandhi, Luther King, Mandela, Teresa de Calcutá, Dulce da Bahia e tantos outros.

O verdadeiro espírita nunca será um falso profeta; ele “é reconhecido pela sua transformação moral e pelo esforço que faz no combate às suas más inclinações”. Não se reconhece o espírita verdadeiro pelos passes que aplica ou recebe, pelas palestras que faz ou assiste, pelos atributos mediúnicos, mas pelo bem que com isso constrói, abrangendo as diferentes formas de caridade e lutando para sair do mundo com um caráter melhor do que chegou quando foi premiado com nova reencarnação. Quem prestigia os falsos profetas são os ingênuos verdadeiros. E como estes são maioria, enchem as igrejas alimentando os desonestos, elegem políticos corruptos que lhes oferecem vantagens irrisórias e compram mercadorias adulteradas. E são esses os que fazem correntes em defesa da honestidade, exigem a renúncia dos que trapaceiam e posam como pessoas de bem. Mas se prevalecem do amigo para furar a fila ou passar na frente de quem chegou primeiro.

O que observamos é uma deterioração na nossa humanidade em termos de caráter. A desonestidade e a mania de levar vantagem a qualquer preço se encontra no DNA da maioria de nós, sendo quase sempre transmitida por genética, apesar de ofender-nos se alguém nos disser isso. Ao nos analisarmos com rigor veremos que é uma lamentável realidade e um impedimento para que sejamos solidários e fraternos, sem que sejamos ao mesmo tempo um tolo e um falso profeta. Oremos e vigiemos. Mas com um rigor que nunca usamos até agora. Os tempos estão no fim; é preciso correr!

O que nos estimula a seguir na luta é saber que o comando segue nas mãos de Deus. Os verdadeiros profetas, organizadores da nova Terra de regeneração, já estão nascendo ou se programando. Façamos por merecer nossa permanência por aqui; encarnados ou candidatos a uma nova vida neste mundo depois de renovado. Criemos mérito para tal.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – fevereiro 2017

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