Octávio Caúmo Serrano        caumo@caumo.com

O autoelogio ou elogio por terceiros seria algo proibido?

Quando abraçamos o Espiritismo, passamos a ter de revestir-nos de uma capa de modéstia que é, muitas vezes, artificial. Não combina com nossa maneira natural de ser e acaba por nos deixar meio hipócritas. Mas isso não deveria acontecer. Ele nos ensina a sermos verdadeiros e a dar o devido dimensionamento às nossas qualidades e defeitos porque só nos conhecendo, como preceitua a questão 919 de O Livro  dos Espíritos é que poderemos conhecer nosso verdadeiro tamanho espiritual.

É nessa mesma questão, no item “a”, que o lúcido Santo Agostinho nos propõe uma autoanálise a fim de nos descobrirmos e, a partir daí, empregarmos nossas virtudes no bem comum e combate das nossas deficiências para aproveitar a oportunidade desta nova encarnação. E só com uma análise baseada na verdade e no bom senso é que poderemos tomar providências que nos ajudem. Hora do sim, sim, não, não!

Generalizou-se no movimento espírita, o que aceito em parte, que o elogio é desnecessário na análise do trabalho executado pelos obreiros da doutrina. Mas, já diz antiga trova de Lopes Filho, do livro Orvalho de Luz que “enaltecer e louvar são quais remédios terrenos que não se deve aplicar nunca demais, nem de menos”. Psicografia de Chico Xavier incluída no livro Calendário Espírita, por Espíritos Diversos.

O elogio natural, fundamentado, sem exageros, com argumentação sincera, sem bajulação, pode, por que não, servir de estímulo para quem faz o trabalho. Afinal, quantas vezes isto representa esforço de extrema dedicação do companheiro para apresentar bem a tarefa  que lhe foi confiada. Diferente do aplauso automatizado nas reuniões que muitas vezes não condiz com o trabalho feito.

Ao fazer a autoanálise aconselhada por Agostinho não devemos apenas ver defeitos,  mas também regozijar-nos com as qualidades que já incorporamos à nossa personalidade. Afinal trata-se de prêmio pelo nosso esforço de renovação e da nossa disposição para o trabalho que procuraremos fazer cada vez melhor. Só cada um, individualmente, sabe o esforço que tais conquistas exigem.

Da parte do elogiado, sem afetar-se, cabe-lhe analisar a justeza do que ouviu e se, conhecendo-se, está também de acordo. Sabemos quando vamos bem e quando vamos mal, sem que nos digam. Mas já que ouvir é estimulante, que, pelo menos, esteja de acordo com o que também pensamos e era nosso objetivo. Não se trata de tietagem como nos meios artísticos onde a alucinação coletiva muitas vezes falseia a realidade. É algo discreto, consistente e que nasce no coração de quem se sentiu atingido pela mensagem que, não raro, chega numa hora de necessidade. Podemos mudar o comportamento, os objetivos e o futuro de uma pessoa que esta vulnerável com uma frase que o atinge em certas circunstâncias ditando-lhe novos rumos de vida.  Justo que ela se sinta agradecida e entusiasmada e queira agradecer.

Conhecer-se; isto é o mais importante. O resto administre com sabedoria, sem falsa modéstia nem exagerada arrogância.

Jornal O Clarim – Março 2017

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