Walkiria Araújo – walkiria.wlac@yahoo.com.br

“A classificação dos Espíritos se baseia no grau de adiantamento deles, nas qualidades que já adquiriram e nas imperfeições de que ainda terão de despojar-se. Esta classificação, aliás, nada tem de absoluta. Apenas no seu conjunto cada categoria apresenta caráter definido. De um grau a outro a transição é insensível e, nos limites extremos, os matizes se apagam, como nos reinos da Natureza, como nas cores do arco-íris, ou, também, como nos diferentes períodos da vida do homem. Podem, pois, formar-se maior ou menor número de classes, conforme o ponto de vista donde se considere a questão. Dá-se aqui o que se dá com todos os sistemas de classificação científica, que podem ser mais ou menos completos, mais ou menos racionais, mais ou menos cômodos para a inteligência. Sejam, porém, quais forem, em nada alteram as bases da ciência.” (Livro dos Espíritos, questão 100)

Uma das grandes belezas da Doutrina Espírita é a justiça que podemos encontrar na sua explicação sobre a Lei Divina. Não existem favoritos na criação, somos mensurados por aquilo que fizemos de bom, por aquilo que deixamos de fazer ou pelo mal que executamos. Mais ainda, não estamos de forma perpétua em nenhuma classificação. O sairmos de uma fase e acendermos a outra depende somente de nós.

O processo de reabilitação moral constitui-se meta obrigatória da criatura humana. Etapa primeira e principal que norteia todas as outras durante a encarnação. Não podemos nos furtar desta mole que nos impulsiona e que nos coloca definitivamente no processo de evolução. O ser humano saiu do primarismo e ruma a angelitude. Foi-nos apresentado um Céu e um Inferno, de deleites (o primeiro) e de dores supremas e eternas (o segundo) que não estão de acordo com a amorabilidade, justiça equânime e bondade infinita de Deus para conosco.

Por isso, cabe-nos uma explicação simplificada sobre a temática Céu e Inferno. A criatura acredita-se vinculada de forma perpétua a tal ou qual classe em virtude da separação apregoada que existe um Céu e um Inferno e que as criaturas estão fadadas, após o desenlace, de acordo com o que fizeram enquanto estavam encarnadas, a irem para estes lugares e lá permanecerem. Encontramos em todas as Obras da Codificação explicação sobre o tema, mais em o livro O Céu e O Inferno, capítulos três e quatro, respectivamente, encontramos de forma didática a explicação da constituição do Céu e do Inferno segundo alguns entendem. Do empréstimo, se assim se pode dizer, das doutrinas pagãs, houve a junção dos castigos impostos e de todas estas crenças, criou-se o inferno como nos foi apresentado.

Seria insano imaginar que Deus, soberanamente justo e bom degredaria a criatura humana a uma situação eterna sem condição de remição, se nós permitimos que o outro que nos agride tenha essa remição, mesmo sendo criaturas imperfeitas e estando ainda neste processo de evolução. Ultrapassado este ponto, fica a questão: Mas a própria criatura pode escolher não evoluir? No Livro dos Espíritos, na questão cento e dezoito, falando sobre a degenerescência da criatura humana, os Insignes Mestres da Humanidade falam-nos na última frase que a criatura pode permanecer estacionária, mas não retrograda. A maioria se apega somente a esta frase e esquece-se do que lhe antecede na explicação: “… à medida que avançam, compreendem o que os distanciava da perfeição. Concluindo uma prova, o Espírito fica com a ciência que daí lhe veio e não a esquece. Pode permanecer estacionário, mas não retrograda.”

Quando avançamos em algo não há o que se falar em retroceder. Quando conhecemos a felicidade, mesmo que seja em forma de esboço, não há o que se falar em não querer fazer parte dela. O que ocorre é que em virtude dos sofrimentos, mágoas, tristezas e tantos outros males que nos atordoam os passos da caminhada, ficamos hipnotizados (sendo este o princípio da obsessão) por um fato, uma situação, por autossugestão ou por outra pessoa e esquecemo-nos de todo o resto. Pelo tempo que estamos vivenciando tal fato, acreditamo-nos estacionados naquela situação. Alguns, inclusive acabam por acreditar que estão vivendo eternamente aquele momento.

Mas sabemos que a ideia de eternidade é perene. Na sequência das questões do referido livro, encontramos uma bela explicação de Kardec sobre o que os espíritos entendem acerca da palavra eternidade, questão cento e vinte e cinco: “… [ eternidade é] a ideia que os Espíritos inferiores fazem da perpetuidade de seus sofrimentos, cujo termo não lhes é dado ver, ideia que revive todas as vezes que sucumbem numa prova.” Então, a ideia de ficar-se estacionado eternamente, cai por terra, inclusive, porque a criatura mesmo tendo adormecido alguns dos valores morais já adquiridos não deixa de evoluir intelectualmente. Não existe esta criatura que durma e acorde da mesma forma. Sempre aprendemos algo, mesmo que afirmemos que não.

O Céu de delícias e contemplação também se afigura como fruto da imaginação daqueles que buscam saciar o lado infantil: viver sem sofrer, agir sem precisarem vincular-se as consequências de seus atos. O descanso após o trabalho é algo desejado por todos nós. Quando falamos de uma encarnação composta de sucessos e desaires, a criatura deseja um período no qual possa recobrar suas forças, pensamento este natural. Mas alguns, sendo esta uma das razões que a ideia antiga do céu ainda perdura no imaginário popular, acreditam que exista este Céu de delícias esperando após o desenlace físico e que ele será coroado com um mundo de prazeres ou a contemplação eterna do Criador.

Nem uma coisa nem outra nos espera. O processo evolutivo se ocorre nos dois planos. Não deixamos de evoluir. Nem o Céu, nem o Inferno. Somente o trabalho e o estudo para a solidificação do homem novo.

Tribuna Espírita – Janeiro/Fevereiro 2017

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