Walkiria Araújo – walkiria.wlac@yahoo.com.br

O ódio aprisiona aquele que o mantém em relação a quem lhe padece a injunção penosa. Sendo recíproco, torna-se cadeia cruel para ambos. Caso, no entanto, algum dos envolvidos na situação perturbadora consiga superar os sentimentos doentios, evidentemente sairá dessa cela escura planando em outro espaço de claridade e vida. E isso se dá mediante o resgate pelo amor ao seu próximo, àquele mesmo a quem feriu, impensadamente ou não, procurando reabilitar-se. Deus sempre faculta ao livre-arbítrio do ser a melhor maneira de reparar os erros, impondo-lhe, quando a falência de propósitos e atos se faz amiúde, recursos mais vigorosos que são ao mesmo tempo terapêuticos para o Espírito rebelde.” (Livro Jesus e o Evangelho a Luz da Psicologia Profunda, cap. 11 – Reconciliação)

O tema o ódio e as suas complicações durante a encarnação ou após é tratado no Evangelho Segundo o Espiritismo, em todo seu capitulo XII, Amai os Vossos Inimigos, em especial no item dez. Também encontramos explicação no livro O Céu e o Inferno, Segunda Parte, a partir do capítulo quatro.

Fomos educados a não sentirmos ódio dos outros. Sendo que o mais correto seria sermos educados a não nutrirmos o ódio. Pois, quando este sentimento encontra guarita em nossos corações sentimo-nos criaturas impuras. Idéia atávica provinda de outras religiões. A negação de algo não significa que não o sintamos. Representa muito mais um processo infantil de nossa parte de não enxergarmos o problema para não termos que resolver. Então, qual deve ser a nossa atitude quando nos virmos nutrindo e embalando esse sentimento, associando ainda, com o ressentimento e a mágoa?

Antes de mergulharmos no entendimento que a doutrina nos traz, lembremos que o ódio nos traz marcas profundas. Marcas físicas (os desarranjos orgânicos, os infartos, as gastrites, as úlceras, as enxaquecas e várias outras doenças fomentadas), marcas emocionais (tendo a ansiedade como um exemplo) e marcas psicológicas (transtornos fóbicos, transtorno obsessivo compulsivo, transtorno bipolar, transtorno alimentar, entre outros). Sem falar das marcas espirituais, que são as obsessões. Tais marcas nos acompanham no pós-desencarne e dependendo da incrustação mental ocasionadas por elas gerarão mossas nas futuras encarnações.

Joanna de Ângelis nos traz uma bela explicação no livro Jesus e o Evangelho a Luz da Psicologia Profunda, texto que encabeça este artigo. Verifiquemos que a proposta trazida pela nobre mentora é uma modificação do olhar nosso perante a situação. Atribuindo-lhe num primeiro momento o devido valor que o fato ocorrido tem, para depois podermos trabalhar interiormente o sentimento, não permitindo que a incrustação mental se enraíze, para que depois, não tenhamos que fazer o processo de depuração através dos mecanismos já conhecidos da doença. Pois não nos enganemos: a doença surge da necessidade de reajuste com a Lei Divina, mais antes é o melhor mecanismo educador que possuímos, colocando-nos no rumo correto da redenção interior, fazendo com que a criatura possa transladar do primata ao anjo.

Avançando um pouco mais e nesse momento trazendo a luz da doutrina a nos clarear o entendimento verificamos que fogo não se combate fogo. O que combate fogo é água. Sendo que no nosso caso, é a água da paz, do amor e do entendimento. Processo esse que começa por nós mesmos. Pois uma mente em desalinho não consegue raciocinar com equilíbrio. Por isso, a misericórdia divina nos proporciona o afastamento, ora momentâneo, durante a encarnação; ora por um período mais longo, entre encarnações.

Mas alguns optam por não aproveitarem este período de afastamento para que haja a diluição do sentimento ódio e permitirem que outros sentimentos floresçam, através de novas experiências. Ficam em busca daqueles que foram seus algozes durante a encarnação e tornam-se verdadeiros sicários do mundo espiritual. Cobrando o que acreditam ter o direito de cobrar, esquecendo-se de que um dia também foram algoz de outro e se não o foram estão tornando-se agora.

Um dos livros mais emblemáticos que trata do assunto intitula-se Libertação, de autoria espiritual de André Luiz, psicografado por Chico Xavier. Existem outros da lavra de Manoel Philomeno de Miranda e outros autores espirituais. Resolvemos por bem destacar o primeiro em virtude dele nos apresentar um espírito extremamente endurecido, o qual vivia nas regiões mantidas pelos nossos pensamentos em desalinho, mostrando-nos também a influenciação perniciosa entre criaturas que se querem bem (pois nem todas as relações afins são com finalidades benéficas), mas que estão vinculadas pela vingança e por fim, como o arrependimento é o primeiro e mais importante passo para a libertação.

Quando odiamos, nos imantamos do veneno que é o ódio, sorvemos a grandes goladas e retardamos os nossos passos colocando o foco das nossas energias em algo já vivido. É brasa quente: mesmo depois que soltamos, ela continua a produzir suas consequências. Se não usarmos os efeitos da cânfora do amor e do perdão para aliviar e cicatrizar a ferida a brasa continuará a nos machucar mesmo não estando mais em nossas mãos.

O processo é antes de substituição do que de retirada. Substituirmos o ódio pelo amor, pela benevolência, pela caridade. Quanto mais amamos menos ódio sentimos dos nossos semelhantes. Somos dínamos pulsantes que produzimos ininterruptamente. Quando passamos a colocar a máquina da nossa existência produzindo algo de bom vamos depurando as engrenagens da encarnação e nos candidatando a condições melhores durante a encarnação. Fazendo a nossa própria separação do joio e do trigo, modificamo-nos interiormente, modificando o nosso campo mental e as nossas atitudes.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – março 2017

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