Walkiria Araújo – walkiria.wlac@yahoo.com.br

“Também os fariseus vieram ter com ele para o tentarem e lhe disseram: Será permitido a um homem despedir sua mulher, por qualquer motivo? Ele respondeu: Não lestes que aquele que criou o homem desde o princípio os criou macho e fêmea e disse: Por esta razão, o homem deixará seu pai e sua mãe e se ligará à sua mulher e não farão os dois senão uma só carne? – Assim, já não serão duas, mas uma só carne. Não separe, pois, o homem o que Deus juntou. Mas, por que então, retrucaram eles, ordenava Moisés que o marido desse à sua mulher um escrito de separação e a despedisse? – Jesus respondeu: Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés permitiu despedísseis vossas mulheres; mas, no começo, não foi assim. – Por isso eu vos declaro que aquele que despede sua mulher, a não ser em caso de adultério, e desposa outra, comete adultério; e que aquele que desposa a mulher que outro despediu também comete adultério.” (S. MATEUS, cap. XIX, vv. 3 a 9.)

O princípio do respeito mútuo rege as relações sociais. Quando falamos da relação conjugal deveremos elevar este respeito à solidariedade fraternal que une os seres e faz-nos sair da nossa zona de conforto, dispondo-nos a adicionarmos vida na vida de outras vidas e sermos unidade com o outro.

Numa sociedade em que o poliamor[1] é difundido temos explicação em O Livro dos Espíritos (questão 701) que este tipo de fenômeno representa sensualidade, não uma afeição real. Consequentemente as criaturas acabam por não respeitarem-se. Fazendo uma análise desprovida de qualquer cunho religioso, verificaremos que sempre alguém estará em desvantagem, por exemplo, neste tipo de relação. Mas como tudo promana de nós, primeiro precisamos aprender a nos respeitar. Não podemos exigir do outro aquilo que não sentimos por nós mesmos. Numa sociedade que nos convida a sermos iguais a todo mundo mesmo que isto signifique perdermos a nossa identidade, passamos mais a vivermos as experiências que os outros entendem como sendo boas para nós, mas não a que entendemos que são boas segundo o nosso entendimento evolutivo.

Trazemos impressões bem marcadas de outras encarnações. Isto é o que faz, mesmo em tenra idade, fazermos algumas escolhas que os adultos que não compreendem a Doutrina Espírita acreditarem que estão diante de fatos fora do comum, mas que a reencarnação muito bem nos explica. Além dessas impressões trazidas de outras encarnações, temos no nosso núcleo familiar uma gama de exemplos trazidos pelos adultos que nos circundam. Estes exemplos falam de amor ou da falta dele; de respeito ou da falta dele, enfim, de como as relações familiares se estabelecem. Pensadores da área informam que não existe meio-termo: ou replicamos o mesmo comportamento vivenciado por anos no nosso núcleo familiar ou procuramos o oposto como forma de transgredir.

Assim, ainda imaturos para a vida a dois nos vemos compartilhando na sociedade e com a sociedade nossas experiências. Queremos ser aceitos, mas principalmente queremos ser amados. De acordo com o que trazemos de outras encarnações, somado ao que nos foi apresentado e como acolhemos estes exemplos delineamos aquele que será o (a) nosso (a) companheiro (a) de jornada. Em várias ocasiões, acabam por debulhar na criatura as frustrações e não procuram apascentar as emoções substituindo o turbilhão que ainda vive em si pelo companheirismo e a camaradagem esperados de um relacionamento maduro e equilibrado. Passado o alvoroço hormonal da paixão, ficarão o respeito e a admiração entre as criaturas.

Em tudo na vida há necessidade de investimento. Investirmos em nós para podermos bem investir no outro. Se quisermos paz, precisamos ser um agente de paz. Se quisermos amor, precisamos emanar amor. Se quisermos respeito, precisamos nos respeitar em primeiro lugar. É um processo recíproco desenvolvido entre as criaturas para que possamos através de uma experiência, a princípio, a dois, nos tornarmos uno para depois multiplicarmos este amor e nos tornarmos três, quatro, cinco e quantos mais se agregarem ao núcleo principal.

Entendemos que nas obras clássicas da Doutrina Espírita estão entabulados vários casos de reajuste através do casamento, mas a experiência nos mostra que os desajustes atuais vinculam-se muito mais ao egoísmo de parte a parte desta encarnação, onde ninguém quer ceder para não perder o terreno conquistado. Um relacionamento amoroso constitui-se na união de duas criaturas que se enxergam em meio a tantas outras e que decidem compartilhar a vida juntos.

É um processo de adequação, renúncia, entendimento, abdicação e de muito aprendizado. Se realmente nos dedicarmos, teremos conquistado um (a) parceiro (a) de vida espiritual que estará conosco nas próximas encarnações, sobre outra roupagem, mais nos ladeando a caminhada. Mas como bem transcrito na passagem de Mateus, se o que une as criaturas for o interesse e o respeito não encontra mais moradia é preferível que as criaturas desfaçam os laços físicos, pois os laços espirituais já foram rompidos a tempos ou talvez nunca foram estabelecidos.

O casamento é uma proposta de vida, mas que realmente precisamos estar amadurecidos para dar tal passo. Da mesma maneira que possuímos sentimos e que queremos ser respeitados devemos respeito o outro. Mesmo que clamem ao nosso redor dizendo que podemos fazer isto ou aquilo porque somos livres, lembremos sempre: somos livres, mas temos responsabilidade plena sobre os nossos atos. Que a solidariedade fraternal seja o ápice buscado na relação conjugal, para que, mesmo que tudo escassei, que a solidariedade nos conduza a conduta íntima.

[1] Tipo de relacionamento simultâneo entre três ou mais pessoas ao mesmo tempo e com o conhecimento de todos.

Jornal O Clarim – março 2017