Octávio Caúmo Serrano

O que se vê de doutor em Espiritismo que nunca estudou nada é uma festa!

Se alguém lhe perguntar sobre assuntos referentes à espiritualidade ele sempre terá uma tese pronta e sobre a qual discorrerá como um especialista. Fala de reencarnação, de carmas, de ação e reação, de morte e vida, de enterro e cremação. Para tudo ele tem uma resposta irretocável. Quase uma lei.

Este último item, por exemplo, a cremação. Pergunta-se a um e ele diz que não tem problema. Como disse Sócrates aos discípulos: “O corpo? Joguem fora. Eu lá não estarei.”  Mas se perguntarmos a outro, ele desaconselha totalmente porque se o espírito não estiver totalmente desapegado da matéria irá sofrer as dores das queimaduras! Recomendam, atribuindo a Chico Xavier a orientação, que se esperem setenta e duas horas antes de queimar o corpo.

Por que setenta e duas horas se há espíritos desencarnados há décadas ainda apegados ao corpo e ao mundo material? Nem sabem que estão mortos. O diagnóstico seguro da separação do espírito do corpo só poderá ser dado se houver um vidente que garanta o desligamento total. Mas nessa hipótese, é uma questão de confiar ou não no médium consultado. Setenta e duas horas parecem realmente interessantes, mas para confirmar que o falecido está morto mesmo e não em letargia, como Lázaro de Betânia, amigo de Jesus; o irmão de Marta e Maria. Muitos corpos, quando da exumação para colocar seus restos em ossuários, estavam virados de bruços evidenciando que o morto se movimentou debaixo da terra. Se não o houvessem enterrado rapidamente talvez teria despertado. Ou seja, para confirmar a morte do corpo, mas não que o espírito já se tenha desligado. Para isso nenhum prazo é seguro. O desapego só se dá quando o encarnado trata o mundo material com desprendimento.

Sabe-se que o ato de sepultar pessoas faz parte das tradições, a ponto de um imperador muçulmano megalomaníaco  de nome Shah Jahan construir um monumento, que está entre as sete maravilhas do planeta, para servir de túmulo à sua esposa Mumtaz Mahal que faleceu ao dar a luz seu 14º filho,  nos anos 1600; o Taj Mahal, em Agra, na Índia. O mesmo se deu com as campas dos judeus, os Patriarcas e suas esposas, com as pirâmides egípcias, para servir de morada eterna para os faraós; isso se repete em todas as raças e religiões. A maioria das famílias tem jazigos próprios para seus mortos.

O poder econômico também tem grande influência sobre essa prática, porque o lucro com o morto é permanente. Nos finados as velas e as flores triplicam de preço, mas as pessoas consideram um menosprezo visitar sua campa sem levar-lhe uma oferenda. Nunca se deram flores em vida, mas não querem repetir o descaso.

Os túmulos buscam expressar a importância social do morto e demandam cara manutenção, Mesmo os cemitérios modernos, onde a padronização prevalece, custa caro para manter o jardim viçoso, já que essas campas só tem uma pedra com nomes e datas, encravada num gramado. Sem mencionar os cultos que devem ser feitos no 7º, 30º e 365º dias, e ser repetido todo ano. Simbologia da boa lembrança que, geralmente, não acontece durante todo o ano.

Enquanto faltam terrenos para a construção de casas para os vivos e ruas para desafogar o trânsito, enormes áreas são desperdiçadas com as mortalhas, inclusive de muitos que nunca tiveram um lar enquanto estavam entre nós. Terrenos bem localizados, em áreas centrais das grandes cidades, usados como necrópoles, servindo de ostentação para classes privilegiadas e oferecendo oportunidade para bandidos roubarem metais e outras utilidades, depenando os túmulos. Locais abandonados durante todo o ano, com mato tomando conta dos monumentos. Ninguém pensa neles antes de novembro de cada ano. Nesse mês, roçam, pintam, enfeitam! E o morto nem mora lá…

Nossos mortos devem ter sua campa no nosso coração, se é que em verdade nos amamos em vida.  Caso contrário, esquecê-los, perdoá-los ou pedir perdão é o melhor a fazer e deixar que a Lei da vida decida sobre um eventual reencontro, desde que possa ser útil às partes envolvidas. Como novo tempo de aprendizado, sem a ideia de maldade, porque Deus não castiga ninguém. Só nos dá novas oportunidades de crescimento espiritual. Reencarnar é um dos mais expressivos gestos de misericórdia com que o Pai Celeste nos contempla. Acreditemos ou não!

Quem desejar dar lições de Espiritismo primeiramente esclareça-se na doutrina para não falar tolices e orientar mal as pessoas. Não é assunto para quem frequenta uma reunião por semana para ouvir palestra e, como quem vai à missa, acredita-se espírita. Quem não estuda o Espiritismo não é espírita; é mero simpatizante. Não deve ensinar o que não sabe.

Neste abril comemora-se 160 anos do lançamento de O Livro dos Espíritos. Agradeçamos a Allan Kardec pelo extraordinário presente que deu à humanidade organizando a mensagem dos Espíritos. Um dia o mundo será novamente dividido: Antes e depois do Espiritismo! E a humanidade estará liberta!

Tribuna Espírita março/abril 2017

 

Anúncios