Rie_06_2017

Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

Que utilidade têm as orientações dos Espíritos?

“Uma vez que Jesus ensinou as verdadeiras Leis de Deus, qual a utilidade dos ensinamentos dados pelos Espíritos? Eles têm algo a mais a ensinar-nos?” Isto foi perguntado na questão 627 de O Livro dos Espíritos.

Considerando-se que o Espiritismo é o cristianismo redivivo, o que significa ressuscitado ou remoçado, fica claro que as lições de Jesus foram adulteradas ao longo do tempo, a ponto de o maior mandamento – “ama Deus sobre todas as coisas e o próximo como a ti mesmo” – ter praticamente desaparecido do seio da humanidade, especialmente onde deveria estar mais preservado que é no meio religioso.

Com sua conhecida educação e prudência, Kardec diz que os espíritos deviam esclarecer-nos por que Jesus falava por alegorias. Não quis dizer que o mercantilismo das doutrinas separa os homens porque cada uma enfatiza que apenas os seguidores da sua igreja terão a salvação. A intenção é afastar a concorrência. Quem não aceita Jesus na versão deles não ganha o Céu. E essa salvação passa pelas doações que criam privilégios segundo a generosidade das ofertas. Melhoram até o faturamento das empresas dos que mais colaboram.

A Doutrina Espírita, que Kardec catalogou no capítulo I de O Evangelho Segundo o Espiritismo como a terceira revelação, vem no momento certo em que o Evangelho de Jesus nada mais tem do original divulgado pelo Cristo. Os crentes se separaram indo cada um para um lado e é por isso que hoje há uma inflação de seitas que nascem a cada dia, com nomes esdrúxulos até, porque as tendinhas passaram a ser um comércio lucrativo. Amor ao próximo? Não dá lucro; melhor amor-próprio ou amor a si próprio.

A Doutrina ditada pelos espíritos nos quatro cantos da Terra e organizada pelo professor francês Rivail, posteriormente conhecido como Allan Kardec, traz de novo a pureza do cristianismo nascente dos tempos de Pedro, Paulo, João, Thiago, Madalena e demais seguidores dos primeiros séculos. Ela descarta os rituais, os paramentos, os altares e enfeites dourados dos templos e forma núcleos semelhantes à Casa do Caminho, ornamentados de singeleza. A beleza está no serviço prestado gratuitamente, acolhendo pessoas de todas as doutrinas que desejam esclarecer-se na pureza do Evangelho e não na sociedade religiosa elitizada, onde encontramos templos que selecionam seus frequentadores pela posição social que ocupam na comunidade. Colunáveis da Terra!

A desculpa que mais se ouve na explanação do Evangelho é que a alegoria das lições de Jesus, quando se servia de parábolas, dificulta o entendimento das orientações do Cristo. Todavia, quando ele recomendou que amássemos o próximo como amamos a nós mesmos ou que fizéssemos ao outro exatamente o que gostaríamos que o outro nos fizesse, não o fez de forma alegórica, mas clara e direta. E é exatamente aí onde mais nos afastamos do cristianismo. Quem não for da nossa igreja é nosso inimigo.

Observemos que mesmo nas parábolas interpretativas há enunciados que não deixam dúvidas. A do bom samaritano, por exemplo, fala da indiferença do sacerdote e do levita, religiosos da elite judaica, e do socorro prestado pelo herege samaritano que apenas via naquele homem – que não conhecia nem sabia seu nome – o seu próximo. Ele disse que um homem descia de Jerusalém para Jericó; não um rei, um judeu, um rico; simplesmente um homem.

A vinda do Espiritismo como revelação posterior a Moisés e Jesus obedece a uma sequência lógica, pois se Jesus completou, ratificou, mas também corrigiu orientações de Moisés, porque eram de um tempo ido, assim o Espiritismo veio restaurar as lições originais pregadas por Jesus e adulteradas ao longo dos séculos. Repetindo: não por falta de entendimento, mas propositadamente para tirar proveito da confusão que as próprias doutrinas estabeleceram. Tudo é para a casa de Deus. Carros, casas, cheques, dinheiro, cartões de crédito. Certamente depositados no Banco da Divindade.

O Espiritismo fala numa linguagem sem rodeios, direta e que cabe na razão das pessoas menos cultas da mesma forma como pode ser entendida pelos doutores. Podemos alegar que não acreditamos ou não estamos dispostos ao rigor da reforma íntima. Mas jamais que não entendemos. Emmanuel, no livro O Consolador, pergunta 210, diz que o Espiritismo não precisa dos intelectuais da Terra, mas que eles é que devem encontrar suporte no Espiritismo para mais bem executar o seu progresso. Assim como fez Jesus que convocou seu apostolado entre homens simples; pescadores, publicanos etc.. Não buscou os doutores do Templo de Jerusalém, porque eles nada entendiam do reino que estava sendo anunciado. A conversa com Nicodemos é uma comprovação.

Há uma prece, a Oração da Sabedoria, que diz: “Dá-me, Senhor, inteligência para entender, não as coisas difíceis e fáceis de ser compreendidas, mas as coisas mais simples e tão difíceis de ser entendidas!” Por isso quando perguntaram a Emmanuel o que era a Bíblia, ele responde: “A Bíblia é o amor…”. E replicaram: “Mas por que ela é tão grande?” E o guia do Chico respondeu: “Para explicar o amor! Do amor, nem defini-lo sabemos.”

Esperamos ter deixado claro que os espíritos tinham de vir para restaurar o que os homens destruíram. Com o Espiritismo só é enganado quem quer ou é um crédulo imprevidente buscando levar vantagem.

  • RIE – Revista Internacional de Espiritismo – junho de 2017
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