Octávio Caúmo Serrano

“A quem mais é dado, mais é pedido.”

Não há dúvida que o trabalhador espírita, que estuda a doutrina, tem conhecimento sobre a vida e suas implicações maior do que o comum das pessoas. Saber da Lei da Reencarnação o conscientiza de que os percalços do cotidiano são lições para novos aprendizados ou consequências de atos praticados no passado, recente ou remoto, que exigem uma revisão para que o fracasso anterior seja agora mais bem entendido e não se repita. A reencarnação não nos devolve à vida material para nos punir, mas para nos dar uma nova oportunidade. É a maior misericórdia com que Deus nos presenteia!

Com base nesse conhecimento, é certo que a resignação diante da dificuldade é mais evidente no espírita convicto, um terreno mais bem preparado. Ele aceita sem revolta as dificuldades e não se sente abandonado ou castigado por Deus. Conhecedor da lei de causa e efeito sabe que colhemos o que plantamos. Toda ação gera uma reação de igual intensidade. Não ignoremos, porém, que o lado humano tem ainda grande influência mesmo no espírita mais equilibrado e todos nós estamos sujeitos a um tempo da queda vibratória. Há vezes que o fardo pesa demais nos ombros ainda pouco calejados. Mesmo sabendo e aceitando, dói e sucumbimos. O espírita não tem imunidade total contra a dor e o sofrimento. Cai, às vezes, também!

O que acontece nessas horas? Com o compromisso moral de ser forte, há os que não se atrevem a confessar suas dificuldades, mesmo porque correm o risco de ser censurados e até afastados de suas tarefas na casa onde colaboram, sob a alegação de que estão com perturbação espiritual, o que não se pode aceitar num espírita. Nessa hora, ficamos a sós com o nosso sofrimento, abandonados até pelos parceiros de doutrina que quase nunca percebem as dores alheias. Sentem que estamos doentes, mas não se prontificam a nos ajudar. Somos, inclusive, vítimas de preconceito. Como quer dar-se ao próximo se não consegue nem cuidar-se.

Nos nossos agrupamentos as pessoas pouco se conhecem. Mal sabem o prenome do colega. O José, a Maria, a Sílvia, o Alberto. De quê?  Qual o sobrenome? Em que trabalha? Onde mora? Quantos filhos? Por quais dificuldades econômicas ou enfermidades passa? Às vezes ficamos sabendo de problemas de um companheiro tarde demais e geralmente não temos o cuidado e a atenção de fazer-lhe sequer uma visita ou dar-lhe uma ajuda, financeira ou psicológica. Oferecer-nos para conversar para que o outro desabafe, dividindo conosco um pouco do fardo que já está pesando demais.

Isso ocorre mais que supomos, em todos os agrupamentos espíritas. Por isso defendemos, há mais de quarenta anos, que os centros (especialmente os maiores, com muitos trabalhadores) deveriam ter um dia para atendimento dos que colaboram no grupo, sem que tenham necessidade de socorrer-se de outras casas, por abandono ou vergonha de expor suas fraquezas, preocupados com o julgamento não fraterno e até censuras que receberão por confessar suas dificuldades. Obrigam-no a ter uma força que ainda não adquiriu.  Isso os leva amiúde a buscar consultas com médicos analistas ou socorrer-se de outros centros onde não são conhecidos.

Seria importante que os núcleos avaliassem como estão tratando seus “irmãos”.  Como vai o “amor ao próximo como a si mesmo”, na sua Instituição.  Veja como agem onde você participa. Quem sabe pode alertar seus dirigentes que, se não forem radicais e insensíveis, talvez aceitem pelo menos pensar no assunto e verificar se não estão mesmo deixando em plano secundário o atendimento aos que são, mais diretamente, os pilares do núcleo; os colaboradores mais diretos.

A caridade deve começar em casa. No centro está a nossa família espiritual. Ou deveria estar. Se não encontramos suporte ali, melhor procurar um local onde alguém nos dê atenção nas horas de provação. “Os sãos não precisam de médico”, já ensinou nosso querido Jesus!

Jornal O Clarim – junho de 2017

 

 

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