Walkiria Araújo – walkirialucia.wlac@outlook.com 

“(…) É justo que os filhos cooperem com os pais, embora saibamos que os mais jovens de hoje serão os mais velhos de amanhã tanto quanto os maduros de agora, desempenharão, muito em breve o papel de jovens no futuro. Tudo é sequência na Lei.”. (Emannuel – Reformador, julho/76 – 22/04/1951)

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) a etapa das nossas vidas denominada velhice começa aos 65 anos. Verificando-se a população eminentemente ativa atual e levando-se em consideração os facilitadores ambientais, farmacêuticos e alimentares, podemos afirmar, sem titubearmos, que mesmo os que atingem esta idade, conseguem fazê-lo em bem melhores condições que os nossos antepassados.

Agregando-se as condições já citadas, a parte religiosa, a criatura tem grande ganho de qualidade de vida. Não estamos nos atendo aos trabalhos vinculados a costura ou distribuição de donativos como via na minha infância. Hoje, os idosos trabalham em outras frentes nas Instituições Espíritas. Aplicam passes, trabalham nas Reuniões Mediúnicas, fazem palestras e tantos outros trabalhos que existam. São figuras participativas na sociedade e na religião que promanam, no nosso caso, a Espírita.

Adendo necessário faz-se com relação aos extremos. Neste caso, o problema não se vincula a idade, mas a inabilidade para a execução do trabalho ou quando a criatura está sim adequada a fazê-lo, mas os mais jovens querem “poupá-los (as)” a título de ajuda que não o é. Vemos que pode haver uma interação salutar entre os mais jovens e os mais velhos quando os envolvidos desejam. Problema se estabelece entre os ditos adultos e mais velhos, quando os primeiros não sabem lidar com os mais velhos ou quando os mais velhos (inabilmente) tentam impor suas convicções, por serem mais velhos. Vemos o Mundo, mesmo que lentamente, mudar de comportamento. Os países estão “envelhecendo” e antes esta parte da população morria, ou era colocada em asilos, ou mais ainda, convivia com a família sem direito a manifestar-se, pois estava “velho (a)”. Hoje, Empresas contratam pessoas que já eram consideradas velhas para o mercado de trabalho, mas que agora estão sendo consideradas como experientes e agregadoras de valor.

Nós do movimento espírita, precisamos também enxergar os mais velhos desta forma. Somar a sabedoria do mais velho com a energia do mais novo para que ambos saiamos enriquecidos dessa experiência. Todos nós temos dificuldade de abrirmos espaço para que o outro cresça, mas quando podemos usar de nossa experiência para facilitarmos o crescimento do próximo e ainda o fazemos em detrimento da doutrina, ganhamos triplamente: crescemos como criaturas, porque nos tornamos úteis; ajudamos no amadurecimento bem orientado do semelhante e contribuímos com o bem comum e propagação da Doutrina. É uma via de mão dupla. Ceder espaço não significa perder espaço, mas multiplicar força de trabalho, perpetuando o bem comum.

Outro ponto a ser levantado é que não somos descartáveis. Principalmente nós, do movimento espírita não podemos pensar dessa forma. Sabemos que o espírito é eterno, que vivemos etapas da vida através das reencarnações, então, todo este processo de infância, fase adulta, velhice e desencarne cumpre o processo normal e natural da evolução. Vivenciando em cada uma dessas fases o necessário aprendizado para evolução. Como então furtar da criatura o que lhe é devido por direito? E nós, que também estamos no movimento e não atingimos a idade madura, vamos querer ser convidados a condição de frequentadores da instituição, sendo ressaltado que já demos o nosso contributo a doutrina?

Quando a primeira edição de O Livro dos Espíritos foi publicada, Kardec contava 53 anos. Para os padrões da época, ele era idoso. Imaginemos se ele tivesse se acomodado e acreditado que não tinha condições de realizar o trabalho? Provavelmente teríamos esperado um pouco mais para que outro realizasse o trabalho que ele fez. Este é outro ponto importante a ser destacado: nunca é tarde para começarmos a realização de nenhum trabalho. Se, em virtude de várias circunstâncias na encarnação, a criatura só pode se dedicar ao trabalho na idade mais madura que as Instituições Espíritas também estejam preparadas para receber este público que nos bate a porta e nos solicita trabalho.

A religião como função de religare faz-nos não só nos religarmos com Deus ou suas Leis, mas coloca-nos na condição de religação com o nosso próximo. Não há lugar melhor para exercermos esta função e praticarmos a caridade do que numa Instituição Espírita. É gratificante podermos trocar experiências e também sermos uma fonte alimentadora de energia e vigor para aqueles que estão mais a frente na caminhada carnal. Da parte dos mais velhos, compreender a dificuldade de permanecer fiel a um ideal por tanto tempo, mesmo com tantos convites ao contrário, como família, trabalho e tantas outras propostas que são feitas ao longo da caminhada e da parte dos mais jovens, compreender que mesmo num meio atualmente tão convidativo para quebra de regras e valores morais há uma busca tão grande pelos jovens nas Casas Espíritas, um desejo de entendimento sobre o mundo espiritual, sobre reencarnação e sobre o porvir.

Por fim, gostaria de acrescentar, que ainda não atingi a idade madura nesta encarnação, então não estou advogando em causa própria. Mas entendo que quando nos abrimos ao saber, abrimos uma janela nova para o auto-conhecimento. Permitimo-nos ter experiências enriquecedoras. As minhas melhores oportunidades de aprendizado no Movimento Espírita foram por mãos que contavam mais de 65 anos e aproveito este artigo para lhes agradecer a todos. No atual momento que vivemos sabemos que alguém já trilhou a estrada antes de nós e mesmo que não tenha pego em nossa mão e nos ensinado o caminho a seguir, através do seu próprio caminhar foi indicando o caminho a seguir. Como o Mestre Jesus fez e ainda faz por nós. Que sejamos nós também uma seta viva a indicar o caminho para aqueles que vem após nós.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – junho 2017

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