Walkiria Araújo – walkirialucia.wlac@outlook.com 

“Tendo Jesus entrado em Jericó, passava pela cidade – e havia ali um homem chamado Zaqueu, chefe dos publicanos e muito rico, – o qual, desejoso de ver a Jesus, para conhecê-lo, não o conseguia devido à multidão, por ser ele de estatura muito baixa. – Por isso, correu á frente da turba e subiu a um sicômoro, para o ver, porquanto ele tinha de passar por ali. – Chegando a esse lugar, Jesus dirigiu para o alto o olhar e, vendo-o, disse-lhe: Zaqueu, dá-te pressa em descer, porquanto preciso que me hospedes hoje em tua casa. – Zaqueu desceu imediatamente e o recebeu jubiloso. Vendo isso, todos murmuravam, a dizer: Ele foi hospedar-se em casa de um homem de má vida. Entretanto, Zaqueu, pondo-se diante do Senhor, lhe disse: Senhor, dou a metade dos meus bens aos pobres e, se causei dano a alguém, seja no que for, indenizo-o com quatro tantos. Ao que Jesus lhe disse: Esta casa recebeu hoje a salvação, porque também este é filho de Abraão; visto que o Filho do Homem veio para procurar e salvar o que estava perdido.”. (LUCAS, cap. XIX, vv. 1 a 10.)

Humberto de Campos, através da psicografia abençoada do venerando Chico Xavier, nos brindou no Livro Boa Nova, capítulo 23, intitulado O Servo Bom, com uma bela explicação sobre esta passagem retratada em Lucas, a qual nos faz refletir sobre a singularidade da palavra servo e como realmente nos candidatamos a categoria de bons com relação à Lei Divina. Valeremos-nos da referida obra e do nosso próprio entendimento para tecermos alguns comentários.

A ida de Jesus a Jericó não se constituía obra do acaso. Como nada no apostolado do Mestre. Jesus foi com o propósito de encontrar Zaqueu. Chefe dos publicanos, grande influenciador da coletividade. Além de recolher tributos (situação que já o colocava em malquerença com o grupo) também lhe era atribuído o enriquecimento ilícito. Tinha conhecimento das Leis, o que lhe faltava era ter a centelha Divina do Amor acesa novamente em seu coração. O passar do tempo provocou-lhe um vazio existencial que não é preenchido pelo conhecimento, haveres, ou qualquer outra coisa, pois falta-nos o entendimento do Divino em nós.

Sabendo que Jesus passaria por Jericó, Zaqueu, que era de estatura baixa, procurou subir numa árvore que também não era alta (sicômoro). Podemos fazer uma analogia a nossa condição atual. Não possuímos grande elevação moral, ainda somos espíritos em evolução, fazendo parte das primeiras faixas evolutivas (baixos) comparados com os nossos tutelados espirituais, como Jesus, por exemplo, e através das boas ações, das preces, da boa leitura alteramos a nossa vibração (subimos na escala vibracional, na árvore) para conseguirmos ter contato com os do mais alto.

Nesse momento coisa ímpar ocorre, Jesus não só enxerga Zaqueu, mais vai ao encontro dele. Pede que ele desça, pois necessitava da sua hospitalidade e companhia, conforme relata Humberto de Campos. Assemelha-se a forma como os amigos espirituais agem conosco. Quando nos elevamos mentalmente e estabelecemos este contato salutar, os que se apresentam, envolvem-nos em ondas de paz e amor e solicitam-nos a hospitalidade de tarefeiros, empreendedores do bem e que sejamos companheiros destes abnegados espirituais na tarefa de construção da caridade. Elevamo-nos ao mais alto grau quando sedemos a casa mental e o corpo físico para execução das tarefas mediúnicas.

É tão belo e significativo este momento que o Mestre dá o braço a Zaqueu, semelhante ao que ocorre conosco pelo Anjo da Guarda que nos sustenta, ampara e nos encaminha, ouvindo-nos as aflições, os desejos e os petitórios. Nós espíritas, independente do tempo que estejamos estudando e trabalhando no movimento espírita, vivenciamos durante a encarnação momentos de escolhas e por vezes derrapamos pelo despenhadeiro do egoísmo, do orgulho e de outros vícios. Alguns se sentem envergonhados de voltar, esquecendo-se que a própria Doutrina explica-nos que a vida é um eterno recomeço e que não precisamos esperar outra encarnação para recomeçarmos e tomarmos boas resoluções. Outros conhecem a Doutrina bem mais a frente na encarnação. Alegam então, que não poderão fazer a tão famosa “reforma íntima”, pois já erraram muito. Como se tivéssemos um prazo para começar e que se não começarmos naquele prazo teremos obrigatoriamente de fazê-lo na próxima encarnação.

Jesus então nos se apresenta Zaqueu. Alguém que poderia se contentar com a condição que estava. Mas não. Ele procura modificar a condição íntima, entendendo que o contato com Jesus representava a pedra definitiva na construção desta nova obra na construção da sua vida. Já era tocado pela mensagem, pois praticava a caridade, tratava os seus servos com deferência e procurava agir de forma gentil com todos que lhe procuravam. Faltava-lhe o algo mais que só a presença de Jesus poderia provocar em sua vida: o contato com o Amor. Ao contato desse Amor ele modifica. Reconhece os erros de passado, não os enxerga como empecilhos e mesmo diante dos comentários desairosos dos Apóstolos ele se compromete com a mudança e a perseverar nesta mudança.

Sabia que a sua riqueza adquirida, em parte, de forma ilítica, representava um entrave ao processo de mudança e semelhante a nós que reconhecemos o nosso erro e depois queremos reparar, ele também o fez, assumindo compromisso público, como era costume na época. Além disso, resolveu compartilhar parte do que tinha com os pobres. Não é assim que também nós, que abraçamos os trabalhos no movimento espírita fazemos, damos e doamo-nos parte, inclusive de nossas vidas, de nossos lazeres, para podermos ajudar aqueles que necessitam mais que nós?

Por isso, que Jesus após trazer a Parábola dos Talentos para bem ilustrar o movimento de mudança de Zaqueu, afirma: “Bem-aventurado sejas tu, servo bom e fiel!” 

Jornal O Clarim – junho de 2017