Octávio Caúmo Serrano

Qual a tarefa mais importante para o colaborador do Centro?

Vamos recapitular como foi a chegada ao Espiritismo da maioria de nós. Embora hoje seja mais comum, ainda são poucos os nascidos em lares espíritas e, mesmo entre esses, nem todos se sentem inspirados a buscar a doutrina porque os espíritas da casa não são bons propagandistas do Espiritismo; não têm conduta condizente com a que deve ter um praticante dessa doutrina.

Vamos imaginar, prioritariamente, uma pessoa que tenha problemas e decida buscar um centro espírita para aconselhar-se, equilibrar-se ou curar-se. Foi convencida por um amigo ou pesquisou e crê que seria uma boa opção para se livrar do problema. Passa pelo atendimento fraterno (uma orientação espiritual), desabafa com o entrevistador, é aconselhado a receber uma série de passes, ouve palestras e, se fizer sentido, participa dos estudos e cursos que a casa oferece. A grande maioria está satisfeita com essa rotina e comporta-se como o que vai à missa católica ou ao culto protestante. Faz-se presente, reza, contribui e já cumpriu tudo o que lhe cabia junto à sua religião. Todavia, há sempre alguns que se sensibilizam com o trabalho do centro, gratuito e fraterno, e sentem vontade de dar sua colaboração.

Que trabalho eles podem fazer? A resposta é: – Muitos. Tudo depende da capacidade, instrução, vivência, conhecimento e experiência doutrinária, porque há serviços acessíveis a todos, mas nem todos podem fazer tudo. Nem sempre o participante tem capacidade para a oratória e consequente divulgação do Evangelho ou do Espiritismo; nem pode ser um entrevistador porque para isso precisa, além da doutrina, alguma experiência da vida e habilidade para o correto aconselhamento.

Mas há outros serviços acessíveis a quase todos. Por exemplo, os passes que precisam de pessoas que abram o coração e deixem jorrar amor; o de distribuidor de mensagem ou recepcionista que dá as boas vindas e assessora o visitante dentro da casa; o que ajuda na limpeza; o que abre e fecha o Centro, se encarrega de ligar e desligar luzes, ventiladores, ar, microfones, etc.; e tantos outros, conforme o tipo de organização. Há em muitas casas a assistência material. Enxovais, sopas, etc. Todos são trabalhos igualmente importantes quando feitos de coração.

Há pessoas dispostas a se deixar ensinar e há outras que são preocupadas com a perfeição, o que os faz recuar quando convocados a algum serviço que não dominam ou quando censuradas por ter executado algo em desacordo com as normas da casa e da própria doutrina espírita. Pedir-lhes para que façam simples prece de abertura ou encerramento da reunião, por exemplo, pode afugentá-las.

Quando convocamos alguém para o trabalho e ele diz que não sabe fazer, informamos que é esse o trabalho que ele deve executar; para aprender. Se apenas repetirmos o que sabemos trazido de outras vidas, sairemos daqui sem acrescentar-nos em nada. Portanto, devemos dar prioridade aos trabalhos que não sabemos fazer; para aprender.

O importante, no entanto, é fazermos da nossa vida particular um prolongamento da nossa atuação religiosa, porque muitos de nós somos especialistas no Espiritismo prático, mas poucos praticamos a essência espírita. Falamos, mas não somos; ensinamos, mas não aprendemos! E, no entanto, segundo Emmanuel a mais importante tarefa do homem na Terra é sua própria iluminação. Corrigir antes a si próprio do que os outros.

Esta recomendação do mentor do Chico encontra eco no próprio Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo VIII. No item 9, quando o fariseu observou que Jesus não lavou as mãos antes de comer, o Cristo lendo o pensamento dele, comentou: “Agora vos outros, os fariseus, limpais o que está por fora do corpo e do prato, mas o vosso interior está cheio de roubo e de maldade. Insensatos, quem fez tudo o que está de fora não fez também o que está dentro?” – Lucas XI-37/40.

No item 10, Kardec diz que os judeus haviam negligenciado os verdadeiros mandamentos de Deus. Preocupavam-se com o sábado, as mãos lavadas, as oferendas e orações quilométricas no templo, mas continuavam como eram sem modificar-se. Por isso disse o Cristo: “É em vão que esse povo me honra com os lábios, ensinando máximas e mandamentos dos homens.”

Ainda no item 10, Kardec afirma que o mesmo acontece com a doutrina moral do Cristo que acabou por ser deixada num segundo plano, o que fez com que muitos cristãos, à semelhança dos judeus, creiam que a salvação está mais assegurada pelas práticas exteriores do que pela moral. O homem não chega a Deus enquanto não se fizer perfeito.

Se observarmos bem este trecho que já tem vinte séculos, veremos que permanece atual e se aplica a todos os religiosos modernos, inclusive a nós espíritas, lamentavelmente. Somos muitas vezes presunçosos por conhecer de ectoplasma, perispírito, vampirismo, materialização e esquecemos que damos pouca atenção ao amor ao próximo, especialmente quando se trata de aceitar suas limitações. E o mandamento que nos aconselha amar o próximo como a nós mesmos não estabelece ressalvas; não diz desde que o próximo seja seu amigo, seu parente ou da sua religião.

Na parábola do Bom Samaritano Jesus mostrou que a ação em favor do bem é mais importante que o rótulo da doutrina que abraçamos. Oremos e vigiemos!

Tribuna Espírita – maio/junho 2017

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