Walkiria Araújo – walkirialucia.wlac@outlook.com

“Então, os escribas e os fariseus lhe trouxeram uma mulher que fora surpreendida em adultério e, pondo-a de pé no meio do povo, – disseram a Jesus: ‘Mestre, esta mulher acaba de ser surpreendida em adultério; – ora, Moisés, pela lei, ordena que se lapidem as adúlteras. Qual sobre isso a tua opinião?’- Diziam isto para o tentarem e terem de que o acusar. Jesus, porém, abaixando-se, entrou a escrever na terra com o dedo. – Como continuassem a interrogá-lo, ele se levantou e disse: ‘Aquele dentre vós que estiver sem pecado, atire a primeira pedra.’ – Em seguida, abaixando-se de novo, continuou a escrever no chão. – Quanto aos que o interrogavam, esses, ouvindo-o falar daquele modo, se retiraram, um após outro, afastando-se primeiro os velhos. Ficou, pois, Jesus a sós com a mulher, colocada no meio da praça. Então, levantando-se, perguntou-lhe Jesus: ‘Mulher, onde estão os que te acusaram? Ninguém te condenou?’ – Ela respondeu: ‘Não, Senhor. Disse-lhe Jesus: ‘Também eu não te condenarei. Vai-te e de futuro não tornes a pecar.’” (S. JOÃO, cap. VIII, vv. 3 a 11.)

Os Escribas eram os intérpretes da Lei de Moisés e se colocavam em oposição aos Fariseus, estes por sua vez estavam mais preocupados com a forma do que com o conteúdo da Lei, eram orgulhosos e possuíam ânsia de dominação. Compilação da explicação detalhada contida no Evangelho Segundo o Espiritismo, Introdução.

Então estas criaturas que se aferravam a proposta da aplicação da Lei, mas não na verificavam em plenitude com relação a si mesmos, trouxeram a presença do Mestre Jesus a figura da mulher. Junto com os escravos e as crianças, as mulheres eram tidas, à época, como criaturas de somenos importância. Queriam dessa forma, corroborar esta ideia e colocar “em cheque” a postura de Jesus com relação aos costumes vigentes.

Assim, resolveriam dois problemas, situação semelhante ao que ocorreu a insígnia de César na moeda. Afirmaram que a mulher fora surpreendida em adultério, mas em nenhum momento trouxeram a presença do grupo aquele que adulterou junto com ela. Adulterar traz em um dos seus significados a terminologia “corromper”. Mas nós podemos nos corromper ou corromper ao outro, levando intencionalmente ao vício ou ao erro. Por isso, se a mulher ali estava presente, aquele que adulterou com ela também deveria estar.

O primeiro movimento do Mestre após a inquisição que ora se procede é de “abaixar-se”. Movimento extremamente significativo, representando este momento de mergulho interior que deveremos fazer quando somos convidados a nos pronunciarmos sobre qualquer fato. Primeiro revisitando nosso valores mais superficiais (os sociais), após os religiosos e familiares e quando alcançamos um grau de maturidade mais elevado, como que de insight o nosso passado espiritual.

Após estes momentos de reflexão que todos deveríamos fazer, o Mestre escrevinha alguma coisa no chão e levanta-se. Processo análogo acontece conosco depois destes momentos de reflexão. Não será mais o calor das emoções que nortearão o nosso falar, mas a riqueza de experiências e conhecimentos que possuímos. Muitas vezes é necessário termos experienciando algo ou pelo menos alguém a quem amamos ter experienciando para podermos fazer o justo valor sobre algo. Porque se ficarmos na superficialidade da situação tenderemos a analisar as coisas ou como Escribas, muito conhecedores da Lei, mas pouco experienciados; ou como os Fariseus, que quem muitos momentos até já vivenciamos o ocorrido, mas nos é conveniente esquecer e preferimos jogar pecha no nosso semelhante tirando de nós o foco do olhar alheio.

E termo singular Ele diz: “Aquele que estiver sem pecado, atire a primeira pedra.” Neste momento, Jesus novamente abaixa-se e como alguns ainda persistiam em ignorar a própria consciência, ele escrevinhar, no chão, palavras significativas: ladrão, avaro, déspota, etc. As pessoas começam a sair. Sendo os mais velhos primeiro. Entendendo os mais velhos neste trecho como os mais experientes, os mais vividos. Neste momento, acabam por deixar Jesus e a mulher sozinhos. Porque nenhum de nós está livre de experiências desairosas. O que nos falta é fazer ao outro o que desejamos para nós. Agir com a mesma misericórdia e condescendência que desejamos ser tratados. Sendo diferente de conivência.

Tanto é verdade que quando Jesus se vê a sós com a mulher utiliza-se desse momento para educá-la nos princípios da verdadeira caridade, mas também nos princípios da responsabilidade perante a assunção de seus atos. Após Jesus levantar-se pergunta se ninguém a havia condenado, como era o costume. Ela afirma que não. Jesus encerra a lição dizendo que Ele não a condenaria. Sendo para nós o modelo mais perfeito que Deus nos conferiu, poderia Ele neste momento, já que estava a sós com ela proceder a um julgamento moral, mas Ele não o faz, pois sabe que todos somos regidos pelo Tribunal da Consciência.

Encerra a conversa com uma afirmação: “Vai-te e de futuro não tornes a pecar.” Não é porque erramos (pecamos) uma vez que deveremos permanecer no erro. A escolha é sempre nossa, corrigir o roteiro ou permanecermos errados. A orientação sempre nos será dada, a motivação e o retorno à estrada do bem pertence ao nosso direito de escolha, ao nosso livre arbítrio. Mesmo sabendo que poderia aproveitar o momento e fazer uma reprimenda a mulher, Jesus aproveita a oportunidade para mostrar o caminho, para indicar-lhe que sempre temos alternativas em nossas vidas, basta querermos enxergar.

Tribuna Espírita – maio/junho 2017

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