Walkiria Araújo – walkirialucia.wlac@outlook.com

“Os sentimentos do homem, nas suas próprias idéias apaixonadas, se dirigidos para o bem, produziriam sempre, em consequência, os mais substanciosos frutos para a obra de Deus. Em quase toda parte, porém, desenvolvem-se ao contrário, impedindo a concretização dos propósitos divinos, com respeito à redenção das criaturas. …Todos os sentimentos que nos foram conferidos por Deus são sagrados. Constituem o ouro e a prata de nossa herança, mas como assevera o apóstolo, deixamos que as dádivas se enferrujassem, no transcurso do tempo. Faz-se necessário trabalhemos, afanosamente, por eliminar a ‘ferrugem’ que nos atacou os tesouros do espírito. Para isso, é indispensável compreendamos no Evangelho a história da renúncia perfeita e do perdão sem obstáculos, a fim de que estejamos caminhando, verdadeiramente, ao encontro do Cristo.”. (Livro Caminho, Verdade e Vida, cap. 24 – O Tesouro Enferrujado)

Tudo que há em nós, existe com uma utilidade. Necessário é darmos o direcionamento correto. Assim o é com relação aos sentimentos. Ao lermos tão bela passagem do Livro Caminho, Verdade e Vida não poderíamos deixar de fazer analogia com o capítulo 7, de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Em especial, itens 11 e 12 que tratam do Orgulho e da Humildade.

Somos criaturas ricas de sentimentos, mas que vivemos de forma apaixonada. Ao falarmos de orgulho e humildade, estamos falando em síntese, do processo de transformação moral que a criatura candidata-se todos os dias, a todos os momentos, de forma incansável. O processo para adquirirmos uma virtude é lento, gradual e persistente.

Conta-se que Santo Antonio queria torna-se Santo. Para isso, recolheu-se e começou um processo intensivo para conseguir tal intento. O Diabo sabendo disso resolveu tentá-lo das mais variadas formas. Fazendo por vinte anos. Ao cabo desse período, o Diabo desistiu, pois não obteve sucesso em nenhuma de suas investidas. Vendo isso, Santo Antonio se ajoelha e diz: Obrigado, meu Deus! Agora eu sou Santo! Nisso, o Diabo que já estava indo embora, volta-se e fala: agora eu tenho acesso a ele.

É uma história pueril, mas que serve para ilustrar o nosso processo de renovação interior, a reforma íntima. É um exercício diário que precisamos fazer. Quantos companheiros de lide espírita acreditam-se imunes as investidas dos seres desavisados que praticam o mal porque já resistiram a “X” investidas ou porque já são espíritas há “Y” anos?. Aquele que tenta não desiste, a nós, cabe a persistência no bem. “281. Por que os Espíritos inferiores se comprazem em nos induzir ao mal? ‘Pelo despeito que lhes causa o não terem merecido estar entre os bons. O desejo que neles predomina é o de impedirem, quanto possam, que os Espíritos ainda inexperientes alcancem o supremo bem. Querem que os outros experimentem o que eles próprios experimentam. Isto não se dá também entre vós outros?’” (Livro dos Espíritos)

A reforma íntima é uma das terminologias mais repetidas no movimento espírita, mas talvez não seja muito explicada. Esse processo de se reformar intimamente passa pela construção de uma criatura nova utilizando-se do material já existente (quem somos,experiências adquiridas, progresso realizado), mas dando um novo direcionando, empregando a mesma energia, sendo que de outra forma. Por isso que Emmanuel na mensagem transcrita acima fala do Tesouro Enferrujado, pois em si, somos criaturas ricas, somos a própria riqueza que precisamos nos descobrir. Tirar a ferrugem e fazer resplandecer o Cristo interno, em nós. A reforma íntima serve para educar e dar o sentido certo. Por isso, precisamos viver num constante estado de vigilância, mas não perdendo o bom-humor. Para que não sejamos máquinas e sim conhecedores de nós mesmos, reconhecendo nossas virtudes (pois será nelas que iremos encontrar forças para prosseguir) e defeitos (com os quais precisaremos do bisturi da razão e da paciência para corrigi-los).

O Evangelho no já referido capítulo sobre O Orgulho e A Humildade nos traz a seguinte passagem: “Todos vós que dos homens sofreis injustiças, sede indulgentes para as faltas dos vossos irmãos, ponderando que também vós não vos achais isentos de culpas; é isso caridade, mas é igualmente humildade. Se sofreis pelas calúnias, abaixai a cabeça sob essa prova. Que vos importam as calúnias do mundo? Se é puro o vosso proceder, não pode Deus vo-las compensar? Suportar com coragem as humilhações dos homens é ser humilde e reconhecer que somente Deus é grande e poderoso.”

Todos aqueles que já vivenciamos o processo da calúnia sabemos o quão doloroso é, principalmente quando resvala em procedimentos judiciais. Mas quem não foi injustiçado? O que precisamos analisar é o quanto de importância daremos ao fato e por quanto tempo daremos importância ao fato. Depois, deveremos usar os óculos da ponderação do conhecimento espírita que já possuímos. Com a calma que só tempo produz em nós, transportamo-nos para fora da situação e olhamos com os olhos do macrocosmo que só o contato com a verdade nos produz.

Verificaremos que o que está nos incomodando não é a calúnia ou a injustiça em si, mas o orgulho ferido. Entendendo que não somos dados jogados ao acaso, que estamos encarnados com a finalidade de evoluirmos e dos nos reajustarmos com a Lei Divina, aquietar-nos-emos e compreenderemos que sim, é sinal de humildade ultrapassar este pórtico e caminharemos firmes, resolutos, rumo a Jesus. Jesus há mais de dois mil anos trouxe-nos uma mensagem de renovação, de reconstrução, de reencarnação. E convida-nos a fazermos este movimento em nós mesmos.

Haverá dias que tenderemos ao desânimo. Que acreditaremos que não iremos conseguir. Mas lembremo-nos sempre de outra passagem também contida no Evangelho: “Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar as suas inclinações más.”(Cap. XVII, item 4). Esforcemos-nos sempre pela construção de um mundo novo, lembrando que esta construção começa com homens reconstruídos e renovados em si mesmos.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – julho 2017

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