RIE_Agosto_2017

O que a história não conta ou os homens desconhecem.

Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

No deserto da Judeia começaram a ser preparados os caminhos para a grande visita de Jesus de Nazaré. Vivendo no mosteiro do Qum Ran, próximo ao Mar Morto, e em outros espalhados pela Palestina, os Essênios viviam com sobriedade e fraternidade. Assistiam a todos, independentemente de crença, cor, raça ou parentesco. Tratavam qualquer um como irmão. Mais tarde, essa foi a máxima de Jesus quando nos recomendou: “Ama o próximo como a ti mesmo.” E para esclarecer o que devemos entender por próximo, explicou a Nicodemos, o doutor da lei judaica, com a parábola do Bom Samaritano. Disse que um homem seguia de Jerusalém para Jericó, descendo por uma pequena serra, cheia de salteadores, sem fazer menção quanto ao nome ou posição social do viajante. Apenas esclareceu que os religiosos (sacerdote e levita) não se preocuparam em prestar socorro ao infeliz; foi um discriminado herege da Samaria que o ajudou, deixando claro que não é o rótulo da crença que mede nosso verdadeiro valor no campo da caridade.

Entre os mistérios sobre Jesus inclui-se o desconhecimento sobre sua vida dos 13 aos 30 anos. Uns dizem que Ele saiu do país e outros que viveu entre os Essênios. Como não há registros históricos oficiais, tudo fica no campo da especulação e o que nos resta é analisar, pelo bom senso, o que poderia ser verdade.

A semelhança da vida dos Essênios com o que pregou Jesus é grande, o que nos leva a crer que, pelo menos, houve da parte de Jesus contato com eles. Gratz afirma que João Batista, “a voz que clamava do deserto aplainando os caminhos do Senhor”, era essênio. Que essa comunidade era formada por pessoas diferentes não resta dúvida. O rei da Prússia, escrevendo a Voltaire, afirma: “Jesus foi um Essênio.” Os costumes também eram semelhantes; a reunião dos Essênios nas refeições lembra a ceia final que Jesus teve com seus apóstolos.

Escritores acreditados da época, como Filon de Alexandria, falou dos Essênios: “Eles são como santos que habitam em muitas aldeias e vilas da Palestina. Unem-se por associações voluntárias mais do que por laços de família. Querem melhor praticar a virtude e o amor entre as criaturas; nas suas casas não há grito ou tumulto; quando um fala os outros ouvem respeitosamente; é um silêncio que causa grande impressão ao visitante. Moderam a cólera e sustentam a paz. O que dizem vale por um juramento porque, afirmavam, só precisa jurar quem é mentiroso.” Edmund Wilson, jornalista do periódico The New York Times, em série de reportagens sobre os documentos encontrados em 1947 no Mar Morto, escreve: “O Convento, esse prédio de pedras junto às águas amargas do Mar Morto, com seu forno, tinteiros, piscinas sacras e túmulos, é, talvez mais do que Belém e Nazaré o berço do cristianismo.”

Os princípios de vida dos Essênios eram os mesmos pregados por Jesus: amor ao próximo, vida simples e desapego aos bens materiais. Nos fins de semana estudavam as escrituras e o mais preparado explicava para os demais tudo o que não fora entendido devido à simbologia das lições. Como fazia Jesus quando se reunia com seus discípulos em Cafarnaum, na casa da sogra de Pedro, para explicar as belezas do reino dos Céus. Mas os Essênios exigiam que os instrutores fossem igualmente superiores nos costumes e nos exemplos. O poder do instrutor independe de preparação cultural. Assim, se não for capaz de ensinar exemplificando, qualquer leigo pode desempenhar as suas funções. (grifo nosso!)

Por isso, Hempel em 1951 escreveu: “Esclarecida a origem dos cristãos. O cristianismo é apenas essênio. Essênio ou cristão dá no mesmo.” Ainda agora, quando o Espiritismo está entre nós, vemos as orientações da espiritualidade superior confirmando os princípios essênios de fazer o bem sem olhar a quem. Mostrando que tudo é velho e tudo se renova com a evolução do entendimento.

Sem pretender inventar novidades, recomendamos que as pessoas leiam sobre a vida dessa comunidade que viveu afastada da opulência e dos conflitos políticos e religiosos de Jerusalém, recolhendo-se na região inóspita do deserto da Judeia junto à lendária cidade de Jericó, a mais antiga da Terra entre as que têm mais de dez mil anos. Berço do publicano regenerado, o nosso estimado Zaqueu, que assim como Madalena, a certa altura da vida, estava inconformado com a maneira como vivia; sentindo um vazio existencial, sobe num sicômoro (árvore da região) para ver Jesus que visitava a sua cidade e orientar-se com Ele sobre o que fazer para redimir-se de erros que acreditava ter cometido. É um momento raro que acontece na vida de todos nós e é preciso estar atento na hora desse chamamento. E se tivermos a sinceridade de Zaqueu não precisamos buscar o Cristo nos templos, porque ele nos visitará na nossa própria casa como fez com aquele homem, proporcionando-lhe extrema felicidade. Para que Jesus entre na nossa vida basta abrir-lhe a porta do nosso coração. Uma porta que só se abre de dentro para fora.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – agosto de 2017

Anúncios