RIE_setembro_2017

É primavera. Cuidemos de nossos filhos; sementes, flores e frutos da nossa árvore.

Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

Educar filhos é uma das missões mais difíceis. Nenhuma novidade, não é?

Meu pai era um homem de um metro e sessenta que virou pedreiro depois de ser dispensado de uma indústria de tecidos em São Carlos (SP), onde foi promovido a supervisor, mas não pôde assumir o cargo por ser analfabeto.

Viveu pouco. Apenas cinquenta e quatro anos. Partiu em 1957 após diversos e longos períodos de enfermidades, especialmente com ulcerações de estômago. Mas, apesar dessas limitações, ao desencarnar deixou sua esposa em casa própria, construída às tardes, depois do expediente, após mais de dez anos de luta. Foi num terreno de oito por vinte e três metros, comprado em cem prestações, no Jabaquara, bairro de periferia em São Paulo. Deixou um filho de vinte e três anos (eu), formado em contabilidade, e meu irmão de dezesseis, já trabalhando e estudando. Mais tarde seria advogado. Ambos trabalhamos a partir dos dez anos sem nunca nos sentirmos vítimas da exploração infantil. Ajudamos com prazer no orçamento da família e nos transformamos em pessoas de bem, que sempre se agradaram pelo trabalho. E o pai nunca se revoltou por ser sem-terra.

Aparentemente, isso nada tem de anormal. Mas o que desejo destacar são as lições que ele, assessorado pela mãe, claro, nos deu. Nos dias atuais há didáticas para orientar na educação das crianças, com receitas para não traumatizá-las. No entanto, vemo-las cada vez mais sem educação. Por quê? Não é pergunta de fácil resposta. Todavia, a primeira que nos vem à mente é porque dizemos, mas não mostramos. Fraudamos, brigamos no lar, fumamos e tomamos alcoólicos, mas não queremos que nossos filhos sejam viciados, falsos ou violentos.

Gosto de fazer poemas e muitos dos que tenho são descrições de fragmentos da vida do meu pai, porque ele me deu grandes exemplos ao me permitir testemunhar suas atitudes diante das dificuldades. Não falava; mostrava por decisões. Nunca me deu uma tapa. Não porque eu fosse um anjo, mas porque o método que ele usava era o do exemplo e não o do discurso vazio ou da repressão pelo temor.

Observem esta incoerência.

Certa vez, vinha eu de Peruíbe, praia do litoral de São Paulo, para a Capital e enfrentei o congestionamento da velha Rodovia Pedro Taques. Lembrei-me de um amigo que fazia pregações em sua igreja e que decidiu furar essa fila transitando pelo acostamento. Como de hábito, o guarda o parou e a atitude natural era mandar o apressado retornar pela outra pista até chegar novamente ao fim da fila. Naquele dia, foi diferente, me contou ele. Conversou com o guarda e resolveu o problema. Prosseguiu viagem com a ajuda do policial que o encaixou na fila principal.

Seu filho de doze anos, que estava no banco traseiro, ao presenciar a cena, lhe perguntou: “Pai. Você não deu dinheiro ao guarda, deu?”. Antes que ele respondesse, o filho continuou: “Você, não, pai. Você que ensina aos outros o que é certo ou errado não podia ter dado dinheiro a ele.” Meu amigo confessou-me que nunca uma atitude sua lhe causou tanto arrependimento. Jamais voltou a ter a admiração do menino nos seus trabalhos de orientador. Caiu do pedestal onde o filho o colocara!

As atitudes do meu pai foram sempre o inverso. Certa vez faltou comida em casa porque o patrão não pagou no dia certo, mas ele tinha um dinheiro reservado para a prestação da bomba de poço. Quando eu lhe sugeri que naquele fim de semana usasse esse dinheiro, ele ficou muito bravo. No meu poema digo assim:

Nos meus dez anos de idade, com muita serenidade, falei-lhe usando critério. – Se acalme, pai, dá-se um jeito; o senhor é homem direito e Deus protege quem é sério. – Afinal, lá na gaveta, daquela cômoda preta, o senhor tem reservado o valor da prestação, da bomba do seu João; pague alguns dias atrasados…

– Esse dinheiro não é meu, bravo meu pai respondeu, inda que eu coma capim; e não me faça careta, depois que vai pra gaveta, já não mais pertence a mim!

Fiquei todo embevecido, vendo o gigante ferido! Meu olho ainda mareja… Que lição naquele dia, Deus do Céu, Virgem Maria!… Sua bênção pai, onde esteja!

Já aos sete anos, quando lhe apresentei o primeiro boletim para lhe falar das minhas notas (todas ótimas), ele olhou e me devolveu. “Muito bem, sempre que desejar me fale do seu boletim, mas não é obrigado a fazê-lo. Você estuda pra você, você não estuda pra mim. Portanto, cabe a você cuidar do seu boletim!” Digam se não é sabedoria! Teve a confiança de colocar nos ombros de uma criança a noção de responsabilidade. Nunca trai meu pai, envergonhando-o de qualquer maneira. Foi meu amigo e maior fã.

O que falta nestes dias são exemplos de conduta. Menos vícios, menos brigas, menos desleixos, menos ganância e vaidade; menos leviandades. Pregando uma coisa e vivendo o inverso. Lembram-se da conhecida passagem do telefone?

O pai explicava ao filho que era feio mentir. O aparelho toca e o menino atende. – Pai, é pra você; o tio João. – Fala que eu não estou!…

Lá se foi o belo tratado sobre a mentira levado pela enxurrada. Não temos de dizer ao filho o que queremos que ele faça. É preciso mostrar em nós o que desejamos que ele seja. Poucos fazemos isso, infelizmente… Penso que reside aí o nosso maior insucesso como educadores. A tarefa é difícil. Mas nossa culpa também é grande.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – setembro 2017

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