Walkiria Araújo – walkirialucia.wlac@outlook.com

“Aprendestes que foi dito: “Amareis o vosso próximo e odiareis os vossos inimigos.” Eu, porém, vos digo: “Amai os vossos inimigos; fazei o bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos perseguem e caluniam, a fim de serdes filhos do vosso Pai que está nos céus e que faz se levante o Sol para os bons e para os maus e que chova sobre os justos e os injustos. – Porque, se só amardes os que vos amam, qual será a vossa recompensa? Não procedem assim também os publicanos? Se apenas os vossos irmãos saudardes, que é o que com isso fazeis mais do que os outros? Não fazem outro tanto os pagãos?” (MATEUS, cap. V, vv. 43 a 47.)

Ao analisarmos a transitoriedade da vida em decorrência da certeza da imortalidade da alma, começamos por ver quão perene é o alicerce que mantem determinados pontos de vista que permeiam e orientam o comportamento humano. A sociedade avança em tecnologia, conhecimento do microcosmo, mas ainda temos dificuldade em conhecermos a nós mesmos. Mais ainda, diante do conhecimento adquirido pela Doutrina Espírita, colocar em prática e promovermo-nos uma mudança de atitude.

Ponto importante e primeiro a ser destacado nesta temática é que os homens não somos superiores a Lei Divina. O momento presente não é maior do que a toda a eternidade. Os homens agimos de acordo com a nossa própria vontade e a Providência Divina restabelece a ordem. Temos a Lei Divina a nos coordenar os atos. Temos o Espiritismo a nos conduzir os passos. Temos a fé em Deus a nos manter firmes e de pé.

O que ocorre conosco, não diferente do que ocorre com a maioria que não abraça o pensamento espírita como norma de conduta, é que passamos mais a observar o que estamos vivendo do que a eternidade da vida. Seria equivalente ao viajante que precisasse fazer várias paradas até chegar ao seu destino e esquece-se do destino, acreditando que a viagem era somente os momentos de parada para reabastecimento, mudança de roupa e descoberta de novas diretrizes para chegar ao local desejado. Aqueles que viajam com constância sabem que acontecem atropelos durante o percurso, mas que o nosso desejo é tão grande em chegarmos ao objetivo visado que damos menos importância aos contratempos. Assim também deveria ser a nossa visão com relação à viagem carnal rumo a perfeição.

Desta falta de foco com relação ao destino visado, nossa fé titubeia e deixamo-nos tomar pelo desespero. Acreditando que o momento presente é único e superdimensionamos os problemas. Nem sempre a dor representa um resgate, para sairmos de um ponto e chegarmos a outro precisamos superar desafios, os quais irão nos proporcionar oportunidades de aprendizado, inclusive e principalmente no campo dos sentimentos, gerando dor sim, mas que essa dor significa à readequação de uma fase a outra.

A questão 887 de O Livro dos Espíritos, nos traz o seguinte com relação a questão de Amor aos Inimigos: “Jesus também disse: Amai mesmo os vossos inimigos. Ora, o amor aos inimigos não será contrário às nossas tendências naturais e a inimizade não provirá de uma falta de simpatia entre os Espíritos? ‘Certo ninguém pode votar aos seus inimigos um amor terno e apaixonado. Não foi isso que Jesus entendeu de dizer. Amar os inimigos é perdoar-lhes e lhes retribuir o mal com o bem. O que assim procede se torna superior aos seus inimigos, ao passo que abaixo deles se coloca, se procura tomar vingança.’”

Jesus veio nos apresentar uma nova ordem de ideias. Provocou uma verdadeira revolução moral na sociedade. Não nos é vedada a defesa contra nenhum ataque, principalmente aqueles que possam colocar a nossa segurança em risco. Entendendo aqui segurança física e emocional. Mas o que não podemos é nos vingar. Essa informação fica destacada na explicação da questão.

O perdão do mal que nos é feito transita pelo entendimento da vida futura, consequentemente, certeza da eternidade da vida. Assim, desenvolveremos a fé em nós. Tomemos como exemplo Maria de Nazaré. Diante de toda a injustiça sofrida por Jesus, vemos um coração de mãe sem revolta. Apaziguado pela certeza da vida eterna, pois após a morte do corpo físico Ele reaparece e prova sem sombra de dúvidas que a vida é eterna e que Ele ainda vivia.

Ter fé diante das agruras da vida não significa não sofrer. Ter fé é uma postura de vida. É sairmos da inércia emocional e nos projetarmos para a vida, sem medo do que irá nos acontecer. Fazendo ao outro aquilo que nos foi ofertado pelo Mestre Jesus e por todos os seus emissários do bem. Almas anônimas que convivem conosco, muitas vezes no recesso do nosso lar e que estão ao nosso lado diante dos sofrimentos. Não enxergando as paradas obrigatórias durante a viagem, enxergando o ponto final e agradecendo aos companheiros de viagem a ajuda ofertada.

Amor aos Inimigos ultrapassa a barreira do agora. Alguns desses inimigos não conseguiremos amar num momento, numa encarnação. Mas precisamos observar onde queremos chegar e quais as bagagens que queremos carregar. Quanto mais ódio, revolta e desejo de vingança, mais teremos malas difíceis de carregar. Amor aos Inimigos representa não nos revoltarmos diante do instrumento que nos fere. Diferente de qualquer objeto inanimado, estas criaturas possuem livre arbítrio. Com isso, vivenciarão as consequências de seus atos.

Diferente do desejo que nos impera neste momento, que o outro deixe de existir para que deixemos de sofrer, lembremo-nos do Mestre Jesus nas suas orientações a Pedro: Ele vai viver. Todos vivemos. Hoje vivemos as consequências do que plantamos, aqueles que servem de instrumento viverão no momento oportuno as consequências do fazem. Assim tudo se encadeia na Lei. Assim, a Providência Divina estabelece a ordem. Que a nossa viagem durante esta encarnação seja permeada pelos apriscos da brisa suave do bem que nos envolve. Olhemos pela janela, observemos a paisagem e num golpe de vista, nos vejamos no local do objetivo visado. Tudo passa. Tudo passa.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – Setembro 2017

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