Octávio Caumo Serrano            dia a dia

Muito justo que aprendamos, repitamos e reverenciemos os ensinamentos que nos legaram os vultos da história. Políticos, religiosos, filósofos, cientistas, poetas, jornalistas e de outros seguimentos, que nos deixaram lições para facilitar-nos o curso da vida.

Experimentadores expertos empregaram sua vida em pesquisas, ocupados com soluções que seriam úteis para que o mundo fosse melhor. Daí, profetas e enviados de Deus, destacadamente o nosso Venerável Jesus Cristo, esqueceram-se de si mesmos para amar o próximo e aconselhar-nos a prudência, o bom senso, fornecendo-nos regras para simplificar nossa caminhada, a fim de amainar-nos o sofrimento.

Mas, diz o povo, que há dois tipos de tolos: Os que acreditam em tudo e os que não acreditam em nada. Quando não entendemos ou não concordamos com alguma opinião ou diretriz que nos é proposta, é sabedoria deixar em banho-maria até que tenhamos condições para decidir com bom senso. Não devemos negar sem fundamento o que não conhecermos, mas não podemos também crer de maneira irracional em tudo o que nos digam, especialmente quando provém de pessoas supostamente importantes.

É comum alguém ser chamado de “vaquinha de presépio”, que balança a cabeça sempre aprovando, ou maria-vai-com-as-outras, porque aceitam como verdade tudo o que lhe dizem. Se um religioso lhe disser que basta ir à igreja dele, aceitar Jesus e oferecer o dízimo para livrar-se dos “pecados” ele, crédulo, confia sem raciocinar, embora saiba que nenhum mérito tem para libertar-se do que fez de errado. Se lhe disserem também que acendendo uma vela do seu tamanho conseguirá a graça que procura ou penitenciando-se com o flagelo de uma caminhada de joelhos em solo pedregoso, ele crê que Deus vai se agradar com isso e premiá-lo com a felicidade que busca.

Ainda atendo-nos à religião, vamos encontrar em O Livro dos Espíritos uma questão interessante: A de número 623. Depois de nos dizer que a Lei de Deus está inscrita na consciência (621) e que de vez em quando Deus envia Espíritos Superiores para orientar as pessoas, foi perguntado se “os que pretenderam instruir os homens na Lei de Deus, às vezes não se enganaram transviando-os devido a falsos princípios?” (623). A resposta é clara: “Aqueles que não foram inspirados por Deus e que se dedicaram por ambição a uma missão que não lhes cabia, certamente pode tê-los transviado. No entanto, como eram afinal homens de gênio, mesmo em meio aos erros que ensinaram, muitas vezes, se encontram grandes verdades.” Ou seja, só aceitamos os erros quando nos convém.

Isso significa que não podemos ser crentes cegos; devemos analisar tudo e reter o que é bom, segundo conselho de Paulo de Tarso. Portanto, mesmo aquele orientador que busca tirar de nós vantagens financeiras para “salvar-nos” dizem verdades que podemos aproveitar.  Se do seu discurso separarmos o joio do trigo, ficando só com o que é útil e descartando o que não faz sentido, seremos beneficiados mesmo que as palavras tenham vindo de oportunistas que procuram beneficiar-se a custa da pregação religiosa. Mas para saber que atitude tomar, temos de conhecer a verdade, porque é a verdade que nos libertará, já advertiu Jesus Cristo.

Em síntese, embora possamos seguir pensamentos já pensados, de quando em vez será interessante que tenhamos nossos próprios conceitos sobre o que nos diz respeito diretamente, porque só nós podemos saber aquilo que realmente queremos para a nossa vida. Ninguém pode vivê-la por nós, por mais bem intencionado que seja e pelos melhores conselhos que nos ofereça. Disse o Cristo, no Evangelho de Mateus, capítulo 10,  que temos que ser simples como a pomba, mas  prudentes como a serpente, porque no mundo de hoje os bons são como ovelhas no meio de lobos. Não podemos ser muito sabidos (donos da verdade) nem muito ingênuos (dizendo amém a tudo e todos).

De vez em quando, portanto, em vez de pensarmos com a cabeça dos outros tentemos pensar com a nossa.

Jornal O Clarim de outubro de 2017

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