RIE_out_2017

 

Como filhos de Deus, portamos Seu DNA.

Octavio Caumo Serrano | caumo@caumo.com

Apesar das nossas limitações como espíritos imperfeitos, que ainda precisam estagiar em mundos de provas e expiações para acelerar seu aprimoramento, na essência temos todos os ingredientes necessários para ser semelhantes ao nosso Criador. “Vós sois deuses” (João 10:34) é uma afirmativa de Jesus muito utilizada no meio espírita para gerar motivação e esperança. É acompanhada, em geral, do complemento: “podem fazer o que eu faço e muito mais…” (João 14:12).

Aprendemos que fomos criados por Deus à Sua imagem e semelhança e, portanto, temos em nós os atributos necessários para ser tratados como tal. Então por que somos ainda tão imperfeitos? Não é uma resposta fácil, mas em rápidas palavras podemos responder: somos educados para tudo, menos para sermos filhos espirituais do Criador. Ensinam-nos as ciências dos homens, sem ensinar-nos a ciência de Deus. Educam-nos para sermos espertos, doutores, bons comerciantes, tribunos, mas não nos educam para sermos corretos, honestos, respeitadores. Não fazemos cursos para aprender a desculpar – mais que isto, a perdoar –, a ter paciência – que é uma das vertentes da fé –, a não ser invejosos e ciumentos. Aprendemos a fazer caridade, mas não somos caridosos conosco; não nos conduzimos como filhos de Deus.

Ensinam-nos a ser destemidos e valentes quanto ao vigor do físico. Temos de exercitar-nos, selecionar alimentos, fazer regimes, mas pouco nos ensinam quanto à coragem que precisamos para vencer nossos defeitos morais. Recomendam-nos o amor-próprio e poucos nos falam sobre amor ao próximo; enfatizam que não devemos levar desaforo para casa, mas não nos informam que perdoar é a maneira mais fácil de ser feliz. Cuidamos com zelo e requinte da casa onde moramos, mas não damos o mesmo trato à casa mental, ao coração e à consciência que moram em nós e dos quais não podemos apartar-nos, pois nos acompanham onde quer que estejamos.

Recomendam-nos que devemos ser seletivos no trato com as amizades a fim de não nos comprometermos com pessoas de duvidosa idoneidade. Não nos ensinam, todavia, que nossos pensamentos escancaram as portas da nossa alma para que espíritos inoportunos e inconvenientes penetrem à vontade. Conforme sentimos e pensamos, elegemos o tipo de visitas que recebemos na nossa casa mental. O que determina essa ligação é a sintonia; automaticamente.

Parte da culpa cabe aos que aboliram a reencarnação das orientações de Jesus. Nós, os cristãos, voltamos a ter contato com essa verdade apenas a partir da codificação do Espiritismo, em 1857. Tivéssemos sido informados antes, com a consciência de já ter vivido algumas passagens pela Terra, certamente nosso comportamento seria outro. Quando a reencarnação for aceita e utilizada pelos homens do mundo, convictos de que tudo o que fazem reverte sobre eles mesmos, seja certo, seja errado, teremos mais cuidado com as nossas desonestidades, leviandades, agressividades e nos empenharemos em fazer o bem para galgar mais depressa planos mais agradáveis.

“Ninguém sairá daqui enquanto não pagar até o último centavo”, advertiu Jesus. Não adianta morrer e voltar para cá sem desvencilhar-se deste mundo que nos aprisiona, porque a vida futura nada terá de diferente desta contra a qual tanto reclamamos. Reencarnamos como oportunidade de melhoria. Se deixarmos o tempo passar, como se diz popularmente, a fila anda e nós ficamos parados.

Jamais alguém nos disse que o mundo material não deva ser aproveitado, inclusive nos prazeres que oferece. A vida é agradável e bela. Vejam que até a relação sexual é prazerosa. Fosse dolorida, traumática e o mundo estaria despovoado. A comida encontra nas várias partes da língua a resposta de cada paladar: doce, salgado, apimentado etc. Os olhos, além de permitir que nos orientemos na caminhada, nos permitem ver as belezas da natureza. O olfato nos dá oportunidade de sentir o aroma das flores e dos perfumes. Temos todos direito a tais prazeres. São criações do Pai, para nosso deleite.

Mas o mundo material nos oferece também certas infelicidades resultantes de passados delituosos e é nessa hora que devemos estar atentos à solidariedade. Não podemos nos sentir confortáveis diante do sofrimento alheio. Temos de minorar as dores do próximo, porque a nossa insensibilidade diante do flagelo de um irmão deixa registrado em nossa alma essa indiferença que um dia se voltará contra nós. Esta é a razão porque o número de sofredores na Terra é muito grande. Quase de forma unânime, porque mesmo os abastados têm desajustes morais e espirituais. Nunca houve tanto estresse, depressão, esquizofrenia e pessoas desajustadas tomadas por entidades obsessivas. O pânico é uma das síndromes mais comuns da atualidade.

Assemelhamo-nos às cobras que quando precisam crescer abandonam a pele velha e depois que aumentam de tamanho se revestem de uma nova casca. Matemos o homem velho e permitamos que nasça em nós o homem novo, como recomendou Jesus ao apóstolo Paulo de Tarso, enquanto ainda era Saulo, seguidor de Moisés e perseguidor dos cristãos, equivocadamente. Há quanto tempo estamos perguntando no silêncio, como Saulo na estrada de Damasco: “Que queres de mim, Senhor?” E se pudéssemos ouvir, certamente escutaríamos Cristo a nos dizer: “Quero que deixes de sofrer pela ignorância e falta de coragem para te libertares do atraso! Sofres por tua vontade, porque não é para isto que Deus te criou.”

Se tudo é apenas por um pouco, se quem nasce vai morrer e quem morre volta a nascer, por que não deixar nosso ser divino nascer imediatamente ainda nesta encarnação? Por que morrer e logo depois ter de renascer se já estamos no mundo rodeado de todos os recursos necessários para saborearmos a felicidade?

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – Outubro 2017

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