Walkiria Araújo – walkirialucia.wlac@outlook.com

“Bem-aventurados os que são brandos, porque possuirão a Terra. Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus.” (MATEUS, cap. V, vv. 4 e 9.)

O grande problema do ser humano nos dias atuais, inclusive nós espíritas, é tentarmos querer como resposta aos desmandos da vida material a ética da vida espiritual sem ter o compromisso com o certo que essa vida propõe. A vida material constitui-se de desafios com regras que valem para as situações atuais, usualmente não catalogadas como paradigmas de conduta moral. É um consenso criado entre partes que nem sempre entendem o valor do bem e da justiça.

A vida espiritual traz-nos uma abertura de entendimento e a projeção, sempre para o futuro, como resposta ao vivenciado no presente. A crença no espírito imortal nos dá um abandono das práticas irracionais vividas por aqueles que só enxergam a vida material. Então, temos duas vidas? Melhor dizendo, como estar encarnado (vida material) e termos uma conduta pautada na moral do Cristo (vida espiritual)? Mais ainda, é possível viver uma vida material com um olhar espiritual?

É possível sim e foi isso que Jesus vivenciou em seu apostolado. Mas do que parábolas, temos a presença do Cristo em nossas vidas até o presente, nos orientando os passos, moldando nossa conduta e mostrando-nos o caminho a seguir. Enquanto a vida material nos convida ao imediatismo, ao materialismo e a displicência com a conduta humana, nossa e do semelhante; a vida espiritual ou vida do espírito imortal, mostra-nos que somos herdeiros de nós mesmos. Que diante de um plantio livre (livre arbítrio) nos depararemos com uma colheita obrigatória (expiação).

Mas sermos espíritas tão somente não nos candidata a uma posição de superioridade de entendimento perante a vida. Se não introspectarmos o conhecimento espírita seremos iguais a tantos outros adeptos de outras religiões ou aos próprios ateus, que faremos referências a várias passagens de Jesus, mas adendaremos com a afirmação que nós não somos Ele. O parâmetro de conduta nos foi estabelecido e vivenciado não somente pelo Mestre Jesus. Temos outros que vivenciaram a Doutrina e nos deram o exemplo: Allan Kardec, Bezerra de Menezes, Chico Xavier, entre outros.

Estas figuras ímpares em caráter e vivência cristã nos mostraram que é possível fazer. Então, qual seria o caminho a seguir? “A dor é uma benção que Deus envia a seus eleitos; não vos aflijais, pois, quando sofrerdes; antes, bendizei de Deus onipotente que, pela dor, neste mundo, vos marcou para a glória no céu.”[1] Só é testado aquele que estudou a lição. E através das provas e expiações da vida vamo-nos fortificando e aprendendo realmente a lição. Ultrapassando a barreira do momento (vida material), projetamo-nos para o que realmente necessário é para realizarmos (vida imaterial). Assim, conseguimos avaliar melhor a situação e não nos apequenarmos diante das pedras do caminho.

A paciência faz com que não ajamos de sobressalto. Sabemos o quando é difícil quando estamos falando do sofrimento. Mas se somente reagirmos e não agirmos (proposta que a paciência nos convida), estaremos nos comportando igual aos animais irracionais, que quando atacados, atacam de volta sem racionalizar. O sofrimento diante das provas não significa fraqueza ou não entendimento do que vem a ser paciência. Antes, significa que entendemos a lição, experienciamos o fato e transformamos em aprendizado, se formos resignados.

“Sede pacientes. A paciência também é uma caridade e deveis praticar a Lei de Caridade ensinada pelo Cristo, enviado de Deus. A caridade que consiste na esmola dada aos pobres é a mais fácil de todas. Outra há, porém, muito mais penosa e, consequentemente, muito mais meritória: a de perdoarmos aos que Deus colocou em nosso caminho para serem instrumentos do nosso sofrer e para nos porem a prova a paciência.”[2]

Alguns afirmam que a Doutrina Espírita é a doutrina do sofrimento. Muito pelo contrário, ao compreendermos a imortalidade da alma, a justiça das aflições e a Lei de Causa e Efeito, deixamos de enxergar de forma restrita e passamos a ver com toda amplitude que possuímos à paternidade de Deus e a tutela de Jesus com relação a nós. Somos filhos bem-amados do Pai. Mas nenhum Pai que ama seu filho o poupará do aprendizado necessário. Até para podermos mensurar com juízo de valor o sofrimento alheio.

Mesmo quando falamos das “… mil picadas de alfinete, …, mas que acabam por ferir.”[3] que são os sarcasmos costumeiros, as ironias, as injúrias como somos tratados. Já afirmou o Mestre Jesus que a brandura e a pacificidade nos colocam na condição de Filhos e Herdeiros do Pai. Sendo brandos transmitiremos a docilidade daqueles que conhecem a verdade e que avançam com passos firmes, pois sabem que caminham com segurança, possuidores do conhecimento da verdade. Pacíficos porque Deus é amor e aqueles que amam jamais agredirão seu próximo.

Neste mesmo capítulo, Mateus nos versículos 21 e 22 nos mostra que aqueles que conspurcam a Lei Divina serão entregues ao Juízo (a própria consciência), sendo regulado o comportamento e a medida do reajustamento pelo Conselho (a própria Lei Divina). Pois, enquanto nos mantivermos em erro teremos o “fogo do inferno” (as provas/expiações da vida) sendo o freio e a espora a nos mostrar o caminho do devido reajustamento.

Precisamos elaborar a paciência em nós. Esperando o dia da colheita. Se antes plantamos cactos, hoje colhemos cactos. Para amanhã colhermos flores, precisamos, mesmo diante das dores, plantarmos flores. A Providência Divina nos envolve a todos. Nada foge a Lei. Deus é a inteligência suprema[4] a reger o Universo. A paciência nos mantem firmes ampliando o nosso campo de visão e nos proporcionando o tempo necessário para absorvermos o aprendizado. Até que um dia, adquiramos a maturidade espiritual plena.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo Outubro de 2017

[1] Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. 9, item 07

[2] Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. 9, item 07

[3] Idem

[4] Questão nº 01 de O Livro dos Espíritos.

Anúncios