• RIE_12_2017
  • Quando alimentaste um dos meus pequenos, era a mim que o fazias.” (Jesus)

    Octávio Caumo Serrano | caumo@caumo.com

    Certa vez ouvi do preclaro amigo Éder Fávaro, atuante e laborioso confrade espírita, algo assim: “Já não basta distribuir mensagens espíritas; é hora de sermos nós a mensagem.”

    Certamente ele não invalidava o fecundo e pioneiro trabalho do Grupo Espírita “Os Mensageiros”, criado por José Gonçalves Pereira, na Federação Espírita do Estado de São Paulo (FEESP), em 18 de abril de 1953, exclusivamente para a edição de mensagens – esses “papeizinhos” distribuídos nos centros espíritas que transmitem sabedoria e socorro e que já salvaram a vida de muitos, evitando suicídios, assassinatos e regenerando pessoas de má conduta. Um dos supervisores dos assuntos a divulgar era o próprio Chico Xavier, o primeiro a receber os lotes de cada mês. Braço direito de Gonçalves, o também amigo Miguel Pereira nos contava muitas histórias sobre o assunto.

    O que Éder quis dizer, e disse, é que a única maneira de convencer alguém é com o exemplo. Mostre em você o que deseja aconselhar ao outro. Sem isso, suas palavras não serão ouvidas e seus escritos não deixarão raízes nos leitores. Há muito tempo circula uma frase que já foi atribuída a diferentes autores; entre eles, André Luiz, Francisco de Assis e Madre Teresa. Mas, independentemente do autor e do enunciado, vamos transcrever a sua essência: “Vê como vives; talvez sejas o único Evangelho que o teu irmão possa ler.” Já se diz popularmente que um grama de exemplo vale mais que uma tonelada de conselhos.

    A chegada do Espiritismo ao planeta atende à promessa feita por Jesus de que rogaria ao Pai que nos enviasse o consolador a fim de que ele restabelecesse as verdades que os homens deturparam ao longo de vinte séculos, tendo a humanidade se afastado das orientações primeiras deixadas por Jesus com sua forma singela de viver e ensinar. A doutrina que é dos Espíritos não veio construir templos de pedra nem monumentos que honrem seus seguidores, mas veio para popularizar o cristianismo, tirando-o das clausuras e levando-os à rua, fazendo-a acessível ao entendimento de sábios e leigos, de doutores e iletrados. Veio para socorrer os deserdados da sorte, mesmo sabendo que também estes cumprem expiação para corrigir falhas passadas. Veio também para esclarecer os privilegiados da economia que têm fechados os olhos espirituais e só veem em volta do próprio umbigo, ignorando as misérias do mundo. O templo agora é o próprio homem.

    A mensagem dos Espíritos veio para mostrar que a fé se percebe pela conduta do homem nos seus momentos mais penosos, quando, sem lamuriar, compreende que quita dívidas dolorosas que ele mesmo contraiu. E alegra-se, porque quando paga um pouco a dívida se reduz. Aliás, é num desses papeizinhos, chamados mensagens, que Meimei, Espírito, divulga por Chico Xavier a extraordinária página “Confia sempre”. Diz ela que os maiores deserdados são os que perdem a confiança em Deus e em si mesmos, porque “não há maior infortúnio do que sofrer a privação da fé e prosseguir vivendo”.

    O Espiritismo classifica a sua divulgação como expressivo gesto de caridade para que maior número de pessoas possa beneficiar-se dos seus ensinamentos. Mas entenda-se como divulgação não apenas os escritos, as conferências ou encontros, mas o comportamento que cada membro da sua comunidade apresente à sociedade, especialmente nos momentos de dificuldade ou convulsão social, mantendo-se equilibrado e fugindo ao lugar comum da agressividade, da revolta insensata e do negativismo, destruidor até das próprias aspirações humanas. O homem que professa essa crença tem o dever de ser o fiel da balança para restabelecer o equilíbrio nos momentos de desordem.

    Embora sem recordar a fonte, li ou ouvi uma assertiva que diz que o Espiritismo se espalhará por toda a humanidade, com os espíritas, sem os espíritas, apesar dos espíritas. Aparenta ser uma afirmação grosseira contra os seguidores de Kardec, mas se a frase existe de verdade, não é de todo infundada. Nós, os espíritas, deixamos a desejar quando se trata de testemunhar a doutrina com ações, a partir do nosso próprio lar. Somos os que mais afastam os familiares da nossa religião por não exemplificarmos o que o Espiritismo nos ensina, a fim de convencer os demais a seguirem pelo mesmo caminho. Também gostamos de demonstrar conhecimento citando bibliografia com capítulos e versículos, mas só na teoria. Este comentário serve para mim também como carapuça. Sou ainda como Paulo de Tarso que o bem que desejava não fazia, mas o mal que não queria, esse é o que fazia. Mas, espelhando-me nele, também procuro levantar após cada queda e empenhar-me para que sejam cada vez mais espaçadas. Minha gratidão ao Espiritismo é tal que me assusta só em pensar na ideia de maculá-lo.

    Ao fim de mais um ano, outro Natal chega para rememorar a visita de Jesus ao nosso lar e mais um ano que começa para que façamos promessas de modificação de caráter, a fim de crescermos para servir, sabendo que ao fazer pelo próximo somos os primeiros beneficiados. É o maior presente que esperamos de Papai Noel: esta conscientização.

    Felizes festas a todos os que fazem esta eloquente Casa Editora, aos leitores e um especial agradecimento aos que nos acompanham na Revista Internacional de Espiritismo, todos os meses, nesta nossa caminhada que já beira vinte e oito anos na coluna que nos é reservada e que procuramos honrar.

Revista Internacional de Espiritismo – Dezembro de 2017

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