Octávio Caumo Serrano

Um amigo comentou que em 1880 o reverendo inglês Gideon Ouseley achou um manuscrito chamado o “Evangelho dos doze santos” num monastério budista na índia, escrito em aramaico. No capítulo 21 ele afirma que Jesus falou: “Vim para abolir as festas sangrentas e os sacrifícios, e se não cessais de sacrificar e comer carne e sangue dos animais, a ira de Deus não terminará de persegui-los, como também perseguiu a vossos antepassados no deserto, que se dedicaram a comer carne e que foram eliminados por epidemias e pestes”. Falar da ira de Deus não contraria os princípios cristãos do amor ao próximo?

Ao longo dos tempos a “figura” de Deus foi usada pelos religiosos como um Pai punitivo que se irava e castigava, contrastando com a bondade e a misericórdia que a Ele atribuímos. Já na questão número 10 de O Livro dos Espíritos está indagado se “pode o homem compreender a natureza íntima de Deus” e os veneráveis responderam que não. Falta-lhe o sentido para isso”. Quando dizemos que somos filhos de Deus criados à sua imagem e semelhança, logo nos vem à mente um velho barbudo, com um cajado, sentado num trono, como os reis terrenos. Mas a nossa semelhança com Deus é espiritual, não física.

Sem reportar-nos a tempos sepultados num passado longínquo da história, chegamos a fatos relativamente recentes com Moisés e os dez mandamentos e vemos que depois de tirar os judeus do Egito ele continuou legislando em nome de Deus. Deus não permitia atividades aos sábados; a circuncisão devia ser feita nos meninos, porque Deus ordenara, quando era simples ato de higiene para evitar doenças. Deus proibia consumo de carne de animais de quatro dedos, como o porco. Hoje sabemos os cuidados que temos de ter ao preparar carne suína. Sempre bem cozida porque traz muitas enfermidades, como a neurocisticercose, por exemplo, que leva um verme do porco a diferentes partes do organismo, inclusive ao cérebro. E muitas outras providências importantes para manter a saúde das pessoas foram por Moisés atribuídas à vontade Deus. E as pessoas acreditavam cegamente e, portanto, obedeciam. Ainda hoje é comum a expressão “temente a Deus”, mas nunca no sentido do respeito, mas de temor; de medo. Se você pecar a ira de Deus se voltará contra você.

Para o Espírita não existe pecado, pois Deus não castiga nem perdoa. Deus é a Lei e não se envolve em nossas intrigas, paixões e desentendimentos, nem em tudo o mais que diga respeito à nossa vida mundana. Para demonstrar a Lei de Deus na prática, exemplificando, Jesus veio pessoalmente ao nosso planeta para informar que só o amor pode nos fazer melhores. Foi humilhado e perdoou, inúmeras vezes, embora tivesse poder para destruir seus inimigos com um simples olhar. Cumpriu um ritual doloroso para os humanos ao testemunhar, na prática, qual deve ser a atitude de um legítimo filho de Deus.

Jesus chegou até os nossos dias graças às anotações de alguns abnegados que viveram no seu tempo. Especialmente os Evangelistas. Há mais de cinquenta evangelhos apócrifos embora a igreja use para a sociedade apenas os de Mateus, Marcos, Lucas e João. Mas o pouco que foi registrado é mais que suficiente como roteiro para uma vida cristã que nos elevará na escala espiritual. Basta saber que o amor cobre a multidão de pecados, como consta na Epístola de Pedro. Ame e o resto virá por acréscimo de misericórdia.

Como deveríamos, então, comportar-nos diante da vida? Exatamente de forma contrária à que nos comportamos. Substituir a valentia pela mansuetude; o orgulho pela humildade; o egoísmo pelo desprendimento; a derrota provisória pela vitória eterna e a dúvida pela fé. Não precisamos ter sempre razão, pois isto só produz desafetos. Que o outro fique com a sua razão e nós com a paz no coração. Troquemos a bajulação provisória dos homens pela glória eterna de Deus. Assim cumpriremos a Lei.

Quanto a alimentar-se da carne, na questão 723 diz o Livro dos Espíritos: “Dada a vossa constituição física, a carne alimenta a carne, do contrário o homem perece. A lei de conservação lhe prescreve, como um dever, para que mantenha as energias e a saúde para o cumprimento da lei do trabalho. Portanto deve alimentar-se conforme exige seu organismo”. Com a evolução espiritual, suas necessidades grosseiras vão desaparecendo e alimentos mais frugais o suprirão suficientemente. Sem contar que hoje já existem vegetais com as mesmas proteínas da carne. A soja é um exemplo.

Feliz Natal e um iluminado Ano Novo para cada amigo leitor e para os que compõem a nobre Editora deste jornal que tantos recados libertadores nos oferece. Vamos dar graça a Deus pela oportunidade que temos de continuar vivendo e crescendo como espíritos imortais. E como Deus é misericórdia, fiquem todos certos de que Ele nunca castiga.

Jornal O Clarim – Dezembro de 2017

 

 

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