Octávio Caúmo Serrano   dia a dia 1/18 caumo@caumo.com

Os espíritos disseram a Allan Kardec que nós nos perdemos nas palavras. Que o ideal seria existir um idioma no qual cada palavra identificasse claramente uma ideia, sem subterfúgios ou divagações interpretativas.

Ao analisar as palavras humildade, resignação, paciência e outras tantas, vemos que cada pessoa lhes dá uma conotação. Humildade, uma das maiores virtudes espirituais que podemos encontrar em ricos e pobres, é confundida com a miserabilidade. Usa-se para definir uma pessoa sofrida, malvestida, sem recursos.

Resignação é entendida como acovardamento porque nos induz a aceitar tudo sem contestação. Na verdade, é o entendimento de que passamos por aquilo que precisamos, merecemos ou construímos e que, portanto, exige de nós luta sem revolta e não acomodação.

Paciência é entendida como calma passiva, contemplando o caos sem tomar qualquer ação. Mas não é. Paciência é equilíbrio, mas com enfrentamento contra o que nos desagrada, de maneira serena e sem perder a fé. Acreditando que passaremos por mais uma provação.

A gratidão também é entendida como a retribuição ao que nos fez o favor, com simples agradecimento, mas, sempre que possível, com algum bem ou favor. Exemplo dos mais simples é o da senhora que recebe da vizinha uma vasilha com doce e não consegue apenas lavá-la e devolver vazia, agradecida. Precisa pôr, também, algum presente como troca. Segundo os psicólogos essa atitude é feita para quitar a dívida e não ficar em posição inferior. Paga e já não deve nada. Embora aleguem que é apenas pagamento de gentileza com gentileza, o gesto esconde algo mais profundo.

A gratidão consiste em não ser mal-agradecido com quem nos ajuda, mas não há necessidade de ser retribuída para a mesma pessoa, desde que ela não precise. Podemos demonstrar nossa gratidão, ao fazer um favor a quem dele realmente necessite, mostrando que entendemos a possibilidade de ser fraternos. Se gostamos de receber, certamente o outros também se alegrarão com nosso gesto.

Não tenha pressa em se livrar da dívida de gratidão. Mantenha-a viva em sua alma feliz por ter quem preste atenção em você e desfrute o prazer de ter amigos desinteressados. A vida é troca permanente, mas não necessariamente entre as partes envolvidas apenas, mas num leque que abrange toda a sociedade. Já fui menino muito pobre e recebi ajuda de todos os lados, de pessoas às quais nunca pude retribuir. Estudei com desconto na mensalidade do colégio, vesti muita roupa doada, me alimentei de muitas sobras que a mãe, empregada doméstica, levava no final do seu trabalho. Mas depois disso, já ajudei muita gente. E o melhor, tenho vivas na memória todas as ajudas recebidas desde os meus sete anos de idade até hoje. Especialmente até os quarenta quando minha vida começou a estabilizar-se e pude dar mais que receber. Aos oitenta e três continuo na minha proposta de fazer o bem de todas as maneiras.

Gratidão à vida, em primeiro lugar. As pessoas são emissárias de Deus para ajudá-Lo na construção de um mundo cada vez melhor, do qual somos co-criadores. Dando e recebendo, permanentemente, sem sentir-nos humilhados ou envaidecidos. Tudo muito natural.

Se fôssemos nos aprofundar no assunto, veríamos que temos muito mais a agradecer do que a pedir. Gratidão por mais uma encarnação, pelo corpo, pelo lar, pelo trabalho, pelo alimento e pelas oportunidades de servir que passam à nossa frente a cada minuto e que geralmente não percebemos. É precisa que estejamos atentos.

Feliz 2018 e que Deus cuide de nós!

Jornal O Clarim – Janeiro  de 2018

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