Walkiria Araújo – walkirialucia.wlac@outlook.com 

“Não peço para que os tires do mundo, mas que os livres do mal.” Jesus. (JOÃO, 17:15)

Quando estamos sofrendo desejamos ardentemente que o sofrimento seja afastado. Mas o que deveríamos pedir é o enrijecimento das forças para podermos ultrapassar aquele momento e sairmos fortalecidos diante do aprendizado. Proposta lúcida encontrada no capítulo 162 do Livro Fonte Viva.

Proposta esta que se coaduna com a passagem de Mateus em seu cap. VII, vv. 21 a 23: “Nem todos os que me dizem: Senhor! Senhor! entrarão no Reino dos Céus; apenas entrará aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos Céus. – Muitos, nesse dia, me dirão: Senhor! Senhor! não profetizamos em teu nome? Não expulsamos em teu nome o demônio? Não fizemos muitos milagres em teu nome? – Eu então lhes direi em altas vozes: Afastai-vos de mim, vós que fazeis obras de iniquidade.”

Seguir os preceitos do Mestre não é fazer o bem acreditando que iremos receber retribuição. Não podemos querer dobrar a Lei pela quantidade de palavras que dizemos na prece ou pelas obras de caridade que abraçamos, mas pela mudança interior que produzimos dia a dia em nossas vidas. Quando se faz menção a obras de iniquidades, deixa-se evidente que a criatura está agindo com soturnas intenções. A questão 897 de O Livro dos Espíritos nos esclarece que nem pensando no que iremos amealhar na outra vida deveremos praticar o bem, pois ele deve ser feito caritativamente,…, desinteressadamente. Por isso, a reprimenda na passagem de Mateus.

Em síntese, a prática do bem atinge seu ápice quando a incorporamos no nosso modo de viver e não precisamos racionalizar se tal ou qual atitude será revertida em benefício ao próximo. Agiremos de acordo com o certo porque a consciência nos ditará que é o certo e como parâmetro de conduta, não porque representa resultado futuro para colheita do que fizermos. Será algo incorporado ao comportamento de nossas vidas. Como é a respiração nos dias atuais. Assim será a prática do bem.

Nos itens 24 a 27 do mesmo capítulo de Mateus encontramos: “Aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as pratica, será comparado a um homem prudente que construiu sobre a rocha a sua casa. – Quando caiu à chuva, os rios transbordaram, sopraram os ventos sobre a casa; ela não ruiu, por estar edificada na rocha. – Mas, aquele que ouve estas minhas palavras e não as pratica, se assemelha a um homem insensato que construiu sua casa na areia. Quando a chuva caiu, os rios transbordaram, os ventos sopraram e a vieram açoitar, ela foi derrubada; grande foi a sua ruína.”

Aqueles que ouvimos as mensagens trazidas pelos espíritos imortais e procuramos praticá-las na nossa vida diária equiparamo-nos a rocha que mesmo diante das intempéries da vida, da chuva de lágrimas, dos rios dos sofrimentos, dos ventos dos problemas, temos a nossa estrutura inamovível. Retornamos ao eixo do entendimento superior com mais facilidade. Utilizamo-nos da fé raciocinada para nortear os passos. Mas aqueles que constroem sua fé em bases frágeis, que conspurcam a Lei na busca do imediatismo e dos prazeres materiais vêm toda a estrutura construída ruir ao primeiro sopro de problemas, a primeira turbulência na existência, ao primeiro realinhamento de rota, por parte da Providência.

No referido capítulo do livro Fonte Viva encontramos: “Não supliques a extinção das dificuldades. Procura meios de superá-las, assimilando-lhes lições.” Aprendemos que ao lado do problema Deus coloca sempre a solução, o de que precisamos é termos olhos para enxergar essa solução. Esforçarmo-nos um pouco mais por superá-lo. A proposta é de adaptação visual espiritual ao que Jesus veio nos propor. Equivale a estarmos com miopia moral e o Espiritismo, através dos óculos do entendimento, vir e dissipar a nuvem que estava obscurecendo a nossa visão.

Vivemos a transpor a porta estreita do egoísmo, da idolatria a coisas vás, a pequenez de entendimento sobre a vida espiritual e quais crianças, queremos barganhar com Deus, vendo o que Lhe agrada para podermos ter algum benefício em restituição. Dentro da luta que se constitui o mergulho na encarnação atual, somos convidados, pela Lei, a fazermos também um mergulho interior, nos caminhos mais intrincados que existem em nós.

A cada porta estreita transposta, encontramos a chave com o mapa que nos leva a outro e a outro e a outro caminho. Diferente da brincadeira de criança, que não possuía consequências nenhuma, estas portas internas nos levam ao aprofundamento do conhecimento do ser e faz com avancemos como criaturas eternas que somos. Não basta que roguemos, em altas vozes, o nome do Pai, precisamos nos comportar como filhos do Pai em essência, atribuindo a cada atitude nossa o ensinamento que Jesus nos apregoou, procurando em cada ato praticar as palavras e o exemplo do Mestre Jesus.

Ninguém disse que seria fácil estar encarnado, principalmente num momento de grande turbulência moral que nos encontramos, nos quais forças antagônicas se chocam e que para os mais desavisados, parece que a corrupção, o mal e a derrocada moral estão vencendo. Destaque provisório, notoriedade daqueles que fazem barulho. Dia chegará e não tardará que o bem pacificará a Terra e não mais haverá espaço para o tumulto que se instala hoje nos corações humanos. Permaneçamos firmes, iguais à rocha destacada na passagem de Mateus esperando que as intempéries passem e que a primavera da renovação se instale em nós.

 

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – janeiro 2018