Octávio Caumo Serrano caumo@caumo.com

Somos muito pretensiosos para tão pouco conhecimento;

Ao estudar o Espiritismo ouvimos dos orientadores encarnados notícias de elevado nível, relatando a superioridade dos espíritos comunicantes, como se estes viessem das esferas divinas até ao plano material naturalmente, como em viagem de missão ou turismo. Bom saber que não recebemos orientações de espíritos da esfera do Cristo, mas de seus prepostos recém despojados das vestes do mundo que ainda sofrem muito as suas influências. Há os que ainda são mais humanos do que nós. Incluem-se nessa falange até os anjos guardiões. É fácil compreender isto, porque já aprendemos que não se destina um professor universitário a alunos de jardim da infância. Não adianta eles nos explicarem o que a nossa inteligência rudimentar e nosso conhecimento embrionário são incapazes de compreender.

No Livro dos Espíritos, logo na questão 10, foi indagado se o homem pode compreender a natureza íntima de Deus e os espíritos disseram que não. Falta-nos sentido para isso. Na questão 14 eles são contundentes, após perguntas sobre Deus e seus atributos: “Não vos percais num labirinto de onde não podeis sair. Isso não vos tornará melhores, mas um pouco mais orgulhosos, talvez, já que julgaríeis saber quando na realidade nada saberíeis. Deixai de lado esses sistemas, pois muitas coisas já vos tocam diretamente, a começar por vós mesmos. Estudai vossas próprias imperfeições para vos livrardes delas; isto será mais útil do que querer penetrar no que é impenetrável.”

Os Espíritos que responderam às perguntas que Allan Kardec incluiu em O Livro dos Espíritos, advertiram que não adianta querer viver no Céu se ainda não aprendemos a viver na Terra. Daí porque morrer e desencarnar são coisas diferentes. Muitos morrem, mas não desencarnam devido ao apego aos postos, às honras e outros preconceitos dos quais não se libertaram.

No capítulo XXVIII do livro Emmanuel, por Chico Xavier, o mentor do confrade mineiro fala sobre as comunicações espíritas, ampliando nossa compreensão sobre a mediunidade. Diz ele: “… cada plano recebe do que lhe é superior, apenas o bastante ao seu estado evolutivo, sendo de efeito contraproducente ministrar-lhe conhecimentos que não poderia suportar”.  Diz mais: “… a maioria das entidades comunicantes são verdadeiros homens comuns, relativos e falhos, porquanto conservam, por vezes integralmente (atenção!), o seu corpo somático e têm como habitat o próprio orbe que lhes guarda os despojos e as vastas zonas dos espaços que o cercam, atmosferas do próprio planeta, que poderíamos classificar de colônias terrenas nos planos da erraticidade”. Este conhecimento nos previne contra os médiuns deslumbrados que endeusam as entidades que recebem, chegando a admitir que falaram com os da mais alta corte celeste. Ignoram que não resistiriam sequer a luz emanada deles. O senador romano Publius Lentulus ao escrever a Cesar sobre Jesus disse que ninguém conseguia encará-lo porque “seu olhar resplandece no seu rosto como os raios do sol. Quando resplende apavora e quando ameniza faz chorar”. E Ele ainda estava entre nós!

O progresso espiritual não é algo que alguém conquiste só por querer. É preciso vencer a si mesmo para ser melhor. Há que incorporar virtudes e não apenas defini-las. É o que somos, não o que aspiramos ser. É o que pensamos, não o que falamos. De nada valem a voz mansa e a docilidade quando temos uma consciência cobradora e um coração cheio de mágoa e revolta. A fé é a aceitação da vida e não a frequência a um templo ou uma oração decorada. A fé verdadeira nunca desmorona diante da contrariedade. É inabalável.

“Dos motivos expostos, infere-se que a suposta vulgaridade dos ditados mediúnicos é um fato naturalismo, porque emanam das almas dos próprios homens da Terra, imbuídos de gosto pessoal, já que o corpo das suas impressões persiste com precisão matemática, e somente os séculos, com o seu consequente aglomerado de experiências, conseguem modificar as disposições cármicas ou perispirituais de cada indivíduo. Procuram agir no plano físico unicamente para demonstração da sobrevivência além da morte, levantando os ânimos enfraquecidos, porque dilatam os horizontes da fé e da esperança no futuro, porém, jamais serão portadores da palavra suprema do progresso, não só porque a sua sabedoria é igualmente relativa, como também porque viriam anular o valor da iniciativa pessoal e a insofismável realidade do arbítrio humano.” Você que é médium com tarefas definidas, tenha em mente que é ainda mais médium de si mesmo do que dos sofredores que o rodeiam. É o primeiro que deve aprender as lições sugeridas pelos comunicantes. Sentindo o sofrimento da entidade que se aproxima ficará alertado que se não se cuidar acabará como ela. Por isso a maioria dos médiuns é consciente. Aprende quando em transe para viver quando desperto e consciente. O acréscimo de uma só virtude, que implica o banimento do defeito contrário, já é apreciável conquista para uma encarnação.

“Todas as ciências estão ricas de especulações teóricas e todas as religiões que se divorciaram do amor estão repletas de palavras, quase sempre vazias e incompreensíveis. As predicações são ouvidas, por toda parte; mas a prática é rara, daí a necessidade de se habituar a ela com devotamento, para que os atos revelem os sentimentos, operando com o espírito de verdadeira humildade.” Tenhamos os pés no chão, caros confrades e iniciantes desta doutrina fantástica e esclarecedora. Somos informados mais para doutrinar a nós mesmos do que para converter a humanidade. Sejamos bons exemplos para despertar nos outros a vontade de imitar-nos. Mas sem perder a humildade porque há muito mais a aprender do que o que já nos foi revelado. O que sabemos é uma gota no oceano dos conhecimentos. Estamos ainda no jardim da infância espiritual. Conheçamo-nos, como propôs Sócrates, para aproveitar a encarnação sem pretensões descabidas ou sonhos irrealizáveis. Não esquecer que somos de um mundo de provas e expiações e, portanto, seres muito imperfeitos. Paciência e coragem!

Tribuna Espirita Nov_Dez_2017

Anúncios