Octávio Caumo Serrano  caumo@caumo.com

Muito inspirado o novo papa da igreja católica quando adotou o nome de Francisco, homenageando o “poverello” de Assis.

Há muito que nós defendemos a importância da disciplina nas reuniões do nosso Centro Espírita, porque não se trata de um evento social, mas uma confraternização espiritual, onde certos detalhes devem ser observados com rigor. Por exemplo, a indumentária que usamos nessas ocasiões, onde não deveríamos ir de shorts, regatas, chinelo, bermudas, decotes ou assemelhados, bonitos e próprios para outros locais. Temos também combatido o uso do famoso celular, pelo menos no curto período em que estamos no centro, porque se estamos mais preocupados com ele do que com os nossos problemas espirituais, melhor ficarmos em casa. Nada temos a fazer no centro porque nem doaremos nem receberemos. A simples presença física, com a alma alienada ante os acontecimentos, nada nos acrescenta.

Agora, também Francisco censura os celulares na missa, dizendo que a Igreja não é um museu e que os fiéis não são paparazzi para ficar fotografando a missa sem manter atenção à cerimônia religiosa. Reclama que chegam na igreja cinco minutos antes e em vez de recolher-se em silêncio conversam de tudo e com todos. Como numa festa mundana. No nosso centro não é permitido conversar enquanto esperamos o início da palestra. Distribuímos mensagens, revistas, temos biblioteca de livros espíritas, tudo para que o participante torne a espera menos cansativa, já que todos nós somos meio ansiosos e esperar nos causa desconforto.

Temos, encantados, acompanhado as atitudes do Papa Francisco que se mostra pleno de humildade no cargo que ocupa, a ponto de transformar em doação aos necessitados o valor de um carro de alto luxo que recebeu de presente. Lembrou-nos o episódio Chico Xavier, muito mais modesto, mas igualmente representativo, quando recebeu um Volkswagen zero Km e trocou-o com um fornecedor do centro por alimentos para os pobres.

Outro assunto que temos enfatizado é que não devemos nos aborrecer nem irritar com a desonestidade de bandidos, políticos corruptos ou qualquer outra coisa contra as quais não temos força para lutar. Devemos ter sabedoria para mudar o que pode ser mudado e também para aceitar o que não pode ser mudado. Nossa revolta insensata nos adoece e nada soluciona. Vimos o papa na sua última fala dizer que está a par da corrupção que existe na sua igreja, com dinheiro e problemas de pedofilia, homossexualidade e que tais, mas que ele depois que foi morar na Itália aderiu um pouco ao estilo italiano de vida. “Na Argentina, disse ele, eu era radical e vivia estressado, querendo consertar tudo. Aqui na Itália aderi ao “menefreguismo”, derivado da conhecida expressão fascista italiana “me ne frego” (que me importa), porque o que vale é seguir em frente no combate para que superemos qualquer risco.”

Ele demonstra estar convicto que somos parceiros de Deus na melhora do mundo, mas não devemos querer resolver os problemas que só a Ele competem. Quando o Criador se dá conta de que um filho seu está perdendo as oportunidades de crescimento e ainda prejudica o semelhante, Ele o afasta da sociedade usando uma doença, um acontecimento fortuito, ou mesmo desligando-o do mundo material fazendo-o voltar à espiritualidade para avaliar-se e recomeçar.

Observando a humanidade destes tempos finais, concluímos que tudo é irreversível. É impossível transformar a maioria dos homens de agora em pessoas de bem. Atuem onde atuarem, especialmente nos altos cargos onde a desonestidade é padrão de conduta. A melhora só vira com a substituição paulatina deles com a reencarnação de espíritos mais comprometidos com o bem. O que nos compete, como afirmou o Papa, é não sermos nós um desses desonestos. Se nossas convicções já nos levam a isso, menos mal. Mas se ainda invejamos a esperteza dos outros e desejamos também levar vantagem ilicitamente, é só deixar as águas rolar. A opção é pessoal e intransferível. Só que no final ninguém se queixe. A cada um segundo suas obras.

Vida longa ao Papa. Que ele sobreviva às máfias, inclusive a religiosa, e possa seguir como homem de bem. Agradecemos, Francisco, por seus exemplos de retidão de conduta.

Jornal O Clarim – fevereiro de 2018

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