Octávio Caumo Serrano   caumo@caumo.com

Jesus é a encarnação da Lei do Amor

Ao estudar o Evangelho de Jesus deparamo-nos com registros que dificilmente podem ser atribuídos ao Rabi da Galileia. Aquele que perdoou até os seus algozes em pleno flagelo da cruz, não pode ter tido certas atitudes que constam dos registros dos evangelistas como sendo ações de Jesus.

Em certas oportunidades, é verdade, ele tomou atitudes que contradiziam a sua natureza, mas para aproveitar o momento e ensinar. Exemplo, ao ser interpelado quando em uma reunião por pessoas que lhe disseram que sua mãe e irmãos ali chegaram e queriam falar-Lhe, Ele perguntou: “Quem é meu pai, quem é minha mãe, quem são meus irmãos? Meu pai, minha mãe, meus irmãos, são todos aqueles que cumprem a vontade do meu Pai Celestial.” ESE Cap. XIV, item 5

Embora nem sua mãe nem seus irmãos tivessem entendido a sua tarefa nem prestigiado o seu trabalho, ao contrário, censurando-O porque seus gestos pareciam inusitados, absurdos, irreais, em nenhum momento ele renegou sua família. Nesse episódio aproveitou para nos ensinar que a parentela que forma a família na terra tem como finalidade transformar parentes de sangue em amigos de alma e que os nascidos na casa do vizinho têm para Deus a mesma importância que nossos filhos e pais. Sabemos pelo Espiritismo que as famílias na Terra são formadas muito comumente por inimigos ou desafetos de vidas passadas e que voltam a se unir para nova tentativa de reconciliação. Por isso há ainda tanto desentendimento entre os que vivem no mesmo lar.

Lição igual está no ESE capítulo XXIII, Moral Estranha, quando diz que se o homem não aborrecer ou odiar seus pais não poderia ser seu discípulo. Sempre ensinando sobre a parentela temporária e a parentela espiritual na qual somos todos irmãos.

O mesmo se deu quando propositadamente não lhe ofereceram a lavanda para limpar seus dedos e Ele, ao ser censurado por não cumprir a lei, aproveitou para ensinar que o que faz mal ao homem não é o que entra pela sua boca, mas o que dela sai. Certamente não fazia apologia à falta de higiene, mas aproveitou para dizer que a maldade, a calúnia, a ofensa, fazem mais mal a uma pessoa do que uma possível comida indigesta. Uma lesa o corpo físico; a outra mancha o caráter e cria problemas de consciência.

Há, porém, certas atitudes grosseiras que são atribuídas a Jesus como a censura aos fariseus, chamando de raça de víboras, túmulos caiados. Ou quando expulsou os vendilhões do templo derrubando as barracas, junto com ovelhas, pombas e cambistas. Aqueles homens que ali estavam eram trabalhadores que vendiam suas mercadorias segundo as normas do Templo de Jerusalém ou trabalhavam no câmbio com dinheiro porque no Templo só se aceitava moeda judia. Jesus jamais iria desrespeitas quem estava trabalhando, embora jamais aprovaria o comércio na “Casa de Deus”, como nunca falou mal dos publicanos. Ao contrário, convidou Mateus que arrecadava pedágio dos barcos na Mar da Galileia para ser seu seguidor e, mais tarde, em Jericó, visitou a casa de Zaqueu. Dois homens que arrecadavam impostos para pagamentos a Roma.

Devido a estatura moral de Jesus, ao adentrar o Templo, o que ele fez raras vezes, porque morava no norte do país, na Galileia, onde fez quase toda a sua pregação e só ocasionalmente descia até Jerusalém, em dias de festa, é provável que os vendedores se amedrontaram com a sua presença e, alvoroçados, correram fazendo com que os animais também se assustassem derrubando tudo o que havia pela frente. Mal comparando com os dias atuais, como os camelôs das ruas que ao verem os fiscais recolhem tudo o que podem e fogem. Tivesse ele que censurar algo, o faria aos que governavam e não os que cumpriam as ordens fazendo disso a sua sobrevivência.

Quando estudarmos o Evangelho de Jesus, seja na Bíblia, nos livros protestantes ou nos textos espíritas e de outras doutrinas, analisemos sempre com bom senso e procuremos extrair do episódio a intenção de Jesus e não o ato conforme relatado friamente. Lembremos que os Evangelhos começaram a ser anotados muito depois da morte de Jesus. A maioria dos estudos, segundo divulgações correntes, concorda que os Evangelhos teriam sido escritos na seguinte ordem: MARCOS (em Roma 64 d.C), Mateus (em Jerusalém 70 d.C) Lucas (em Antióquia 80 d.C) e João (em Éfeso 95.d.C).  Muito dependeu da memória dos Evangelistas e da compreensão do que teria Jesus dito ou feito. Se ainda hoje não entendemos a essência da Boa Nova, imaginemos como isso chegava na cabeça daqueles homens. A prova é que na hora do suplício do Messias todos O abandonaram. Só ficou junto à cruz, com as três Marias, João, o apóstolo mais novo entre todos.

Somos eternamente gratos àqueles homens que registraram os fatos envolvendo a vida de Jesus, sem os quais nada teria chegado até nós. Que Deus os abençoe. Mas como espíritas usemos a fé raciocinada e não a crendice cega só porque dizem que isso ou aquilo aconteceu.

Tribuna Espírita – Jan/Fev 2018