Walkiria Araújo – walkirialucia.wlac@outlook.com

 “O reino dos céus é semelhante a um pai de família que saiu de madrugada, a fim de assalariar trabalhadores para a sua vinha.

Este Pai de família sendo Deus. Que cria incessantemente e incessantemente convida a todos nós a trabalharmos na sua vinha, na sua obra. Alguns chegamos muito antes, outros chegamos depois, outros ainda, não despertamos para a verdade bendita que vem a ser essa transformação moral que o Evangelho Segundo o Espiritismo, que a Doutrina Cristã, que o Mestre Jesus veio nos ensinar.

Jesus em suas passagens evangélicas sempre traz na simplicidade do ensino as experiências pessoais do povo como nós espíritas também fazemos para conseguirmos convocar as pessoas a um pensamento, a um entendimento mais fácil, para que depois, cada um a sua maneira, possa trazer para a sua vida pessoal e para as suas experiências a compreensão daquela mensagem. Mas Ele sempre traz um elemento estranho, tido pelos profissionais da área como elemento pedagógico, para fixar o aprendizado.

Tendo convencionado com os trabalhadores que pagaria um denário a cada um por dia, mandou-os para a vinha. – Saiu de novo à terceira hora do dia e, vendo outros que se conservavam na praça sem fazer coisa alguma, – disse-lhes: Ide também vós outros para a minha vinha e vos pagarei o que for razoável. Eles foram.

A questão do denário é para explicitar a vinculação do pagamento. Entendendo aqui que foi estipulado um valor como paga pelo serviço prestado. Outro ponto a ser destacado neste trecho é quando é ditoque pagará o que for razoável. Todos nós que nos dedicamos à labuta espírita, falando dos trabalhadores em particular, convencionamos, mesmo que implicitamente, um salário, seja através da prece, acreditando que os bons espíritos irão nos ajudar, enfim, através de alguma obra ou de algo que nos aconteça nos nossos momentos de sofrimento, que algo ou que alguém irá nos ajudar.

Nós convencionamos algo, algum pagamento, mesmo de forma inconsciente, que seja razoável diante daquilo que estamos fazendo. Vivenciarmos o altruísmo é algo difícil de ser verificado no momento atual, sairmos de nós mesmos, deixarmos de nos enxergar e passarmos a enxergar a necessidade do outro, sem esperar algo em troca. Podemos não esperar do outro, mas esperamos dos espíritos, da Divindade, da Lei, de alguém. De alguma forma combinamos com um desses que sejamos pagos, que recebamos uma restituição por aquilo que estamos fazendo. Então, por analogia, todos aqueles que eram convocados a trabalhar na vinha daquele senhor esperavam receber o pagamento razoável diante daquilo que eles estavam fazendo.

Saiu novamente à hora sexta e à hora nona do dia e fez o mesmo. – Saindo mais uma vez à hora undécima, encontrou ainda outros que estavam desocupados, aos quais disse: Por que permaneceis aí o dia inteiro sem trabalhar? – É, disseram eles, que ninguém nos assalariou. Ele então lhes disse: Ide vós também para a minha vinha.

A questão das horas destacadas explica-se porque, a época, o dia de trabalho começava às seis horas da manhã e terminava às dezoito horas. As horas em questão são respectivamente: seis, doze, quinze e dezessete horas. A hora undécima, correspondia às dezessete horas, sendo este o elemento estranho da passagem.

Todos nós que desejamos trabalhar na Vinha do Senhor, que procuramos por essa renovação moral, por essa transformação de nós mesmos, neste processo de melhoramento como criaturas, que temos como ponto de partida a modificação interior para chegarmos à perfeição, todos nós não importando a hora da vida que acordamos para a verdade eterna: se são nas nossas primeiras horas da encarnação, outros adentraram na adolescência, outros na fase adulta, outros na idade madura, outros as portas de desencarnar, na hora undécima, somos convidados pelo Senhor.

Que importa em que momento estamos? Todos nós abraçamos a Doutrina Espírita, voltando nosso olhar para essa mensagem rediviva, que nos cala fundo e que nos diz que existe uma vida melhor, bastando nos colocarmos à disposição dessa modificação, trabalhando por nós, modificando quem somos através do silêncio do aprendizado.

Ao cair da tarde disse o dono da vinha àquele que cuidava dos seus negócios: Chama os trabalhadores e paga-lhes, começando pelos últimos e indo até aos primeiros.

Mesmo na nossa sociedade espírita atual este trecho causa certo desajuste. Esquecemos que nosso acordo foi com a Lei, com a própria consciência, não com os homens. Quando aportamos numa Instituição e nos candidatamos a realizarmos trabalhos e abraçamos um após outro, às vezes verificamos que outro companheiro espírita realiza somente um, sendo ovacionado. Poderemos ficar descontentes por tal fato. Mas será que quando absorvemos os trabalhos que nos foram ofertados foi porque entendemos o sentido da obra ou porque queríamos ser bem quistos pela coletividade?

Aproximando-se então os que só à undécima hora haviam chegado, receberam um denário cada um. – Vindo a seu turno os que tinham sido encontrados em primeiro lugar, julgaram que iam receber mais; porém, receberam apenas um denário cada um. – Recebendo-o, queixaram-se ao pai de família, – dizendo: Estes últimos trabalharam apenas uma hora e lhes dás tanto quanto a nós que suportamos o peso do dia e do calor. Mas, respondendo, disse o dono da vinha a um deles: Meu amigo, não te causo dano algum; não convencionaste comigo receber um denário pelo teu dia? Toma o que te pertence e vai-te; apraz-me a mim dar a este último tanto quanto a ti. – Não me é então lícito fazer o que quero? Tens mau olho, porque sou bom? Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos, porque muitos são os chamados e poucos os escolhidos.” (S. MATEUS, cap. XX, vv. 1 a 16.)

Quando nos dedicamos a qualquer obra, inclusive a de renovação íntima, acordamos com a Divindade o que entendemos como sendo bom e razoável, mas somos ainda tão infantis espiritualmente que quando vemos o nosso próximo recebendo um pouco mais do que estamos recebendo e acreditamos que ele não se esforçou o mesmo que nós, reclamos com a Divindade, esquecendo-nos da carga reencarnatória de méritos que possuímos e o porvir da criatura. Às vezes estamos há muito tempo na Doutrina Espírita, mas ela não está há um ano em nossas vidas, enquanto outras pessoas, adentraram a pouco, mas fazem que a doutrina esteja dentro de si. O tempo não se constitui como condição demarcatória para candidatar a criatura a ser ou não cristã, mas o seu comportamento diante da mensagem. Somos todos trabalhadores da última hora, sendo convocados incessantemente pelo Pai, num convite amoroso a trabalharmos na sua Vinha de Renovação.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – Março 2018

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