RIE 05_18

Cada dia nos desencantamos mais com os espíritas

Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

A pergunta acima é de difícil resposta, porque cada um terá seu próprio ponto de vista. O comum é imaginar que o centro espírita existe para resolver problemas que outras doutrinas não conseguem. São pessoas que vivem desfilando nos templos cantando e louvando e dando uma contribuição para a prestação do terreno no céu, ou para que seus negócios prosperem. Quando percebem, após anos, que estão paradas no tempo e começam a ter dificuldades de toda ordem, correm para o centro espírita e levam seu pacote de problemas para que os Espíritos resolvam. Afinal, foi Jesus quem ensinou que “pedindo obteríamos”. Só que Ele disse também: “faz que o Céu te ajuda.”

Em suma, pedimos muito e fazemos quase nada.

Este primeiro grupo é composto por pessoas que chegam ao centro espírita e querem fazer consulta com médiuns incorporados, se há psicografia para receber informações diretamente dos mortos, não importa quem sejam, já que consideram todos os Espíritos sábios. Alguém lhes disse que seus problemas só podem ser produto da perseguição de obsessores. Acreditam que com meia dúzia de passes e palestras, acompanhadas de um cálice de “água benta espírita”, poderão resolver suas dificuldades e não percebem que nunca fizeram a parte que lhes cabe; frequentam alguma instituição por um ou dois meses e depois desaparecem. Por isso o centro é conhecido também como casa transitória onde muitos vão e poucos ficam. Se não estão no tempo de despertar, desaparecem. Se resolvem seus problemas, vão embora. Caso as dificuldades persistam, desistem porque o centro não funcionou no caso deles, e correm para outro centro ou outras doutrinas em busca de milagres.

Outro tipo de participante da plateia espírita é aquele que já nutre alguma simpatia pela doutrina e vê nela uma lógica que não encontrou em sua religião. Gosta do passe semanal e da palestra, embevecendo-se com encontros, seminários e congressos espíritas, encantando-se com as receitas que os competentes conferencistas espíritas oferecem nessas reuniões extremamente concorridas. Adquire muitos livros e vamos encontrá-lo no centro com o rigor de quem vai ao culto semanal da qualquer igreja. Entra no centro e sai da mesma maneira, sem saber o que acontece na casa, como pode contribuir ou trabalhar por sua própria melhora. Se chover, chegar visita, for feriado, houver atração especial na TV ou festa em família, o centro fica para depois. Esta é uma maioria expressiva.

Há também aquele tipo de participante que chegou a um despertar mais intenso, levado por problemas ou vazios existenciais, e decide engajar-se nas tarefas da casa. São palestrantes, passistas, atendentes, que já se dispõem a fazer algum curso para aprender mais sobre o Evangelho e tentar vivenciá-lo. É a comunidade espírita que forma a estrutura de cada centro. Pena que ainda muito morna, pois fazem o estritamente necessário. Ao sair nem lembram de apagar uma luz, fechar uma janela ou desligar o som. Terminado o trabalho fogem na velocidade de um raio, como se na casa houvesse algo peçonhento. Nunca se oferecem para nada além das atribuições que a casa lhes deu. Por isso o movimento espírita ainda cresce de maneira acanhada e toda instituição tem nas costas de dois ou três toda a carga de trabalho. Analise o centro que você trabalha e diga se o que afirmamos é mentira. Se a casa tem campanha de arrecadação de alimentos ou qualquer outra utilidade, nunca se lembram de trazer um pacote de arroz, um rolo de papel higiênico ou copos descartáveis que usam toda vez que vão à casa. Veem que o relógio parou, mas nunca oferecem uma pilha. Nem falamos da manutenção com limpeza e reparos físicos. Afinal, já são contribuintes com seu importante trabalho espiritual. Já dão de si, não precisam dar do seu.

Por fim, existem os participantes que têm o ideal espírita já muito arraigado e se dedicam à causa e à casa com grande interesse. Pena que muitos deles desejam cargos e postos de relevância, porque como presidente ou diretor do centro podem ostentar uma autoridade que nunca tiveram na vida social ou pessoal, já que suas vozes não são respeitadas, muitas vezes, nem no próprio lar. Pena que sejam mais teóricos que verdadeiros. Ainda pecam pela leviandade do não cumprimento da palavra empenhada, ainda discriminam confrades da sua ou de outras instituições, formam clãs pessoais, apegam-se às posições que não suportam deixar. Perpetuam-se nos postos e, como num reinado, só abdicam por desencarne ou grave enfermidade. Não passam de pessoas comuns rotuladas como espíritas. E são quase sempre muito respeitadas. Transformam-se em gurus que não conseguem guiar nem a si próprios.

Perdoem-nos o rigor da análise, na qual tentamos não nos incluir, sem conseguir, mas o movimento espírita poderia ser muito mais dinâmico, atuante, se fizéssemos do Espiritismo nossa prioridade de vida e não fôssemos espíritas de fachada apenas – e muito mal – dentro do centro. Se fôssemos exemplos de conduta e lisura e nossos interesses pessoais fossem secundários diante dos interesses da causa que professamos, se dispensássemos os incensos e cuidássemos mais do nosso caráter, a fim de exemplificar nas ações com a mesma ênfase que empregamos nos discursos, com certeza contribuiríamos expressivamente para o fortalecimento do movimento espírita.

Em qual desses grupos se enquadra o caro leitor no movimento espírita da sua comunidade?

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – maio 2018

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