RIE_06_18

RIE junho 2018

A oportunidade nos foi dada, uma vez mais, e a jogamos no lixo

Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

“A morte é um nascimento / da matéria pra energia. / O inverso daquele evento / que nos trouxe aqui um dia.” (Octávio Caúmo Serrano – “Salvemos o que é eterno”)

Começamos pedindo licença à filósofa russo-americana, Ayn Rand, judia, fugitiva da Revolução Russa de 1917, que chegou aos Estados Unidos na metade da década de 1920 para divulgar sua visão sobre o movimento revolucionário com conhecimento de causa: “Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia, não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais do que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, ao contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada e a honestidade se converte em autossacrifício, então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada.” E nós reforçaríamos: apodrecida.

Esta verdade, prestes a completar cem anos, é retrato da sociedade do nosso planeta, de leste a oeste e de norte a sul, sem excetuar um só país, uma única civilização, de qualquer tempo conhecido. O que podemos esperar, então, de um futuro a curto prazo? Resposta: com base na fé raciocinada, o caos social, porque não há a menor possibilidade de que esta coletividade planetária saia da desonestidade contumaz para a reforma moral num piscar de olhos. Como disse Ayn, somos uma sociedade condenada que nenhum exemplo histórico bom vai deixar, no campo da moral, para as povoações futuras. Avançamos cada vez mais em tecnologias que usamos para ofender, fraudar, corromper, punir e, esporadicamente apenas, para ensinar, salvar, ajudar e produzir. O tráfico de drogas expande; o prisioneiro comanda da cela a criminalidade das ruas; o trânsito mata cada vez mais e andar na rua ou ficar em casa são hoje dois fatores de risco na preservação da vida; hackers invadem nossa privacidade. É o mínimo! Poderíamos citar uma infinidade de problemas.

Dirão que este relato é pessimista, mas afirmamos que é só uma análise fria do quadro em que vivemos. A cada dia um novo senhor, outrora respeitável, é incluído na lista dos delinquentes, párias da sociedade, que emporcalham a raça humana, tida como o suprassumo da criação divina. Uma viagem sem volta que não pode ser completada em uma encarnação. A oportunidade nos foi dada, uma vez mais, e a jogamos no lixo.

Qual deverá ser, então, o comportamento dos que já defendem a decência, que lutam para melhorar, apesar de suas falhas? Perseverar. Para os espíritas, principalmente, as razões são claras. A reencarnação se destina ao crescimento espiritual, quando temos novas oportunidades para aprender e reparar equívocos do passado pela renovação da experiência que não foi devidamente assimilada. A Terra é uma escola, não um parque de diversões, embora tenha momentos de recreio, porque para os justos e bons a felicidade já faz parte deste mundo. Mas o fundamental é crescer moralmente para fazer jus à encarnação neste planeta quando ele for promovido a mundo de regeneração. Será um prêmio morar aqui, onde presenciaremos uma sociedade honesta, fraterna, competente e avançada. Vamos promover-nos junto com o nosso mundo. Se assim não fizermos, seremos banidos daqui numa reprise do episódio com a estrela Capela. “Quem perseverar até o fim será salvo”; palavras de Jesus. Nossa maior tarefa, portanto, é o aprimoramento próprio. Estamos no mundo para salvar-nos. E isto significa trocar cada defeito por uma nova virtude, antagônica. Vencer o orgulho pela prática da humildade; vencer o egoísmo pela prática do desprendimento; vencer o ódio pela prática do perdão. E assim sucessivamente com cada defeito que nos atrasa. Impaciência, inconformação, descrença etc., sabendo que nenhuma ovelha do rebanho se perderá.

Esperar a ajuda do pastor, contudo, não é o suficiente. Devemos nós mesmos procurar o caminho certo de retorno para o Pai. “Faz que o céu te ajuda” é outra marca registrada do Evangelho do nosso amorável Jesus Cristo.

Como crer em Deus se não cremos nem em nós? Ninguém imagina que tudo aconteça à revelia do Criador. Mas a verdade é que o livre-arbítrio é soberano no homem. Nem o anjo da guarda nos ajuda nem o obsessor nos derruba a não ser que contribuamos com nosso desejo. Nossa vontade e intenção traçam o roteiro do que desejamos para nós. É quando se aproximam mentor ou obsessor para ajudar-nos na execução dos nossos planos. Como na cantoria nordestina: nós damos o mote e eles criam as rimas.

Que ninguém desanime diante de nossas palavras, porque este é um momento cíclico que se repete de tempos em tempos. Hora de saneamento, separação de trigo e joio, que acontece sempre no mundo para o avanço do conhecimento moral e tecnológico. Quem viver na Terra daqui a cinquenta anos poderá regozijar-se com o planeta renovado. Mas é preciso merecer tal oportunidade. Se a felicidade não é deste mundo, podemos comprar agora as passagens para a grande viagem em direção ao tempo ditoso que já está próximo. Por enquanto, perseverar no bem, ajudando o quanto puder, livrando-se dessa malha de corrupção evolvente, da qual pouca gente escapa. A desonestidade, que parece esperteza e inteligência, não passa de ouro de tolo. Tem aparência dourada, mas por dentro é metal enferrujado.

Cuidemos da nossa encarnação para ter um produtivo desencarne. Esta vida na matéria é um presente que o Céu nos oferece. Saibamos ser gratos e aproveitá-la. Em O Livro dos Espíritos, questão 86, está escrito que o mundo material nem precisaria existir; André Luiz, por Chico Xavier, nos informa, porém, que esta vida serve como catalisador (acelerador) para o progresso espiritual. Em Evolução em dois mundos, capítulo 19: Alma e Reencarnação – Depois da morte, ele diz: “Ao morrer fisicamente, o homem que tenha culpas acumuladas sofrerá muito para delas se libertar, sendo que tão logo se conscientize e se arrependa, abreviará o sofrimento, iniciando estágios de elevação e reeducação. Ficar preso ao leito como doente, por longo período antecedente à morte é bênção, embora não apreciada, desde que tal tormento seja vivenciado resignadamente. Esse é abençoado tempo de autoanálise, que do contrário, carreará remorsos pós-desencarne. Todos os que agem com maldade, os viciosos em geral, caluniadores e demais criminosos, sem tempos de autoexame e arrependimento, após a morte física purgarão largos e difíceis tempos nas zonas espirituais tristes e altamente desconfortáveis. Experimentarão agora os mesmos males que causaram a outrem.”

Acreditemos e sigamos em frente.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – junho 2018