RIE_08_18Jesus Cristo foi o médico das almas, não dos corpos

Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

A Doutrina Espírita advoga para si o direito de ser o Consolador prometido por Jesus, porque sintoniza com o que foi relatado no Evangelho de João, quando nosso Cristo teria dito que rogaria ao Pai para que nos enviasse outro consolador. Atentemos para a íntegra do enunciado: “3 – Se me amais, guardai os meus mandamentos. E eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro consolador, para que fique eternamente convosco, o Espírito da Verdade, a quem o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece. Mas vós o conhecereis, porque ele ficará convosco e estará em vós. – Mas o Consolador, que é o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito. (João, XIV: 15 a 17 e 26)”

Que foi que nos ensinou Jesus quando esteve entre nós, basicamente? Que é importante que amemos o próximo, seja amigo ou desafeto, parente ou estranho, de qualquer raça, idade, religião ou ideologia política. Apenas o próximo. Porque amar é atributo dos bons e quem ama é feliz. Mais do que quem é amado. Que devemos fazer aos outros apenas o que gostaríamos de receber caso estivéssemos em situação idêntica. Ensinou-nos isto na parábola do Bom Samaritano, com toda clareza.

Que devemos nos esforçar e dar o melhor de nós, como relatou na parábola dos trabalhadores da última hora ao demonstrar que o esforço foi recompensado como o trabalho e os que estavam presentes até a última hora receberam o mesmo que os que chegaram na primeira, mesmo tendo ficado menos tempo à disposição do empregador. Valeu a vontade e a qualidade do trabalho.

Que devemos perdoar sem restrições, quando ensinou a Pedro que não são sete, mas setenta vezes sete vezes cada ofensa recebida. Ou seja, sempre.

Muitos, no entanto, perguntarão: mas Jesus não curou corpos? Ressuscitou Lázaro, curou o cego e o paralítico, a mulher com hemorragia, o filho do centurião, o leproso? Sim, mas para provocar a crença dos que duvidavam. Mandou lançar a rede onde havia peixes, multiplicou os pães para alimentar a multidão, caminhou sobre o Mar da Galileia, transformou água em vinho. Mas fez isso esporadicamente durante o seu apostolado. Qualquer médium da Terra, os vários que receberam Dr. Fritz ou o nosso bom João de Abadiânia, para citar apenas dois, fazem centenas de vezes todo mês mais curas que Jesus em toda a sua passagem pelo planeta.

Contudo, homem algum jamais ensinou as maravilhas que Jesus Cristo nos deixou como lições atualíssimas e irretocáveis. “Conhecereis a verdade e ela vos fará livres.”

Portanto, certo está o Espiritismo quando diz que o verdadeiro espírita pode ser reconhecido pela sua “transformação moral e pelo esforço que faz para dominar suas más inclinações” (O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. XVII, item 4 – Os bons espíritas). Não é pelas curas que faz, passes que aplica ou reuniões assistidas. O atendimento ao corpo pela fluidoterapia sem o acompanhamento das lições do Evangelho, utilizado atualmente até pelo SUS, tem solução parcial do problema. Sem a reforma do homem a cura nunca é completa.

O que o centro espírita, espírita de verdade, deve fazer pelo seu frequentador é enfatizar a vivência do Evangelho, a verdadeira cura que o Espiritismo oferece aos seus adeptos. O que vemos é uma inversão. Centro que faz curas do físico vive cheio e nas reuniões de estudo recebe sempre pouca gente. As pessoas frequentam seus templos das mais diversas doutrinas para orar e louvar o Senhor, mas quando adoecem do corpo correm para o Espiritismo. Essa história de amor ao próximo não é levada muito a sério. Por enquanto somos mais pelo amor próprio. Por isso, a humanidade está se destruindo no coletivo. Corpos saudáveis, sempre muito bem cuidados, enfeitados, e almas desalinhadas que não se encaixam na beleza das vestes. Jovens que gastam horas para arrumar cabelos e cútis nos institutos de beleza, enchendo-se de argolas pelo corpo todo, fazem desenhos na pele como couro de cobra, suportando a dor das agulhadas, mas que não aguentam uma aula de uma hora sobre o Evangelho de Jesus. Os valores estão invertidos.

Como o corpo físico é o templo do Espírito, uma alma saudável sempre refletirá sua beleza no corpo material. O corpo enfermo é sinal de alma adoecida.

Lembro-me que há muitos anos a revista das Casas André Luiz publicou o soneto Corpo e Alma, de Olavo Bilac, que reproduzimos abaixo:

Se tens uma alma e essa alma criatura,
Que te foi dada como um grande bem,
Quer um dia ascender, ganhar altura,
Ser um astro no além…

Tu tens um corpo e um corpo que procura
Rastear na lama que do instinto advém;
Quando sem dó tragá-lo a cova escura
Será lama também.

Nessa finalidade, atende, ó louco!
Corpo e alma são teus: a lesma e o astro;
Um quer subir e o outro andar de rastro.

Mas o que me surpreende, e é em que me espanto,
Que do corpo que é nada, cuidas tanto
E da alma que é tudo cuidas pouco.

Vamos rever nossas intenções em relação ao Espiritismo, esta doutrina consoladora, mas também redentora, quanto ao que ela pode efetivamente nos oferecer. Se buscamos a cura definitiva, que é a da alma, ou apenas a provisória, que é do corpo.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – agosto 2018

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